Ao longo das últimas duas décadas, as anedotas e perrengues de João Grilo e Chicó, protagonistas de O Auto da Compadecida, se tornaram parte do nosso folclore. Os personagens vividos por Selton Mello e Matheus Nachtergaele entraram para a história da dramaturgia brasileira, com a força e presença reforçadas a cada imperdível reprise na televisão aberta.
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O filme, e até os próprios personagens, parecem cientes da fama e do legado que conquistaram. Parece apropriado, portanto, que O Auto da Compadecida 2 trate os novos contos da dupla como trechos de literatura fantástica, versos de um cordel que ecoa pelo imaginário popular.
Retornar a uma história tão icônica inevitavelmente envolve riscos. É importante trazer algum frescor que justifique a sequência, mas manter algo familiar que permita ao público matar a saudade de figuras tão queridas. E é até surpreendente notar que o filme consegue ao mesmo acertar e errar nessas tarefas, confundindo, divertindo e emocionando em igual proporção.
Como isso é possível? “Não sei, só sei que foi assim”, diria Chicó olhando o horizonte enquanto solta a fumaça do seu cigarro. Nosso papel aqui, então, é adentrar a névoa de tabaco para tentar desvendar esse novo e icônico capítulo do cinema brasileiro.
A lenda viva de João Grilo

A autorreferência do roteiro se faz presente desde a premissa básica. Retornamos à cidade de Taperoá, 20 anos após os eventos do primeiro filme, onde Chicó (Selton Mello) leva a vida vendendo santinhos e versos baseados na agora mítica história da ressurreição do desaparecido João Grilo (Matheus Nachtergaele), que está há mais de uma década viajando Brasil afora sem dar notícias.
A pequena comunidade do sertão nordestino enfrenta as transformações culturais e tecnológicas dos anos 50. Taperoá agora é palco da disputa de poder entre o decadente coronelismo, encarnado na figura do coronel Ernani (Humberto Martins), e o avanço dos novos meios de comunicação, bem representados na figura de Arlindo (Eduardo Sterblitch), dono da única rádio da cidade.
A tensão em torno dessa disputa pega fogo de vez quando João Grilo retorna à cidade e decide capitalizar em cima da popularidade que ganhou com as lendas em torno de seu nome, arrastando o antigo amigo para novas complicações. Em meio a tudo isso, Rosinha (Virgínia Cavendish) encontra em Clarabela (Fabíula Nascimento) uma rival inesperada pelo amor de Chicó.
O roteiro assinado a quatro mãos é o aspecto mais problemático dessa sequência. O texto tem muitas funções para cumprir e expectativas para atender, assumindo o compromisso de fazer jus à obra original de Ariano Suassuna e ao legado do filme original, enquanto busca maneiras de apresentar algo novo e ao mesmo tempo familiar. Tantas demandas, somadas à necessidade de incluir novos personagens e participações especiais, acabam sobrecarregando o filme, que soa muitas vezes apressado e sem foco, especialmente no primeiro terço.
O que carrega a experiência e permite que essa aparente bagunça se torne divertida e envolvente é o elenco, recheado de grandes nomes que visivelmente estavam se divertindo muito durante as filmagens, entregando atuações que conseguem trazer a teatralidade performática que o filme pede sem se limitar a compor meras caricaturas. Os personagens, novos e antigos, apresentam nuances e emocionam quando o roteiro assim exige, com inevitável destaque para as muitas camadas da amizade entre João Grilo e Chicó, que transportam para a obra uma saudade mútua compartilhada pelo público.
Realismo fantástico nordestino

O design de produção é o elemento mais ousado e até disruptivo do filme. A decisão de filmar em estúdio, recorrendo com frequência à computação gráfica, cria uma ambientação que destoa bastante da objetividade crua do primeiro filme, conferindo à nova história um ar de fantasia que casa perfeitamente com os aspectos míticos das desventuras de João Grilo e Chicó.
É como se todo o filme fosse uma das mentiras estilizadas de Chicó, ainda que essas tenham recebido aqui um tratamento ainda mais especial. As novas anedotas narradas pelo personagem de Selton Mello agora são retratadas com animações em stop motion, mergulhando ainda mais fundo na atmosfera de cordel fantástico que permeia todo o filme.
O Auto da Compadecida 2 segue priorizando o humor, sem abrir mão de fazer comentários sociais que dialogam muito bem com acontecimentos recentes da nossa história. A disputa entre Ernani e Arlindo, por exemplo, funciona como alegoria para os usos políticos da truculência militar e da fabricação de falsas verdades através dos meios de comunicação.
Mas, assim como aconteceu no primeiro filme, o comentário mais poderoso aqui continua sendo sobre o papel da religião, não apenas como instrumento de poder, mas também como um caminho para entrar em contato direto com as próprias contradições e fragilidades. Todas as injustiças e dificuldades que pairam sobre o sertão nordestino ganham novas camadas quando mais uma vez a figura do homem simples de João Grilo se vê diante da divindade da Compadecida, agora interpretada por Taís Araújo.
A repetição dessa fórmula deixa o filme meio previsível e até redundante, mas abre caminho para que Matheus Nachtergaele se destaque mesmo em meio a um elenco tão inspirado e talentoso.
A nostalgia da brasilidade

O Auto da Compadecida 2 surge em um momento especial do cinema brasileiro, que vive seu momento de maior aclamação e sucesso desde o fim da pandemia de COVID-19. O filme também mostra como o Brasil de hoje é diferente daquele da virada do século, quando nos apaixonamos pela primeira vez por esses personagens.
Nesse sentido, João Grilo e Chicó surgem como mensageiros de um resgate cultural, de uma brasilidade que cada vez mais sente necessidade de ser defendida e celebrada. Reencontrar esses velhos amigos é como matar a saudade de uma certa inocência que foi se perdendo em meio a tanta intolerância e hostilidade, especialmente nos últimos 10 anos.
Apesar de nunca alcançar o alto sarrafo deixado pelo primeiro filme e explorar pouco as inúmeras possibilidades da própria proposta, O Auto da Compadecida 2 é um reencontro muito bem-vindo com personagens que se tornaram parte fundamental do folclore brasileiro no século 21.
O Auto da Compadecida 2 chega aos cinemas em 25 de dezembro.
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