Dragon Ball Sparking! ZERO marca o retorno de uma franquia que fez muito para os jogos inspirados nos guerreiros criados por Akira Toriyama no passado.
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E não poderia existir um momento melhor para isso, com uma escassez de quatro anos sem um novo game de Dragon Ball (sem considerar Dragon Ball: The Breakers, nem as temporadas do FighterZ, Xenoverse 2 ou Kakarot) e um anime novo chegando no mesmo dia do seu lançamento (Dragon Ball Daima). As engrenagens do capitalismo estão rodando perfeitamente.
Nostalgia caça-níquel

Considerando todo o trabalho da Spike (antes de se unir à Chunsoft) entre 2005 e 2007, Sparking! ZERO é, em todos os sentidos, uma continuação direta do último game (Budokai Tenkaichi 3, 2007), e também a apresentação (como série) aos novos jogadores. O problema é que o nível de qualidade dos jogos de Dragon Ball subiu consideravelmente depois de FighterZ e Kakarot, e fica difícil olhar para o Sparking! ZERO e não trazer à tona uma palavra que definia jogos de anime no início dos anos 2000: “caça-níquel”.
Dragon Ball Sparking! ZERO finge que é novidade, principalmente aos olhos do fã mais carente de lançamentos. Porém, o gameplay datado força o jogador a parar a cada disparo de um mísero Kamehameha para recuperar parte do Ki, os movimentos dos personagens parecem exatamente os mesmos de quase 20 anos atrás (só que mais bonitos, claro) e, com exceção dos ataques especiais, todos os mais de 180 bonecos funcionam exatamente da mesma maneira.
Sparking! ZERO tem uma espécie de delay bizarro nos controles na hora de navegar pelas cutscenes e também através dos menus do jogo. É como se a leitura de cada ação fosse pesada o suficiente para exigir um mini-carregamento, o que não deveria ser o caso. Talvez o fato de precisarmos esperar as animações de cada menu (bem bonitas), contribua para a sensação.
É engraçado que, mesmo com as melhorias visuais significativas, alguns problemas de câmera do passado permanecem os mesmos. Às vezes um dash guiado em busca do adversário atrás (ou embaixo) de alguma construção (ou montanha) indestrutível, pode acabar com a perspectiva do jogo, gerando bugs visuais bastante comuns nos títulos do passado.
História encapsulada

Dragon Ball Sparking! ZERO tem um bom conteúdo colecionista para o jogador que curte tal característica. Ele pode ser dividido, primariamente, entre uma campanha linear, que reconta os principais acontecimentos de Dragon Ball Z e Dragon Ball Super, e outro modo, focado na personalização de cenários únicos que podem ser criados e compartilhados pelo jogador.
Os episódios principais fazem uma distribuição da história entre os personagens mais importantes: Goku, Vegeta, Gohan, Piccolo, Trunks do Futuro (do DB Super), Freeza e Goku Black. A maior parte da história acontece na campanha de Goku, mas o desdobramento de alguns confrontos podem ser apreciados de forma mais extensa nas demais campanhas.
Alguns cenários da campanha principal podem gerar acontecimentos paralelos. Esses desdobramentos apresentam histórias alternativas em relação a tudo que conhecemos da série e, de vez em quando, é divertido seguir por um caminho como “e se o Goku não esperasse o Cell se desenvolver e acabasse com ele antes de absorver os androides?”. Essas perguntas podem ser respondidas através da campanha do jogo mas, para avançar nos cenários principais, é preciso seguir a história como a conhecemos.
As condições de vitória de cada cenário podem variar entre “derrotar”, “sobreviver” e “não morrer”. Nem sempre essas condições são bem explicadas pelo jogo, principalmente as missões que demandam a vitória sob um certo limite de tempo. O game só deixa claro que o cenário terminou no tempo certo quando isso efetivamente acontece.
Toda a trama é bastante resumida. E, sem certas ações realizadas durante a luta, às vezes até conseguimos cumprir os requisitos para avançar na história, porém, ficamos sem assistir um ou outro momento icônico. Por vezes, rolam conversas paralelas com os personagens fora da ação como complementação da história, mas fica difícil acompanhar o bate-papo enquanto lidamos com a ameaça em questão.
Você no controle da ação

