Um filme de Adoráveis Mulheres não é mais novidade. O livro Mulherzinhas, de 1868, da autora Louisa May Alcott, ganhou diversas adaptações para o rádio, TV e cinema, sendo a mais famosa – e querida – até então, a dirigida por Gillian Armstrong em 1994, estrelada por Winona Ryder. Assim, quando Greta Gerwig resolveu adaptar mais uma vez a história para as telonas, era imprescindível desenvolver algo que fizesse a sua produção se diferenciar e ser notada.
Gerwig não tem um longo currículo como diretora e, até recentemente, era mais reconhecida como atriz e roteirista. Lady Bird – A Hora de Voar (2017) impulsionou a sua carreira atrás das câmeras, com indicações de Melhor Filme e Melhor Diretora no Oscar 2018. Com este longa, ela conquistou o público e boa parte da crítica na época e entrou para dezenas de listas de "melhores filmes indies dos últimos tempos". Claro que, depois de um sucesso como este, muito se questionou se foi sorte de principiante ou se realmente Greta Gerwig se firmaria como cineasta. Adoráveis Mulheres, então, é a prova de que o reconhecimento que recebeu anteriormente não foi à toa.
A diretora já revelou em entrevistas amar o livro de Alcott e disse ter lido diversas vezes quando mais nova. Assim, o roteiro – também escrito por Gerwig – recebeu um carinho especial, ajudando a despertar um amor pela obra mesmo em quem não a conhecia anteriormente.
O filme narra de maneira cativante a história da família March, composta por quatro irmãs e a mãe, morando em uma casa sem a presença de homens – o pai está lutando na Guerra Civil americana. Portanto, é possível ter uma noção de como as mulheres daquela época lidavam com temas como arte, comércio, casamento, solidão e, principalmente, identidade e independência. A utilização de assuntos que continuam atuais é um dos pontos altos da direção e escrita de Gerwig, pois, apesar de a trama se passar no século XIX, ela conseguiu manter as discussões relevantes para os dias de hoje.
A trama se utiliza de duas linhas temporais para melhor contar os fatos, então a montagem é peça chave do filme, junto ao figurino e à fotografia de Yorick Le Saux, pois em nenhum momento é necessária uma explicação verborrágica dos diferentes tempos abordados, ao contrário: a utilização de cores quentes durante uma infância feliz e tons mais frios para a falta de esperança do mundo adulto parecem contar a história por si só. E é nessa condução certeira e assertiva de Gerwig que podemos notar a maturidade conquistada pela diretora e que nos faz questionar o porquê de sua ausência como indicada na categoria de Melhor Diretora no Oscar 2020.
O elenco, por sua vez, é composto por grandes nomes do cinema, incluindo Laura Dern como Marmee, a mãe das quatro meninas que aguardam o pai (Bob Odenkirk) retornar da Guerra. Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Timothée Chalamet, James Norton e até mesmo Meryl Streep também fazem parte do longa. Mas, mesmo em meio a tantas estrelas, é Saoirse Ronan quem conduz a narrativa e entrega uma das melhores atuações de sua carreira.
As personagens são muito bem construídas e interessantes, ao ponto de sempre parecer que o filme não dá o destaque merecido para cada uma delas quando, na verdade, são escolhas de um roteiro que mostra o essencial de cada uma e dá profundidade necessária. Por mais que Jo March (Ronan) seja o fio condutor, ela não carrega a narrativa sozinha, nem é a única estrela. Meg (Watson), Amy (Pugh) e Beth (Scanlen) também têm seus nuances e suas diferentes personalidade. Essa variedade ajuda nos debates sobre os assuntos abordados, principalmente por mostrar distintas opiniões entre elas, sem fazer juízo de valor. Uma das grandes mensagens que o filme passa pode ser resumida em uma fala de Meg durante uma conversa com Jo: "Apenas porque meus sonhos são diferentes dos seus, não significa que eles não são importantes".
Assim, são várias as cenas que se sobressaem durante Adoráveis Mulheres e vai da vivência de cada um para se identificar com cada momento. Entre diversos trechos marcantes, há cenas em que as personagens questionam o amor, a solidão e as suas próprias escolhas, aumentando a empatia e conexão do espectador com a obra. Claro, talvez a ligação maior aconteça entre o público feminino, como quando Jo, em um momento de desespero, fala: "As mulheres têm mentes e almas, além de apenas corações, e têm ambição e talento, além de apenas beleza. E eu estou cansada das pessoas dizendo que o amor é tudo para uma mulher".
Adoráveis Mulheres traz à tona os sentimentos escritos por Alcott em sua obra, ao mesmo tempo em que coroa o amadurecimento de Greta Gerwig como cineasta. A produção prova que a escritora já tratava de um assunto tão contemporâneo como a emancipação feminina há mais de cem e, assim como no livro, ele é feito de maneira inteligente, divertida e atual.