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Onda Coreana? Entenda o que é Hallyu e o seu impacto no entretenimento
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Onda Coreana? Entenda o que é Hallyu e o seu impacto no entretenimento

Popularização de k-dramas, k-pop e filmes sul-coreanos ajudam a divulgar a cultura da Coreia do Sul pelo mundo

Saori Almeida
Saori Almeida
01.fev.23 às 12h18
Atualizado há 7 meses
Onda Coreana? Entenda o que é Hallyu e o seu impacto no entretenimento
Reprodução/Baruson/CJ ENM

Nos últimos anos, é provável que você tenha conhecido alguém (ou seja a pessoa) que passou a assistir alguns k-dramas aqui e ali, ouvir k-pop e até decorar o nome de astros de filmes sul-coreanos. Tudo isso faz parte de uma tendência chamada Hallyu ou “Onda Coreana”, que propaga a cultura da Coreia do Sul pelo mundo.

Entre exemplos recentes, há o sucesso da série Round 6, da Netflix, o Oscar de Parasita como Melhor Filme em 2020 e a grande repercussão de grupos como BTS e Blackpink. Porém, nada disso está acontecendo por acaso. Esse aumento na divulgação da cultura coreana é resultado de um investimento da Coreia do Sul no setor. Em 2020, por exemplo, o Ministério da Cultura do país recebeu mais de ₩ 6 trilhões em investimentos (cerca de US$ 5 bilhões ou R$ 25 bilhões na cotação do dia 30/01/2023).

Então, para entender como um pequeno país do leste asiático se tornou um gigante no mar de séries e músicas ocidentais, vamos surfar (e explicar) a Onda Coreana.

O que é a tal da Hallyu?

A "Onda Coreana" ou Hallyu (한류), apelido dado pela mídia, representa os esforços da Coreia do Sul para reerguer e exportar a cultura do país após décadas de uma ditadura militar que terminou no final dos anos 1980.

A ideia era reviver a identidade nacional, além de investir em estrutura e orçamento. Os “holofotes” que existiam (e ainda existem) sobre a cultura popular do país foram utilizados para isso, destacando programas de televisão, música, indústria da beleza, cinema e moda.

Com isso, a "Onda Coreana”, que chegou por aqui apenas na última década, começou bem antes em países como China e Japão. Entre 1980 e 1990, por exemplo, era comum ver filmes de ação produzidos em Hong Kong e animações japonesas ganhando popularidade em outros países do leste asiático. Porém, mudanças nas políticas de mídia da região e a Crise Financeira Asiática de 1997 acabaram criando possibilidades para as produções audiovisuais sul-coreanas.

Essa crise não só permitiu que mais produtoras e conteúdos surgissem no país, como também complicou a compra de materiais em dólar americano. Nesse contexto, a Coreia do Sul colocou seu preço de exportação abaixo da média de mercado e conseguiu entrar nas grades de programação da China.

O NerdBunker entrevistou a pesquisadora Daniela Mazur, que falou sobre o tema no artigo A Indústria Televisiva Sul-Coreana no Contexto Global. De acordo com ela:

“Foi a partir desse cenário de abertura que a Coreia do Sul conquistou seus primeiros públicos estrangeiros para exportação e consumo de dramas de TV. Começando sua expansão pelos territórios da esfera chinesa, como China, Hong Kong e Taiwan, passando pelo Vietnã, para então conquistar o Japão e outros países. Com esses primeiros passos televisivos para além-Coreia, outros produtos nacionais começaram a ser difundidos para esses mercados estrangeiros, dando-se assim início ao fenômeno cultural da Onda Coreana.”

Formato das produções sul-coreanas 

Outro ponto é que o formato adotado para as séries/novelas sul-coreanas, chamado de trendy drama, já estava em alta, principalmente no Japão. Esse estilo aposta nos conflitos do dia a dia dos personagens, que precisam se desdobrar para dar conta de trabalho, estudos e, claro, romance. Frequentemente usam um cenário urbano para tais situações e o enredo aborda vários aspectos da vida cotidiana, socialização e cultura do país, despertando a curiosidade do espectador.