Outro modo de jogo disponível desde o começo são as missões personalizáveis, um dos modos mais interessantes de Sparking! ZERO. É possível jogar cenários alternativos com personagens que não aparecem muito na trama como, por exemplo, aceitar um duelo de Bergamo, que veio à Terra em busca de Goku, mas encontra Gohan em seu lugar. A luta destrava o personagem para ser escolhido nas batalhas online e contra outros jogadores. Uma série de embates pré-definidos estão disponíveis para o jogador, mas alguns precisam ser liberados junto com a campanha.
Também é possível criar a sua própria luta. O modo de criação coloca o jogador quase como o roteirista de um episódio inédito de Dragon Ball Z (ou GT, ou Super). Além de escolher os confrontos, escolhemos as regras da disputa, os poderes que podem ser utilizados, as reviravoltas no meio da partida e até mesmo as imagens que servirão para ilustrar o capítulo e gerar interesse nos demais jogadores após disponibilizarmos nosso confronto nos servidores do game. Só que, para isso, é necessário nós mesmos jogarmos e vencermos a disputa proposta.
Aqui vale a mais pura imaginação de fã fanfiqueiro de Dragon Ball. Duelos impossíveis, transformações, fusões e até a liberação de poderes ocultos durante a partida, a personalização do cenário é extrema. Dá para escolher até a música que toca na abertura, durante o confronto e após a sua conclusão – lembrando sempre que músicas com direitos autorais desligam automaticamente a captura automática do PS5. Vai ser melhor ainda quando os servidores começarem a funcionar e a comunidade enviar suas próprias histórias.
CPU “roubada”

As primeiras horas de Dragon Ball Sparking! ZERO podem ser frustrantes, não exatamente pela dificuldade da CPU, mas pela facilidade que ela tem de contra atacar qualquer ação realizada pelo jogador. As esquivas perfeitas e contra-golpes exigem uma precisão irritante dos nossos comandos, principalmente nas lutas finais contra os inimigos mais poderosos, e o computador as realiza como se não fossem nada.
Aprender todos os movimentos é essencial, mas o tutorial é tão longo quanto cansativo. Ele ensina infinitas formas de atacar além do apertar frenético do quadrado, que causam muito mais dano, mas também proporcionam chances de tomada de turno por parte do adversário. E aqui o caldo engrossa um pouco.
Às vezes o que a gente quer é só apertar botões e criar um combo mais longo, mas a máquina se recusa a aceitar; o que é engraçado, já que se abandonarmos a ideia de “jogar bonito” e seguirmos com uma estratégia mais banal, do tipo encher o Ki e “spamar”o ataque especial mais forte, o computador aceita numa boa (a cada cinco ataques, três acertam). Se estamos atrás apenas de destravar os personagens que faltam e terminar a campanha de forma rápida, essa é a melhor opção. Mas qual a graça nisso?
Não há inteligência ou habilidade por trás das ações da CPU, apenas um comportamento irritante que exige de nós, jogadores, uma precisão inumana para tentar desafiá-la num combate mais intimista. Com o tempo e muita prática, dá para ficar bom e acertar com mais maestria o contragolpe, mas eu diria que esta é uma habilidade muito melhor aproveitada no modo versus do jogo, no qual ambos os adversários utilizam seus próprios reflexos para atacar e se defender.
O ideal é passar pelo tutorial algumas vezes, sempre que alguma dúvida surgir. Assim não ficamos sobrecarregados de informações desnecessárias e que, talvez, levaremos algum tempo para colocar em prática. O jogo faz questão de utilizar todos os botões do controle, com, pelo menos, quatro formas diferentes de realizar parries e esquivas perfeitas.
Quebra pau das antigas

