O Senhor dos Anéis é uma daquelas franquias tão complexas e amadas, que são capazes de gerar derivados ao longo de várias décadas. The Lord of the Rings: Gollum é um deles, que nasceu da ideia de mostrar o que aconteceu com Gollum após a perda do Anel para Bilbo Bolseiro e antes do encontro com Frodo e Sam.
A premissa era apresentar um jogo de aventura com foco em furtividade, uma vez que o protagonista não é dotado de grandes habilidades. Uma proposta, no mínimo, curiosa – e que chamou a atenção dos fãs. Os trailers um tanto esquisitos e os múltiplos adiamentos, no entanto, deixaram os jogadores com receio e… olha, as preocupações estavam corretas.
LOTR: Gollum é um projeto claramente inacabado, que sofre de problemas gráficos e de performance. Mas a parte, talvez, mais decepcionante é que, por baixo das falhas técnicas, existe um game que tropeça em quase todas as ideias que propõe.
Inacabado e insosso
A história de The Lord of the Rings: Gollum é original e ambientada logo depois da perda do Anel para Bilbo – portanto, antes dos acontecimentos de O Senhor dos Anéis. Assim, temos um Sméagol (e, ocasionalmente, um Gollum) confuso e perdido sem seu “precioso”.
Com este contexto, o jogo apresenta arcos em locais familiares como Barad-dûr e Reino da Floresta, mas focando em personagens inéditos. Há a aparição de alguns rostos conhecidos, como Gandalf, mas eu honestamente não o teria reconhecido se ninguém tivesse dito – e isso já diz muito sobre os problemas de LOTR: Gollum.

Em vez de uma história concisa que funciona de forma independente, temos tramas repetitivas, mal construídas e que simplesmente não empolgam. Além de tomarem muito tempo para serem desenroladas, dando a impressão de que nem mesmo os roteiristas sabiam qual caminho queriam seguir.
Quase metade do game, por exemplo, se passa em uma única prisão de Barad-dûr, e muitos objetivos são tarefas dadas pelos orcs para os presidiários, ao lado de algumas escapulidas rápidas de Gollum. Com isso, há a constante reciclagem de cenários e gameplay repetitivo, apenas para a história andar em círculos.
Isso nos leva à questão de que a narrativa e a jogabilidade de LOTR: Gollum até conversam de certa maneira, mas em uma direção completamente errada. Apesar de fazer sentido o arco da prisão ser ambientado em áreas repetidas, o jogo não traduz a ideia de forma empolgante no gameplay, falhando completamente em level design (ou seja, na construção de fases).
Este problema é intensificado com os comandos do Gollum porque eles são limitados – o que, mais uma vez, até faz sentido com o fato de que o protagonista é desprovido de habilidades. Mas a tarefa dos desenvolvedores era encontrar uma maneira de fazer com que a experiência fosse engajante, mesmo com as desvantagens do personagem, o que não acontece.
O gameplay se baseia em sistemas de escalada e furtividade, resultando em um protagonista que pode apenas pular, escalar, se esconder… e só. Assim, a jogabilidade é a mesma do início ao fim. Isso por si só forma uma camada espessa de repetitividade, mas outro agravante é que tais sistemas não funcionam tão bem, sendo truncados e sem fluidez.

Os comandos de movimentação não são tão responsivos. Os pulos do Gollum são desengonçados e, algumas vezes, nem funcionam. O protagonista também pode escalar paredes e estruturas, mas tudo é roteirizado e não há espaço para o jogador ser criativo.
A furtividade se resume a alternar entre sombras e arbustos e jogar pedras para distrair os inimigos, o que acabam sendo tarefas simples (até demais) na prática. Também podemos estrangular alguns orcs na surdina, mas apenas os menores em tamanho (e, às vezes, nem mesmo eles).
A inteligência dos adversários também é fraca: Gollum é esquecido após poucos segundos ao ser visto e ninguém reage ao encontrar o cadáver do coleguinha ou ao ouvir sons de objetos quebrando. Falhas que, para um jogo com foco em furtividade, são difíceis de perdoar.
Além da jogabilidade básica, há um sistema de escolhas em determinados pontos da história, em que o jogador decide se agirá como Sméagol ou Gollum. É algo que explora bem a dupla personalidade dele, mas a maioria das consequências não é marcante ou tão discrepante, por mais que possa envolver até a morte de um personagem ou outro.

The Lord of the Rings: Gollum ainda sofre de problemas gráficos – e muitos deles. Não apenas detalhes, mas texturas, modelos e visuais praticamente completos estão inacabados. Há rochas inteiras que estão borradas, teias que mais parecem gosma, NPCs com textura chapada e até mesmo Gollum apresenta uma aparência questionável, com olhos desnecessariamente esbugalhados (mais assustadores do que o Olho de Sauron, diga-se de passagem) e um cabelo raso.
Além das falhas gráficas, a animação dos personagens é bem robótica. Muitas vezes, NPCs torcem a cabeça ou o corpo de forma completamente não natural. O único aspecto que não transmite estranheza no visual é a iluminação que, principalmente em Barad-dûr, é bem chamativa pelo contraste com vermelho.
A impressão que fica é de que não houve cuidado e nem tempo para os desenvolvedores aprimorarem os gráficos, evidenciando que os adiamentos realmente eram indício de que algo não estava indo bem no desenvolvimento.
LOTR: Gollum também apresenta problemas de performance – o que, a esta altura da análise, não deve deixar o leitor surpreso. Paredes invisíveis, crashes (erros que forçam o fechamento do jogo), bugs gráficos e de jogabilidade, travamentos de tela e perda de progresso foram algumas situações que encontrei e quebraram a imersão.

Em meio à receita caótica de The Lord of the Rings: Gollum, existe uma trilha sonora sutil, mas marcante, que é toda orquestrada e cumpre o papel de estabelecer tensão, curiosidade e mistério nos momentos certos. Foi o único elemento que realmente me remeteu à Terra-Média, sendo um pequeno oásis no meio de tantos problemas.
O jogo apresenta legendas em português brasileiro, que contam com uma tradução satisfatória, mas são prejudicadas na adaptação fraca de charadas – elemento que, é claro, não poderia faltar em um game do Gollum. Por fim, as opções de acessibilidade se resumem a um modo de daltonismo, sem mais recursos voltados para PcD (pessoas com deficiência).
Nós não gosta dele, precioso
The Lord of the Rings: Gollum é um jogo que se complicou não apenas pelos problemas no desenvolvimento, mas também por não saber o que quer entregar ao jogador. É uma bagunça de ideias, conceitos e elementos inacabados, resultando em uma experiência repetitiva que deixa o jogador até cansado.
Até existem curtos momentos com boas ideias, como uma sequência em que você precisa ser furtivo no meio da escalada, mas que é rápida demais para limpar o gosto amargo que todo o resto deixa. No fim, é um conjunto de falhas e de muito potencial perdido.
Até pode ter algo de bom nesse mundo como diz Sam, mas não em The Lord of the Rings: Gollum.
Esta review foi feita com uma cópia cedida pela Nacon.
The Lord of the Rings: Gollum está disponível para PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One e PC. A versão para Nintendo Switch chegará ainda em 2023, mas não tem data específica.