Depois de mais de uma década apanhando da Konami, o fã de Silent Hill enfim teve um momento de felicidade nesta quarta-feira (19), quando a empresa anunciou simplesmente três jogos da franquia em um evento digital, além de um novo filme e uma série live-action.
Entre os projetos jogáveis, enfim foi confirmado que Silent Hill 2 - considerado por muitos como o ápice da série - ganhará um remake pelas mãos dos poloneses da Bloober Team (Layers of Fear, The Medium). O trailer, que reconstrói vários momentos do clássico na Unreal Engine 5, enche os olhos - mas esse não deveria ser o único ponto de contato dos novatos com a franquia.
O saldo do evento digital é bastante positivo, mas é um pouco decepcionante que a Konami sequer considere a possibilidade de um relançamento digno dos jogos originais nas plataformas modernas. Se estivessem mais acessíveis, uma verdade viria à tona: Silent Hill é uma franquia que merece ser apreciada muito além da nostalgia.
Refazendo memórias
A necessidade de uma modernização é sempre celebrada como uma chance de formar novos fãs. O argumento é válido, visto que tudo sobre os jogos clássicos de Silent Hill parece ameaçador para novatos: os gráficos, a indisponibilidade, os controles. A ausência de uma memória nostálgica serve apenas como a cereja do bolo, pois cria um lamento de oportunidade perdida. Quem jogou quando essas características eram revolucionárias agora é fã fiel, mas esse trem já passou para todos que não chegaram em tempo.
Como é o caso de todo remake, é comum que as pessoas mais animadas sejam as que nutrem memórias afetivas do material original. O fato de que há pouco interesse em facilitar acesso aos clássicos serve bem para demonstrar que a indústria de games emplacou com sucesso a noção de que o único passado que merece ser lembrado é o nostálgico.
Entre a intimidação do primeiro contato e as memórias da infância, a indústria então se aproveita do lançamento de um remake para oferecer um rentável braço amigo, que acolhe veteranos no saudosismo, e oferece uma segunda chance para os novatos sentirem essa experiência transformadora em primeira mão.

Sim, muita coisa mudou de 1999 para cá, mas isso não significa que esses jogos antigos - que desbravaram a transformação narrativa e estética do meio - perderam seu valor. Há muitos casos em que um remake é bem-vindo, como quando Resident Evil se reinventa por completo a partir do mesmo molde, mas a noção geral de que apenas remakes podem atrair novos jogadores é fruto direto de uma indústria que não vê valor no próprio passado além do monetário.
O jogador, porém, não precisa se conformar com essa lógica de mercado, e Silent Hill é um ótimo passo nessa direção. Vale a pena ficar ansioso pelo remake, claro, mas os jogos originais merecem a atenção dos novatos por serem obras grandiosas. Tudo que pode ser apontado como datado é, na verdade, justamente o que garantiu que os melhores da série tenham envelhecido como vinho.
A fase clássica da franquia se refere aos quatro primeiros títulos, desenvolvidos por uma equipe conhecida como Team Silent, entre 1999 e 2004. Por mais que um ou outro game que veio depois tenha agradado alguns fãs, a quadrilogia estabeleceu um padrão tão alto que nunca foi superado - ou sequer atingido.
Eternos sonhos intranquilos

Todas as qualidades que consagraram esses jogos em suas épocas continuam lá. Pegue o primeiro Silent Hill, por exemplo. Os controles são meio duros, usando o infame esquema de movimento conhecido como “controle de tanque”, e os gráficos tão pixelados, que podem até cortar. Mas isso apenas aumenta o charme e a tensão de um game cuja construção atmosférica e narrativa melancólica seguem tão refinados quanto eram em 1999.
Mesmo que não tenha os mesmos truques cinematográficos que um God of War da vida, Silent Hill sabe como instigar a curiosidade do jogador, e também como apresentar seus temas de forma inteligente, sem nunca soar expositivo. As jornadas individuais dos personagens se misturam com o ambiente da cidade de forma que o próprio jogador se vê envolvido nos mistérios, em cavucar todos os cantos por cada segredo sombrio, e em tentar entender onde você se encaixa em meio às forças obscuras, cultos perversos e mentes quebradas.
Os quatro primeiros jogos lidam com culpa, solidão, ocultismo e paranoia com a elegância de um livro de Ray Bradbury ou Richard Matheson, com o impacto de um bom episódio de Além da Imaginação - que, por sinal, foram grandes influências para esse universo, ao lado de Stephen King, Edgar Allan Poe e muitos outros que transitaram com graça pelo macabro.
O grande elefante branco na sala é, claro, a jogabilidade. Os controles de tanque são amplamente desprezados pela cultura gamer, e por si só já são motivo o suficiente para muita gente ansiar pelas modernizações de um remake. É preciso dizer, porém, que eles servem à sua função. O controle travado é uma das grandes forças-motriz por trás da tensão angustiante de cada corredor escuro e de cada combate sofrido.
Além disso, acredite: você sequer perceberá aquela dificuldade inicial após alguns minutos de jogo. Cada gamer pode sim ter sua preferência, e é totalmente justificável odiar controles de tanque, mas a jogabilidade não pode ser separada da essência da obra. Assim como os ângulos fixos de câmera, o esquema de controle é parte de uma ambientação meticulosamente confeccionada para te deixar suando frio. Rejeitar a intenção é rejeitar a própria linguagem da franquia.

No fim das contas, tudo se resume a repertório. É interessante para grandes empresas que o público não tenha vocabulário para analisar criticamente o que veio antes, apenas consumir em busca de requentar memórias afetivas. Qualquer entusiasta de videogame como um meio sério, ao invés de só hype em produtos, se beneficia de olhar para trás com a mesma curiosidade que se olha para o futuro.
Isso não é uma forma de desmerecer o remake, que impressiona pelos visuais e que é desenvolvido por um time muito talentoso e respeitoso à obra original. Mas o Silent Hill 2 não é uma obra que precisa ser corrigida ou melhorada - no máximo, apenas retocada com um relançamento digno em plataformas modernas, ou então uma remasterização que não seja desastrosa.
Como diz o ditado popular, jogo novo é aquele que você nunca jogou. A máxima vale mesmo para títulos com idade apta para dirigir, tomar cerveja ou até mesmo ser seu pai. Seja curtir o game original de PS1, ou então desbravar uma excelente trilogia do PS2, Silent Hill é uma experiência atemporal que merece ser discutida, analisada, criticada e exaltada muito além do saudosismo pelos primeiros sustos da infância.
Infelizmente, das quatro obras da Team Silent, apenas Silent Hill 4: The Room (2004) é vendida oficialmente pelo GOG. Os demais estão espalhados entre versões digitais no PlayStation 3, na memória do PlayStation Classic ou então através da emulação. Também é possível encontrar versões para PC em sites de Abandonware.