Em 1997, por exemplo, o drama First Love (첫사랑, em coreano) foi colocado na grade de programação de TV da China e se tornou o segundo maior conteúdo de vídeo importado do país de todos os tempos. A história gira em torno da vida de dois irmãos, Sung Chan-hyuk e Sung Chan-woo, e seus relacionamentos com uma garota chamada Lee Hyo-kyung desde a infância até a idade adulta - “simples assim”.

Imagem de divulgação do k-drama First Love (1996) Imagem de divulgação do k-drama First Love (1996), com os atores Choi Soo-jong, Bae Yong-joon e Lee Seung-yeon (First Love/Divulgação/KBS)

Apesar disso, não é possível colocar essas produções em uma única caixinha. Outra obra que fez muito sucesso, provando isso, é Jewel in the Palace (대장금, em coreano), drama histórico exibido entre 2003 e 2004. A trama é focada na primeira mulher que se tornou médica da realeza durante a Dinastia Joseon (1392-1910). Depois de sua exibição original, a produção foi exportada para mais de 80 países dentro e fora da Ásia. Como explica Daniela Mazur:

"Dramas são formatos televisivos, com dinâmicas que podem variar, e não um gênero em si."

Imagem de Jewel in the Palace Protagonistas de Jewel in the Palace, Seo Jang-geum e Min Jung-ho, interpretados por Lee Young-ae e Ji Jin-hee (Jewel in the Palace/Reprodução/MBC)

O interesse pelas produções televisivas sul-coreanas era pontual no início, e até teve certa rejeição por parte do público. Entretanto, a disposição das pessoas para assistir as histórias que a Coreia do Sul passou a exportar foi aumentando com o tempo - até chegarmos a um outro tipo de “televisão”.

Popularização dos k-dramas no streaming

Várias plataformas de streaming têm investido em produções sul-coreanas nos últimos anos, adicionando principalmente k-dramas aos seus catálogos. 

Em 2019, a Netflix firmou uma parceria com a CJ ENM, empresa de entretenimento multimídia da Coreia, e a sua subsidiária Studio Dragon para produzir e distribuir séries e filmes sul-coreanos. O acordo duraria inicialmente três anos e rendeu bons frutos. Uma pesquisa realizada no segundo semestre de 2020 pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul revelou que o Brasil foi o 3º país que mais consumiu produções audiovisuais sul-coreanas naquele ano, ficando atrás apenas da Malásia e Tailândia. 

A empresa do Tudum também investiu, só em 2021, mais de US$ 500 milhões em produções da Coreia do Sul, incluindo longas originais, k-dramas e continuações. Um painel dedicado apenas a esses conteúdos, inclusive, foi promovido pela Netflix e prometeu 34 novidades em 2023.

Imagem da série Round 6 No momento em que essa publicação é escrita, Round 6 é a maior série da Netflix, com 1,65 bilhão de horas assistidas nos primeiros 28 dias pós-estreia (Round 6/Reprodução/Netflix)

Outras plataformas que disponibilizam uma grande biblioteca de dramas sul-coreanos são o Rakuten Viki (fundado em 2007) e a Kocowa (lançado em 2016), que podem ser acessados no Brasil.

O cinema da Coreia se destaca

E se a cultura da Coreia do Sul tem muito destaque na TV, também não podemos deixar de falar sobre o Oscar de 2020, que teve um marco histórico para os filmes do país.

O ano consagrou Parasita como o primeiro longa de língua não inglesa a ganhar o prêmio de Melhor Filme do maior evento da indústria cinematográfica. O diretor Bong Joon-ho subiu ao palco mais três vezes naquela noite, para receber as estatuetas de Melhor Filme Internacional, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção. A produção venceu quatro das seis categorias a que foi indicada, e Bong usou o espaço para reforçar que o padrão de produto oferecido nos cinemas estava mudando.