Dragon Ball Sparking! ZERO não nega as origens e traz de volta um sistema de combate bastante característico aos games desenvolvidos pela Spike Chunsoft. Aliás, eles são responsáveis por grande parte dos “Arena Fighters” de sucesso duvidoso do mercado, como J-Stars Victory Vs, Jump Force, One Piece Burning Blood e One-Punch Man: A Hero Nobody Knows.
Apesar das similaridades com títulos mais recentes, o cerne de Sparking! ZERO não poderia deixar de ser os jogos Tenkaichi Budokai. Assim, todo o combate gira em torno da sua barra de Ki. Sem ela, seu personagem é incapaz sequer de manter um super dash em busca do adversário.
E tudo consome muita barra de Ki. O arsenal de ataque dos personagens é composto de duas magias, duas técnicas especiais (que gastam outra barra, mas essa é acumulada de forma independente) e algumas transformações (quando é o caso). As magias consomem três barras de Ki (de cinco), dashes comuns, percepção (um tipo de parry) e movimentos de vanish (desaparecer de um lado e aparecer nas costas do adversário) também consomem um pouco da barra. O dash é um consumo constante – continua gastando de acordo com a distância percorrida.
Carregar o Ki é um dos artifícios mais comuns nos jogos de Dragon Ball e faz certo sentido, já que, no anime e mangá, isso acontece constantemente. No gameplay, no entanto, carregar o Ki quebra um pouco o ritmo da partida, porque precisamos nos afastar de forma segura (e isso gasta mais Ki), e carregá-lo para voltar para o combate. Assim, apesar de fazer parte da lore da franquia, a aplicação dessa estratégia nos jogos é um pouco tediosa, visto que é fácil criar outras maneiras para preencher o Ki de forma automática durante os combates.
Claro, são reminiscências dos anos 2000, e que fundamentam todo um nicho de jogos de anime no estilo “Arena Fighters”. Dos mais recentes, há exemplos Jump Force, Naruto Ultimate Ninja Storm, Cavaleiros do Zodíaco, entre outros. Ou seja, apesar dos problemas, tirar esse recurso com certeza vai gerar reclamações dos fãs.
Sparking! ZERO funciona como todo e qualquer outro jogo de anime que tenta balancear a experiência de jogo em cima da energia de ataque dos personagens. No entanto, é claro que existe uma parcela de jogadores que busca exatamente esse tipo de experiência num jogo de Dragon Ball. E dado o retorno da série Tenkaichi Budokai, mexer nisso seria entregar ao jogador uma experiência distante da obra original.
Dragon Ball ainda faz dinheiro

Mesmo sem muitas novidades, o apelo de Dragon Ball Sparking! ZERO é convidativo aos fãs. Um novo game, o retorno de uma série clássica e uma terceira opção ao lado dos mais recentes jogos baseados em Dragon Ball. Além de ser o primeiro jogo exclusivo de Dragon Ball para a atual geração de consoles.
Falando dos colecionáveis, muito provavelmente Dragon Ball Kakarot fez um trabalho mais completo em cima da obra de Toriyama, mas Sparking! ZERO traz uma biblioteca atualizada, com muita informação relacionada a Dragon Ball Super e também a obras mais antigas, como os filmes e especiais para TV de Dragon Ball dos anos 1990.
Há uma área da biblioteca em que podemos ver os modelos dos personagens e ouvir um pouco da história de cada um através das opiniões de Bulma, Chichi e Videl. Claro que as piadas com seus familiares delinquentes estão presentes ali – quando os saiyajins ficam loiros, Chichi logo se entristece porque acha que todos ao seu redor vêem a sua família como delinquentes, já que pintar o cabelo de loiro é relacionado a um comportamento rebelde no Japão.
Em outro menu do jogo, Zen-Oh recompensa os jogadores à medida que atingem certos objetivos, como jogar “X” vezes com certo personagem, utilizar certos ataques, comprar itens, vencer certas lutas… tudo gera uma recompensa específica. O progresso também libera alguns itens de compra na loja do jogo. É lá que as cápsulas de personalização podem ser adquiridas – mas lembrando que personagens alterados podem ser utilizados apenas em batalhas específicas, fora da campanha principal.
Dragon Ball Sparking! ZERO talvez seja exatamente o que alguns fãs gostariam de encontrar nos jogos da franquia. O game passa a funcionar como um terceiro pilar na experiência Dragon Ball atual, direcionado especificamente para aqueles que não se deram bem nem com Xenoverse, FighterZ ou Kakarot. Uma experiência mais simples, explicitamente nostálgica. E como produto, não tem jeito, Dragon Ball é eterno.
Esta review foi feita em um PlayStation 5, com cópia cedida pela Bandai Namco.
Dragon Ball: Sparking! ZERO será lançado no dia 11 de outubro para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.