Ambientado durante um desastre em uma plataforma de petróleo, Still Wakes the Deep é um jogo capaz de transmitir a sensação de frio, vento gelado na cara e roupas molhadas. A sobrevivência é um desafio constante pelo tempo violento, mar impiedoso e, claro, pelas criaturas grotescas que querem devorar a sua carne.
O novo jogo da The Chinese Room (Dear Esther, Amnesia: A Machine for Pigs) é um curto conto de horror cósmico, fortemente influenciado por H.P. Lovecraft e pelos filmes de John Carpenter. Mas, com uma ambientação igualmente memorável e sufocante, o game se sobressai ao combinar as ameaças incompreensíveis aos perigos naturais, enfrentados por gente comum.
A trama se passa em 1975, no litoral da Escócia, e segue Cameron ‘Caz’ McLeary, um homem enrascado com a lei e com problemas com a esposa. Na tentativa de resolver a própria vida e melhorar as condições da família, ele aceita o emprego de eletricista na imponente Beira D, plataforma de petróleo no Mar do Norte. Todas as questões que lhe atormentam são jogadas de lado quando, certo dia, a furadeira desperta algo terrível no fundo do mar, causando um desastre de proporções sobrenaturais.
Hora extra

Como a Chinese Room é uma desenvolvedora focada em narrativa, não surpreende que o texto de Still Wakes the Deep seja bom. O jogo constrói aquele universo com enorme riqueza de detalhes, com personalidades marcantes, motivações reais e diálogos naturais, com vocabulário tão particular da Escócia ao ponto de ser de difícil entendimento até para quem é versado em inglês. Felizmente, a ótima tradução por texto carrega o espírito informal, boca-suja e floreado dos personagens.

Aliás, protocolos de segurança é como o game justifica todos os enigmas. Na tentativa de conter um desastre, o protagonista e os demais trabalhadores tentam reparar geradores, buscar botes salva-vidas, conter vazamentos de petróleo e várias outras alternativas factíveis, tudo com os devidos passo-a-passo de retirar travas de segurança, puxar as alavancas na ordem certa e apertar os botões corretos. É uma forma de manter o ritmo dinâmico sem sacrificar a imersão do jogador.

Por si só, a Beira D é um lugar de botar medo, isolada no meio de um mar raivoso, realizado com gráficos de ponta e efeitos impressionantes. Quando a catástrofe acontece, tudo só fica pior: é de gelar a espinha ter que segurar a respiração para nadar por escuras salas de paredes metálicas, invadidas por vigas retorcidas, águas sujas e petróleo. O game constantemente brinca com locais claustrofóbicos ou desoladores, alternando entre a tensão de estar apertado com a grandiosidade da infraestrutura da plataforma e da solitária paisagem ao redor.
Em carne viva

Após o desastre, a plataforma começa a ser tomada por tentáculos de carne viva, que afetam a mente dos operários — mas não só isso. Alguns infelizes sofrem intensas mutações, que os transformam em violentas massas disformes e insanas. O visual, de carne vermelha e brilhante, com rostos, braços e mãos distorcidos, lembra os efeitos especiais do longa de 1982, além de replicar muito a paleta de cores do clássico, como a névoa azul rompida por sobrenaturais luzes vermelhas.

Por ter sido fundamental em estabelecer os jogos estilo “simulador de caminhada”, como o infame Dear Esther, a reputação da Chinese Room é divisiva, mas Still Wakes the Deep mostra a força do estúdio britânico em um conto de horror perturbador e elegante. A ambientação única é elevada pela atmosfera impecável, e o resultado é um game de terror bastante memorável.
Still Wakes the Deep está disponível para Xbox Series X | S, PC e PlayStation 5. A review foi feita com base na versão de Xbox Series X, cedida pela desenvolvedora. O jogo também está disponível no catálogo do Game Pass.