A Onda Coreana, também conhecida como Hallyu, conquistou grande parte do mundo na última década e um dos seus pilares mais sólidos é a música. Se você convive com jovens, é muito provável que conheça alguém que foi picado pelo “bichinho do k-pop” e teve a playlist dominada por um novo idioma.
K-pop é o termo utilizado para definir a música popular produzida na Coreia do Sul. Esse gênero musical tem algumas características marcantes, mas as influências de outros estilos aparecem em peso, passando pelo hip-hop, música eletrônica, rock, disco, reggaeton, entre outras.
Apesar de ter se popularizado globalmente só nos últimos anos, o k-pop nasceu há muito mais tempo e é uma das principais formas de fortalecimento da indústria do entretenimento coreana. De acordo com dados do G1, esse setor já rendia mais de US$ 4,7 bilhões ao ano em 2019, impulsionando a economia, turismo e diplomacia do país do leste asiático.
Para surfar essa onda que arrasta cada vez mais fãs, é preciso entender a força do k-pop e o que faz dele merecedor de tanta admiração e investimento.
Como o k-pop surgiu?
A música popular sul-coreana tornou-se um grande produto de exportação na década de 1990. A partir da expansão de tecnologias e demanda por produtos diferentes, a difusão do estilo musical é considerada por alguns autores como um dos pilares da Hallyu 2.0 (que surge após a popularização dos k-dramas e cinema sul-coreano).
Nessa época, as baladas perderam espaço para melodias mais dançantes, que tiveram um grande avanço tanto em quantidade, quanto em qualidade de produção. As batidas, melodias e letras fortes do k-pop, assim como a utilização de diferentes gêneros e ritmos musicais, se tornaram, então, mais atraentes para parte do público do que o pop japonês. Afinal, a música sul-coreana apresenta variadas formas e fontes de influência que resultam em músicas globalizadas, mas que mantêm características únicas.
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Um trio que se destaca quando falamos do início do k-pop como conhecemos hoje é Seo Taiji and Boys, que estreou em 1992 e oferecia uma experiência diferente do que era comumente conhecido pelo público, mostrando as características citadas acima. Já o H.O.T debutou em 1996 com cinco integrantes e se consagrou como o primeiro grupo a ganhar destaque na Coreia.
À medida que o sucesso aumentava, mais empresas apostavam em projetos com meninos e meninas cheios de talento.
Quem são os idols do k-pop?
Os artistas da Coreia do Sul são treinados para “serem mais que cantores”, tornando-se profissionais do entretenimento com habilidades para cantar, dançar, rimar, serem carismáticos e estilosos em cima de um palco. Não é à toa que essas pessoas são chamadas de idols (ídolos, em português) - verdadeiros exemplos que buscam ser amados pelo público e garantir o maior número de vendas. O magnetismo desses artistas fez com que principalmente adolescentes se tornassem consumidores do estilo musical, e a indústria reconheceu o potencial desses novos “clientes”.
Porém, a criação e gerenciamento desses idols é diferente do que acompanhamos com divas pop dos Estados Unidos, por exemplo. Começando pelo processo de seleção, é comum pré-adolescentes participarem de inúmeras audições globais para serem escolhidos como trainees de empresas que lançam grupos de k-pop. Funcionários dessas organizações também trabalham como “olheiros”, buscando jovens com potencial e/ou beleza para serem artistas em escolas, ruas ou outros ambientes.
Outro ponto importante é que a contratação como trainee não quer dizer que a pessoa já esteja preparada para se tornar um(a) idol - ou que vai estrear em algum momento. Meninos e meninas passam por períodos de treinamento rigoroso que podem durar anos. O processo inclui aulas de dança, canto, rap, idiomas, além de moradia, alimentação, às vezes cursos fora da Coreia, avaliações mensais, etc. Tudo é pago pela empresa contratante até o(a) trainee ser lançado(a) no mercado e pagar todos os valores de volta através do seu sucesso e resultados financeiros (ou ser mandado(a) embora por não atender às expectativas).