Durante seu discurso de agradecimento no Globo de Ouro 2020, evento no qual também recebeu o prêmio de Melhor Filme Internacional, ele falou:

"Quando vocês superarem a barreira de 2,5 centímetros das legendas, serão apresentados a vários outros filmes incríveis.”

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A fala remete a uma rejeição que parte do público americano têm em consumir conteúdos legendados. Embora seja comum assistir produções dubladas e legendadas em países como o Brasil, não é raro existir um estranhamento por parte de quem mora nos Estados Unidos e sempre vê conteúdos em inglês (algo que, felizmente, pode estar mudando).

Já a população sul-coreana é uma das que mais frequenta o cinema no mundo e o próprio governo criou uma série de investimentos para que a indústria cinematográfica do país renascesse pós-ditadura. A administração de Kim Young-sam (1993–1998) tomou medidas para abrir esse mercado e, ao mesmo tempo, inseri-lo na mídia global. O cinema também foi incluído no currículo escolar da Coreia do Sul, em paralelo a escolas e cursos específicos que surgiam no país. 

Também é necessário mencionar o sistema de cotas para filmes sul-coreanos nos cinemas do país, criado em 1966. Esse programa previa um número mínimo de dias para a exibição de produções nacionais (sob censura do governo ditatorial da época), chegando a atingir o auge de 146 dias - o que durou até 2006. Mesmo com a redução desse tempo posteriormente, as cotas ainda garantem a exibição de longas nacionais e dá espaço a projetos independentes. 

E por último, mas não menos importante, os diferentes festivais de cinema pela Ásia, sendo o de Busan um dos mais importantes da região, têm um papel muito importante na expansão da Hallyu. Entre os exemplos de bons resultados em festivais, o longa Oldboy venceu o Grand Prix no Festival de Cannes em 2004. Oito anos depois, Pieta ganhou o Leão de Ouro em Veneza. E filmes como Oasis, Burning e On the Beach at Night Alone também estão na lista de vencedores em grandes eventos.

Uma vez dentro da Hallyu, é difícil de sair 

Imagem de Uma Advogada Extraordinária Uma Advogada Extraordinária é outro k-drama recente que fez grande sucesso na Netflix (Uma Advogada Extraordinária/Reprodução/Netflix)

Um dos pontos que mais chama a atenção na Onda Coreana é como ela é abrangente. Embora o k-pop seja mais popular entre o público mais jovem, os k-dramas são consumidos por pessoas de todas as idades e origens. E cada conteúdo tem potencial para puxar o seguinte.

Qualquer pessoa pode assistir uma série ou filme e, de repente, se interessar pela moda, pela trilha sonora, pelos maneirismos e características culturais. Pode ouvir uma música em inglês e, pouco tempo depois, descobrir que é de um grupo de k-pop. Pesquisar sobre os integrantes, descobrir que um deles fez um k-drama e procurar outras produções. Ver trabalhos endossando marcas sul-coreanas e ficar curioso para experimentar as comidas e produtos de beleza. A ordem dos fatores não altera o resultado final: você se interessa pela Hallyu.

A Coreia do Sul tem muitos aspectos distintos do que estamos acostumados, mas essas diferenças estão sendo apresentadas ao ocidente de forma atraente há alguns anos. Existem, por exemplo, cada vez mais festivais sobre a cultura sul-coreana aqui no Brasil, como o Hallyu Rio/ Hallyu Digital Festival, o Festival da Cultura Coreana e o Festival Hallyu em São Paulo, e assim por diante. Cursos para aprender o idioma e feiras de produtos coreanos também ganham espaço.

Tudo isso mostra como boas histórias têm a capacidade de ressoar entre pessoas de qualquer lugar do mundo. A Coreia do Sul entendeu esse potencial e, após muito investimento, se tornou uma grande potência do entretenimento - que segue em processo de ascensão. E, como é difícil detalhar sobre todos os aspectos da Onda Coreana em um texto só, fique de olho no NerdBunker, porque em breve falaremos também sobre a força do k-pop.

Enquanto o próximo texto não chega, confira este episódio do Nerdologia sobre a História do K-Pop e a política externa da Coreia do Sul:

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