No mundo dos otakus, é comum classificar uma obra pela demografia que ela pretende atingir. Assim, um shonen é direcionado para o público jovem masculino, enquanto os shoujos contam com tramas para agradar meninas adolescentes. Há ainda produções direcionadas para o público adulto, e tudo isso mostra como mangás e animes quase sempre possuem uma forte questão geracional.
- Kaiju No. 8 é um anime promissor para os fãs de ação e ficção científica
- Kaiju No. 8 ganhará um mangá derivado
Esse é um dos pontos da trama de Kaiju Nº 8, anime lançado semanalmente na Crunchyroll, inspirado no mangá de Naoya Matsumoto. Ainda que possa ser classificada como um shounen, ao mostrar um mundo invadido pelos monstros gigantes kaijus, a obra tem um protagonista já na casa dos 30 anos, que interage com personagens mais jovens e parece sempre em busca de recuperar o “tempo perdido”.
Em entrevista ao NerdBunker, Leonardo Santhos, dublador nacional do protagonista Kafka Hibino, falou sobre a questão do “conflito” de idade entre os personagens que, depois de se conhecerem um pouco, acabam se dando bem:
“No final, todo mundo sempre está aprendendo alguma coisa com todo mundo, independente da idade. Às vezes você abre um tutorial na internet, e claramente é um menino de 13 anos que está ali te ensinando e ajudando [risos].”

Heitor Assali, dublador de Reno Ichikawa, ressaltou como a percepção de idade muda com o passar do tempo, e acredita que os adultos de hoje conseguem conversar mais com o público jovem: “Quando eu era mais novo, as pessoas de 30 anos pareciam ser muito velhas. E hoje em dia, nós chegamos aos 30 e percebemos que não é bem assim. No final, é um embate geracional mais flexível.”
Dentro da história, essa dualidade é bem representada justamente por Kafka e Reno, que possuem idades bem diferentes, mas acabam se dando bem. Para Assali, um se vê no outro, o que cria um laço importante.
“Quando eles se encontram, no começo, o Reno enxerga no Kafka o que ele seria se desistisse, e o Kafka vê no Reno o que ele seria se não tivesse desistido. Então existe um paralelo entre os dois que, em determinado ponto, cria um vínculo muito forte.”
Identificação com os personagens

Durante a entrevista, ficou claro também como os dubladores nacionais de Kaiju Nº 8 se identificam com os respectivos personagens. Santhos, por exemplo, disse que não teve nenhuma dificuldade em criar a persona de Kafka, já que as personalidades dos dois são parecidas:
“Tenho muita sorte de fazer esse personagem, porque eu acho ele muito parecido comigo. Não tenho nenhuma dificuldade em fazê-lo, de verdade. O encaixe de voz funciona, ele é meio bobo, como eu também sou. Há uma diferença quando ele se transforma, para uma voz mais gutural, mas a interpretação dele é muito alinhada comigo.”
Quem teve a mesma sensação foi Assali. Ichikawa chega à história com uma personalidade mais quieta e reservada do que Kafka, e isso levou o dublador a afirmar até que vê o personagem como uma “versão mais nova e de cabelo branco” de si mesmo.
Fechando o trio principal do anime há Kikoru Shinomiya, uma garota com várias habilidades para o combate, mas que sente falta de relações mais próximas com as pessoas. Falando ao NerdBunker, a dubladora Marianna Alexandre disse que achou interessante construir as diferentes camadas da jovem, que também costuma provocar bastante o veterano Kafka:
“Ela é bem o estereótipo da personagem loirinha, bonitinha, que chega no meio da ação, e foi muito legal [ter essa diferença]. Gosto muito de pegar o material original para ter uma base, e ela tem uma voz doce, mas que tem um peso. Sinto que ela quer mostrar a que veio e conquistar o próprio espaço, o respeito das pessoas.”
Importância da dublagem simultânea
Para quem acompanha os lançamentos de mangás, a estreia do anime de Kaiju Nº 8 foi muito aguardada e chegou com um temperinho especial para os brasileiros, com o lançamento dos episódios dublados já na estreia.
Erick Bougleux, diretor de dublagem da produção, afirmou que a questão logística para fazer isso dar certo é menos complicada do que parece, e ressaltou a importância de criar uma identificação instantânea do público com as vozes nacionais:
“Quando a obra já sai dublada e legendada ao mesmo tempo, é maravilhoso. Uma das vantagens é que o público já cria ali uma identificação com as vozes nacionais (...) Quando a dublagem chega muito depois, existe uma ‘quebra’, e uma necessidade de conquistar o espectador de novo. Já quando temos a dublagem chegando junto com a estreia do episódio, isso não é necessário. A primeira identificação com o personagem pode ser já com a voz nacional. Não é sempre que isso acontece, infelizmente, mas acho que a indústria está caminhando em direção a isso”.
Kaiju Nº 8 ganha novos episódios aos sábados, na Crunchyroll. Aproveite e conheça todas as redes sociais do NerdBunker, entre em nosso grupo do Telegram e mais - acesse e confira.