Confira um exemplo abaixo (contém legendas em inglês):
A agenda de atividades de grupos que conseguem chegar ao debut é acompanhada o tempo todo por um(a) manager (gerente, em tradução livre), que não é exatamente um(a) empresário(a) - o trabalho dele(a) é ajudar em todos os eventos e programas, além de garantir que os idols sigam as normas da empresa (que, geralmente, são muitas). Equipes de transporte, figurino e maquiagem também são frequentes na rotina diária dos artistas, garantindo que estejam sempre em sua melhor versão em todas as ocasiões.
As gerações do k-pop
Aqui também é preciso explicar que o k-pop, desde o princípio, é dividido em “gerações de artistas” marcadas pelos contextos em que grupos vão surgindo e a forma como são apresentados na mídia - falando tanto da música em si quanto de seus intérpretes. Grandes nomes atuais como BTS e Blackpink, por exemplo, são colocados na caixinha da "3ª geração do k-pop", enquanto Super Junior, BIG BANG, 2NE1 e Wonder Girls, assim como os solistas BoA e Rain, são da 2ª geração.
Com o tempo e o crescimento da Onda Coreana, os idols se tornaram cada vez mais projetos para alcançar o sucesso internacional, agregando mais elementos globalizados a sua música (como trechos em inglês) e saindo da bolha sul-coreana. Em 2009, as meninas do Wonder Girls se tornaram o primeiro grupo coreano a aparecer no ranking Billboard Hot 100 com a variante em inglês da música "Nobody". A disseminação estrondosa dessas produções também é marcada por “Gangnam Style”, faixa lançada pelo artista solo PSY (1ª geração do k-pop) em 2012. O clipe foi o primeiro vídeo a atingir 1 bilhão de visualizações no YouTube e o primeiro contato de muitas pessoas com a música coreana.
K-pop é muito mais que música
Apesar de ser visto como um gênero musical, o k-pop engloba muito mais do que a música. Na renda e investimentos dessa indústria, estão os clipes de alto nível de produção; a venda de álbuns, que incluem, geralmente, um CD com as músicas, coletâneas de fotografias profissionais e outros brindes; produtos oficiais, como bastões de luz (lightsticks) e roupas inspiradas nos grupos; programas de TV; transmissões ao vivo feitas pelos artistas; entre outros.
Esses conteúdos são lançados aos montes e as pessoas passam a acompanhar as atividades dessas personalidades, fidelizando-se, assim, a uma base de fãs. Dentro da Coreia, inclusive, é comum acontecerem encontros presenciais entre grupos e admiradores, artistas prepararem presentes para fãs que vão em programas de TV, etc.
Além disso, o fato da internet ser uma das principais formas de divulgação desses produtos faz com que eles cheguem de forma facilitada até pessoas dispostas a conhecer um novo gênero musical. Como consequência, os representantes do k-pop conquistam um espaço cada vez maior, aparecendo em programas de entrevista fora da Coreia, sendo tópico de documentários nas plataformas de streaming e até ocupando salas de cinema para transmissões de shows.
Idols virtuais também conquistam o público
E, como o k-pop acompanha de perto a evolução da tecnologia, já chegamos em um momento em que os mesmos idols existem tanto na vida real, quanto no mundo virtual. Empresas têm explorado as possibilidades e criado suas próprias estrelas cibernéticas da música.
Um grande exemplo dessas investidas é o K/DA, grupo musical criado pela Riot Games a partir de personagens de League of Legends. Evelynn, Kai'Sa, Ahri e Akali (com Seraphine entrando posteriormente) recebem as vozes de artistas do k-pop e da música internacional, mas são personalidades independentes criadas no ambiente virtual. O sucesso do grupo já garantiu várias músicas oficiais, fãs pelo mundo todo e apresentações no Campeonato Mundial de League of Legends em 2018 e 2020.
Já dentro da indústria tradicional do k-pop, cada vez mais grupos fazem parcerias com desenvolvedores para realizarem shows virtuais dentro de games conhecidos. Exemplos recentes incluem a apresentação do Blackpink no PUBG Mobile, a série de jogos do grupo BTS (BTS WORLD, BTS Universe Story, BTS Island, etc.) e o show virtual do grupo Aespa no festival de música “South By Southwest” (SXSW).
E não para por aí, já que a presença de artistas criados pela Inteligência Artificial está se fortalecendo há algum tempo, ficando prestes a explodir. O próprio Aespa estreou em 2020 com um conceito que causou bastante curiosidade. As meninas têm avatares em um mundo virtual que acabam se misturando com a realidade - tanto que uma das personagens, chamada Naevis, será apresentada como artista solo em 2023.
