O sucesso da Wargaming na América Latina é um caso muito curioso. A desenvolvedora fundada em Belarus fez o seu nome com o game de ação online World of Tanks (2009), que continua firme e forte mesmo 15 anos após o lançamento, e depois com World of Warships (2015), focado em batalhas navais. Mesmo muito longe do Leste Europeu, o Brasil caiu nas graças de ambos.
Por conta disso, não é incomum ver estandes do estúdio em eventos de games nacionais, como a Brasil Game Show, BIG Festival e agora a gamescom latam. Além disso, os jogos são inteiramente traduzidos para português do Brasil, e contam também com redes sociais, suporte e canais oficiais da comunidade no nosso idioma.
Em entrevista ao NerdBunker, o gerente de comunidade Kristhian Rupp-Mancilla comentou um fato intrigante: no caso de World of Warships, foram os jogadores brasileiros que conquistaram a atenção da Wargaming, e não vice-versa.

O próprio Kristhian Rupp-Mancilla é fruto desse grupo. Formado em História Econômica pela Universidade de São Paulo, ele começou como tester de Warships em 2019, depois deu uma força na localização do game, e eventualmente se tornou o gerente de comunidade para a empresa na América Latina. Conhecer o game, morar no Brasil e saber falar russo foram importantes para conquistar o cargo. “Perdeu a mágica, agora eu vejo como o negócio é feito”, brincou.
Mas como é o restante da comunidade do game no Brasil? Segundo Rupp-Mancilla, o público é uma combinação peculiar e muito única:
“Temos dois grandes grupos. O primeiro é de uma faixa etária mais alta, com cerca de 40 a 50 anos. Tem um pessoal aposentado, que tem tempo e realmente se dedica. Como o jogo não exige muita rapidez e reflexos, para eles cai mais fácil, porque há um tempo para pensar e mirar, não é como um Counter-Strike. Dá para se divertir muito mais, explorar o mapa.”Outro grupo é bem mais jovem, de 20 e poucos, perto dos 30, que gosta muito da cultura de anime — os otakus, que adoram cultura japonesa. Até pelos crossovers e colaborações que fazemos, tem esse conteúdo no nosso jogo, e eles acabam sabendo.”
Otakus e aposentados parecem grupos muito distintos, mas o gerente de comunidades jura que há uma ligação entre os dois: o fácil acesso ao game gratuito, de requisitos pouco exigentes, e o fascínio marítimo do brasileiro.
“O Brasil tem uma história naval: temos uma costa imensa, e boa parte da população mora perto, então há esse contato com o mar. Descendemos de um país que foi a base da cultura e tecnologia naval moderna. Tudo que Portugal criou no século 15 e 16 foi herdado pela Grã-Bretanha, que depois virou o Império Britânico baseado nessa tecnologia naval. Somos, também, parte disso.Outro fator é que Warships é free-to-play e pode ser customizado para não ficar tão pesado no computador. A gente sabe que a maioria dos brasileiros não tem como colocar uma placa [de vídeo NVIDIA RTX] 4080. Não é a realidade de todo mundo. O jogo perde um pouco da beleza gráfica, mas é jogável, sem travar ou gaguejar. O pessoal não se sente forçado a trocar de computador a cada dois anos, como acontece com outros títulos.”
Máquina verde e amarela
Gerente de comunidade falou sobre o processo de criação das inéditas embarcações latino-americanas [Créditos: World of Warships/Divulgação]Em breve, esse interesse pela história naval do Brasil se manifestará de outra forma. World of Warships receberá três embarcações latino-americanas, incluindo o encouraçado brasileiro Ipiranga. Além disso, haverá a possibilidade de selecionar uma personalidade histórica como Comandante: o Almirante Joaquim Marquês Lisboa, o Marquês de Tamandaré. Conhecido como Patrono da Marinha, ele participou de diversos conflitos na América Latina no século 19, como a Independência do Brasil, Guerra da Cisplatina e do Paraguai.
Enquanto o Marquês de Tamandaré é, sem dúvidas, uma personalidade real, o Ipiranga é um caso diferente. O encouraçado nunca existiu, mas a Wargaming não o inventou do nada, como explicou Kristhian Rupp-Mancilla:
“[As novas embarcações] São baseadas em um encouraçado brasileiro que já esteve no jogo, o Atlântico, que foi parte de um evento especial e não está mais disponível. Ele foi criado a partir de três pré-projetos que o Brasil estava querendo adquirir no início do século 20.Para cada navio histórico que realmente foi lançado, é preciso, no mínimo, uns cinco pré-projetos, com estudo de viabilidade, para ver se está dentro de uma série de tratados que limitam esse tipo de navio, estabelecidos a partir de 1922. A quantidade de projetos é muito superior à quantidade de navios que realmente existiram.
Nós nos damos a licença poética de pegar um desses projetos e dar uma modernizada, como tirar de 1922 e levar para 1942, com a tecnologia naval de 20 anos depois. Fazemos esse update no projeto e lançamos como um navio dentro do jogo, como foi o caso do Atlântico. São os navios que mais dão trabalho para a gente, verdade seja dita.”
A partir desse molde feito com elementos da história naval brasileira, surge não só o Ipiranga, mas também o encouraçado argentino Los Andes, e o chileno Libertad. São máquinas completamente inéditas, feitas como um exercício de criatividade e também como agradecimento à enorme comunidade que o MMO conquistou no continente, tão distante do país de origem.

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World of Warships está disponível gratuitamente para PC, e conta com versões paralelas para Xbox One, PlayStation 4, Xbox Series X | S, PlayStation 5, Android e iOS.
A chegada das embarcações latino-americanas ao game de computador será em algum ponto de julho, sem data definida. Já o Comandante jogável Almirante Joaquim Marquês Lisboa deve chegar por volta de setembro.
Primeira edição brasileira da famosa feira alemã, a gamescom latam acontece entre os dias 27 e 30 de junho, no São Paulo Expo. A edição de 2025 já está confirmada.
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