Não é raro que obras de arte recebam o rótulo de “incompreendidas” ou “à frente de seu tempo”. No cinema e TV, essa descrição geralmente é usada por fãs de produções que não caíram no gosto do público na época do lançamento original. Curiosamente, essas discussões começaram a aparecer ainda mais no mainstream graças aos filmes de super-heróis.
Rejeitados pela crítica e por boa parte do público na estreia, produções como Quarteto Fantástico (2005), Homem-Aranha 3 (2007), a dobradinha de O Espetacular Homem-Aranha e até Batman e Robin (1997), eventualmente voltam a ser tema de debates. As conversas sobre a natureza da má recepção geralmente acompanha a pergunta: esses longas foram injustiçados ou simplesmente são ruins?
Esse é um fenômeno que lembra o caminho que muitos filmes cult trilham antes de cair no gosto do público. Várias dessas produções levam anos, mas ganham um novo significado ao saltar de “fracassos de bilheteria” a objeto de carinho e devoção por parte de um grupo muito apaixonado.
Longe de mim dizer que produções como X-Men Origens: Wolverine (2009) ou Lanterna Verde (2011) serão os próximos Blade Runner (1982) ou Clube da Luta (1999), mas é interessante perceber como a jornada de fiascos que se tornaram clássicos pode ajudar a entender a onda revisionista que toma conta do universo dos heróis nos cinemas.
Como um filme se torna “cult”?
Em linhas gerais, “filmes cult” são aqueles que angariam uma fanbase apaixonada e vocal, que os cultuam independente do resultado nas bilheterias ou da opinião de críticos e público em geral. Nos EUA, muitas dessas produções passaram a ganhar um outro olhar com reexibições nas chamadas “sessões da meia-noite” em salas de cinema e na TV.
A veiculação de filmes, sejam os clássicos ou os ditos ruins, aumentou ainda mais com a popularização do VHS e depois do DVD. A mídia física, de um modo geral, facilitou o acesso a produções que pareciam fadadas ao esquecimento, um terreno fértil para a formação de “cultos” a produções menos exaltadas – geralmente por pessoas que acreditam que elas não receberam o reconhecimento que mereciam.

Super-heróis cults? Muita calma nessa hora
Ainda que essa lógica possa ser aplicada aos filmes de super-heróis – especialmente na era dos streamings –, há um porém. Os filmes cult só passam por todo esse processo de marginalização e redescoberta porque parte do dito fracasso se deve ao fato de que eles não atendem às expectativas e convenções do circuito comercial de cinema. Como descreveu Irv Slifkin à Vanity Fair, “filmes cult eram algo proibido e rebelde, o que o público mainstream não gosta”.
Eles são o outro lado da moeda das produções de grandes estúdios, que contam com orçamentos astronômicos, os chamados “blockbusters”. E é justamente essa a categoria em que se encaixam os filmes de heróis, produções artísticas que também devem atender a interesses comerciais como fazer boa bilheteria, vender bonecos e inspirar atrações em parques de diversões.
Isso inclui até mesmo filmes como Coringa (2019), que até tenta disfarçar o fato de ser uma história sobre um dos mais famosos vilões dos gibis com uma abordagem séria e dramática, inspirada em clássicos da Nova Hollywood.
Dessa forma, pode soar um tanto equivocado definir filmes de super-heróis como “cult”, mesmo que as duas categorias tragam semelhanças ao passar por um processo de marginalização e redescoberta. Especialmente porque as novas interpretações das produções baseadas em quadrinhos surgem de formas bastante diferentes. Vamos a elas.