O SUPERKIND, por sua vez, deu um passo além e debutou em 2022 com um membro IA chamado Saejin. Ele é integrante honorário tanto quanto os outros meninos de carne e osso, e o plano para esse grupo é adicionar mais artistas virtuais com o tempo.
Por fim, temos o grupo MAVE, criado completamente por Inteligência Artificial. As quatro garotas foram desenvolvidas pela Metaverse Entertainment, subsidiária da Kakao Entertainment e da Netmarble, desenvolvedora de games mobile que também trabalha com o gerenciamento de artistas virtuais. O quarteto se apresentou no programa MusicCore e a revista Rolling Stone Brasil também revelou que as idols virtuais "já possuem uma agenda de compromissos marcados", testando as barreiras do mundo real.
Fãs que transformam o k-pop
O k-pop move muito dinheiro mas, principalmente, move pessoas. Esse gênero musical tem um escopo de assuntos gigante, indo do romance adolescente colorido, à saúde mental e crítica à indústria, e também incentiva ações fora das plataformas online. É comum ver campanhas ajudando instituições com os mais diversos focos.
Durante os anos 2000, fãs de um dos integrantes do grupo Shinhwa enviaram milhares de quilos de arroz para instituições de caridade. Alguns exemplos recentes podem ser atribuídos a BM, membro do grupo KARD, que ajudou a organizar campanhas voltadas ao Câncer de Mama e luta contra o bullying.
Em 2021, fãs do BTS adotaram mais de 4.000 tartarugas marinhas para soltá-las de volta no oceano. Isso tudo para "presentear" o membro mais novo do grupo, Jeon Jungkook.
Aqui no Brasil, o Army Help The Planet organizou uma campanha em 2020 que arrecadou mais de R$ 40 mil para ajudar na luta contra os incêndios no Pantanal. E, claro, uma das iniciativas mais conhecidas é a Love Myself, em parceria com a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) desde 2017, que luta contra a violência, o abuso e o bullying, além de promover a autoestima e o bem-estar entre crianças e jovens.
São vários os resultados do que é realizado pela comunidade engajada com o k-pop, mostrando como um fragmento (bastante grande) da Hallyu acaba movimentando pessoas pelo mundo inteiro. Kim Namjoon (RM), líder do grupo BTS, explicou durante uma conferência de imprensa para a campanha Love Myself realizada em 2017:
"Acredito que os sete membros do BTS não podem mudar ou subverter o mundo, mas se continuarmos lembrando os slogans "Ame a Si Mesmo" e "Acabe com a Violência" [...] acredito que, pelo menos, a geração jovem que gosta de nós pode se mover em uma direção positiva."
Não é só música popular da Coreia do Sul
O k-pop é mais uma prova de que histórias e sentimentos não são limitados pela geografia. Mesmo que não se entenda palavra por palavra, o sentimento que uma música ou um clipe passam pode ressoar pelo mundo inteiro. A Onda Coreana se fortalece a cada dia enquanto prova que as pessoas espalhadas pelo globo têm muito mais coisas em comum do que podemos ver.
O principal gênero musical sul-coreano, claro, também representa o sucesso mercadológico da Coreia do Sul em reerguer um país com muito investimento em cultura. Desde 2018, os streams de k-pop nas plataformas de música aumentaram 230% globalmente.
Além disso, o k-pop e sua presença na internet quebram as barreiras de comunicação e unem pessoas das mais diversas nacionalidades. De acordo com dados do Twitter, a hashtag #KpopTwitter registrou cerca de 7,8 bilhões de publicações só em 2022, com o Brasil sendo o oitavo país com mais fãs dentro dessa comunidade. Não é por acaso também que cada vez mais shows acontecem no nosso país, trazendo esse estilo musical para um ambiente bastante diferente de onde é produzido.
Sendo tão popular principalmente entre os jovens, não é mais estranho que o k-pop se torne um elemento de destaque na personalidade de muita gente. Existe toda uma cultura própria deste mercado específico que pode começar a se instalar na rotina a partir de algumas palavras simples ou uma melodia aleatória. Então, fique ligado no NerdBunker, pois teremos mais conteúdos sobre k-pop e Onda Coreana em breve.