O fator nostalgia
Uma das fagulhas para novas análises é o fator nostalgia. Direcionados ao público jovem, filmes como os citados acima podem não ter colado com os adultos da época – responsáveis por escrever críticas e levar os pequenos aos cinemas –, mas certamente foram importantes para as gerações que cresceram com eles. Seja como porta de entrada para esses universos ou simplesmente algo que passava sem parar na televisão, é fato que essas obras tiveram impacto e até ajudaram a formar o gosto de uma parcela do público.
E esses fãs, que hoje são adultos, podem reviver um pedaço de suas infâncias ao lembrar das produções. Esse olhar favorável, garantido por memórias positivas, pode levar o espectador a encontrar pontos fortes que não tenham ganhado a mesma atenção que os defeitos ou expectativas frustradas em seu lançamento original.
É assim que muitos defensores de Homem-Aranha 3 conseguem ver com bons olhos a forma que o diretor Sam Raimi concluiu o arco de seu Peter Parker, mesmo com as interferências do estúdio. É como se a poética conclusão em que o herói perdoa o Homem-Areia compensasse toda a patacoada que envolve o Venom.
Claro que nostalgia nem sempre funciona dessa forma, e muita gente pode quebrar a cara ao rever um filme querido e finalmente encarar seus defeitos. Mas, se tratando de um gênero que se tornou tão popular, não é raro encontrar quem veja valor mesmo em longas ditos "indefensáveis".
“O filme original do Quarteto Fantástico é extremamente subestimado! As crianças de hoje nunca vão entender quão incrível e inovador esse filme foi e ainda é! Estúdios podem tentar fazer reboots dessa franquia, mas nunca será tão bom quanto já foi! Além disso, Chris Evans é o TOCHA HUMANA”
O legado mutável
Outro ponto muito comum na reavaliação de certos filmes está na forma como o legado desses mudou com o passar do tempo. Um exemplo recente e muito forte foi a forma como o público celebrou o retorno de Andrew Garfield ao papel de Peter Parker em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021) após o fracasso da saga O Espetacular Homem-Aranha (2012 - 2014).
Não que a culpa do fiasco da dobradinha seja do ator, longe disso. Mas, como protagonista, ele se torna o rosto de uma interpretação que deixou a desejar de um dos maiores heróis da cultura pop. Essa é uma visão que muita gente reavaliou com o triunfal retorno de Garfield no longa do Marvel Studios. Aposto que desde dezembro de 2021 você topou com várias campanhas pedindo por um terceiro O Espetacular Homem-Aranha.
“Se você queria O Espetacular Homem-Aranha 3, você deveria ter aparecido para O Espetacular Homem-Aranha 2”.
Novas interpretações
Outra forma de trazer filmes execrados de volta ao debate é o surgimento de novas perspectivas que só puderam aparecer graças a um distanciamento histórico. É o caso de Batman & Robin, produção massacrada desde seu lançamento, mas que passou a ganhar defesas apaixonadas graças a tópicos que foram eclipsados pelos mamilos no traje dos heróis em 1997.
Hoje é possível encontrar defensores do estilo camp da produção, especialmente pela coragem de homenagear o Batman cômico da série dos anos 1966 e se distanciar da estética sombria e melancólica que já havia sido feita nos cinemas anteriormente. Uma troca que pode não ser apreciada por todos, mas impede o personagem de ficar eternamente preso no mesmo tipo de produção – especialmente considerando o momento atual, em que muitas obras do gênero não se permitem ousar.
Além disso, há quem exalte o filme por seu subtexto homoerótico refletido tanto na temática, quanto na estética. São vários os depoimentos de fãs que encontraram conforto e validação em se verem representados um filme de ação de grande orçamento dentro de um nicho que ainda evita esse tipo de histórias com medo de represálias. Uma interpretação que escapava até ao diretor Joel Schumacher, que levou 20 anos para falar abertamente sobre isso à GQ: “nunca pensei que [Batman & Robin] fosse um momento importante no cinema gay. Mas ei, eu aceito”.

E quem está certo?
Depois de apontar algumas das várias formas de revisitar filmes de super-heróis classificados como ruins, surge a inevitável pergunta. Está certo quem ainda não gosta deles ou quem se propõe a analisá-los novamente? A resposta é: ambos.
Considerando que gostos são pessoais e dependem de uma série de fatores, não é possível chegar a um “veredito” sobre o valor de uma obra. Especialmente porque a pressa em definir produções em “bom” ou “ruim” geralmente torna qualquer debate raso.
E a palavra-chave aqui é “debate”, já que a ânsia de definir um consenso geralmente faz com que muitas camadas e atributos passem batido. Mas é justamente dessas conversas que podem surgir argumentos e ideias que trazem novas perspectivas a obras destinadas a rótulos simplistas. Não dá para ser ingênuo e esquecer que estamos falando de produtos, mas isso não os torna as produções imunes a reflexões.
Voltando ao cinema clássico, vale lembrar o exemplo de Alfred Hitchcock, que só foi ter o devido reconhecimento como “diretor autor” após o trabalho de críticos (e futuros cineastas renomados) como François Truffaut em discutir sua obra. Isso porque alguns dos filmes de Hitchcock não iam bem nas bilheterias e boa parte de crítica (e público) o viam apenas como um cineasta comercial.
Não fossem esses debates, dificilmente Um Corpo Que Cai (1958) seria eleito o melhor filme já feito pela Sight & Sound em 2012, mais de 50 anos após fracassar nas bilheterias e dividir críticos.

É claro que isso não quer dizer que todos os filmes são incompreendidos e que veremos Morbius (2022) recebendo prestígio, ou sequer que todas as novas ideias vão mudar seu conceito sobre algo. Particularmente, concordo bastante que Homem-Aranha 3 é muito mais esperto do que parece, ao mesmo tempo em que não sou nem um pouco atraído pela ideia de assistir outro filme com o Peter Parker de Andrew Garfield.
O mesmo acontece com Batman & Robin, que não caiu nas minhas graças, mas certamente tem meu respeito por ter sido capaz de inspirar e dar forças a outros fãs como eu. É uma nova consideração que poderia passar batido se eu abraçasse o consenso e aceitasse perpetuar as cansadas reclamações sobre Bat-cartões de crédito e mamilos no traje. Santa reviravolta, Batman!