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A essência do videogame e como um vazamento conseguiu dividir a comunidade
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A essência do videogame e como um vazamento conseguiu dividir a comunidade

Os spoilers de The Last of Us Part II estão por todo lado e o "ódio" também. Mas, afinal, é por isso que jogamos videogame?

Tayná Garcia
Tayná Garcia
06.mai.20 às 11h33
Atualizado há quase 5 anos
A essência do videogame e como um vazamento conseguiu dividir a comunidade

Milhares de jogadores foram pegos de surpresa quando um vazamento surgiu na internet, no dia 26 de abril (veja aqui), revelando detalhes importantes da história de The Last of Us Part II, próximo jogo da Naughty Dog que, até aquele momento, não tinha nem data de lançamento confirmada.

As informações se multiplicaram em fóruns e redes sociais e, em poucas horas, a situação já estava fora de controle. Lamentei o ocorrido no Twitter, e dei um alerta para os fãs tomarem cuidado ao navegarem para não verem nada do que foi vazado sem querer. Mas foi apenas isso, um pequeno e simples alerta — afinal, são spoilers! Eles não viriam até você, certo? Então nada de pânico, bastava tomar cuidado, só bloquear as palavras certas (veja como fazer aqui) e problema resolvido. Fiz isso com Vingadores: Ultimato e sobrevivi.

Mas o que aconteceu me pegou de surpresa, mais até do que o próprio vazamento: em menos de trinta minutos, alguém que não conheço respondeu minha postagem com todos os spoilers, escritos em caixa alta para garantir que eu leria (pelo menos alguma parte). Fiquei ainda mais surpresa quando vi que o meu caso não era uma exceção, mas quase uma regra entre os jogadores que esperavam por TLoU 2, e muitas pessoas foram até marcadas em postagens com spoilers.

Em pouco tempo, o vazamento, que já era algo complicado para a Sony, havia se transformado em um cenário caótico para todos. Até a tal “guerra de consoles” serviu de argumento, por mais que não tivesse absolutamente nada a ver com o assunto. A situação ficou tão bizarra, que chegou ao ponto de muitos ficarem com receio de clicar em qualquer notícia de games, porque poderia ter um spoiler à espreita.

Não entendi por que alguém faria tanta questão de contar sobre o jogo para uma pessoa que nem conhece — e, confesso, ainda não entendo. Mas isso me fez pensar em como a comunidade gamer insiste em se dividir, por qualquer motivo que seja.

A essência do videogame

Tenho uma pergunta: quais são as suas melhores lembranças com videogames? Eu duvido que dentre elas não tenha um parente, um amigo, uma namorada ou até um desconhecido, que veio a se tornar conhecido. O ato de jogar pode ser individual — você e o controle — mas o videogame é uma experiência coletiva desde sempre, seja jogando juntos ou só trocando uma ideia.

É uma experiência completamente maluca, que provoca sensações e sentimentos muito intensos no jogador, deixando-o completamente imerso naquele mundo. Isso porque, ao contrário de outras mídias, como cinema ou televisão, que são experiências passivas, o videogame proporciona uma experiência interativa, que exige interesse, dedicação, empenho e paixão para funcionar. É difícil você ter a mesma satisfação de superar um chefão em Dark Souls ao ler um livro, sem desmerecer, é claro, as emoções de vivenciar uma grande história. O ponto é que são sentimentos diferentes.

E todos nós temos as nossas próprias histórias com jogos. Já chorei de rir com os trocadilhos bobos de Undertale, explodi minha cabeça ao zerar Bioshock Infinite e ver uma história simplesmente impecável do início ao fim, que engana e surpreende o jogador. Vibrei ao dominar os comandos de Hollow Knight e vencer os mais difíceis inimigos, só para me emocionar depois, descobrindo que eles nem eram tão maus assim. Já perdi o sono diversas noites, só para me afundar em teorias sobre as linhas temporais dos games de Zelda (e sigo sem uma conclusão até hoje). E já gastei horas montando uma build para um deus no Smite e até criei uma história do zero para a Argoniana, meu avatar em Skyrim, como se fosse um RPG de mesa — e eu sei que não era necessário para progredir, mas quem se importa? Ela não podia ficar sem uma história de origem!

O problema aparece quando esse "amor" pelos games passa a envolver uma boa quantidade de ódio — o que, curiosamente, é o tema de The Last of Us Part II (veja aqui), o próprio jogo que sofreu o vazamento. Afinal, além de tudo isso, jogar e gostar de videogame seria também alimentar comparações, "guerras", desavenças? E, se sim, vale a pena? É para isso que a gente joga?

Alguns dias já se passaram desde o vazamento, mas basta acessar as postagens mais recentes (oficiais e não oficiais) relacionadas ao jogo, à desenvolvedora ou até mesmo à Sony, para milhares de comentários com spoilers, ataques e até memes tirando sarro da situação aparecerem. O assunto pode ter esfriado, mas ainda há quem não perca a oportunidade de tentar estragar a experiência de alguém.

Tudo isso, na verdade, gera um grande efeito dominó e faz com que a comunidade de games prejudique apenas ela mesma. Prejudica os jogadores, as empresas por trás dos jogos, quem trabalhou duro para desenvolver aquele projeto e, por fim, o senso de coletividade que tanto estava atrelado ao ato de jogar videogame. Aquele turbilhão de emoções que precedem a chegada do jogo, o momento de ter o jogo em mãos, que criam hype, teorias, suposições, a expectativa, perde lugar para mensagens de ódio.

A verdade é que é ainda mais complicado do que parece. O problema vai além dos games, e está em outras áreas da cultura pop também. Sentimentos de "clubismo" e comparações de marcas e produtos, tudo sendo motivado pela "paixão", afetam filmes, séries, livros e até selos de quadrinhos. Como não afetariam os jogos?

O vazamento acabou me afastando das redes sociais, não por conta do conteúdo dos spoilers ou por ser um jogo muito aguardado na indústria, mas sim pelo comportamento dos jogadores — que, infelizmente, prova como um acontecimento isolado pode se tornar uma bola de neve. A comunidade que se junta para criar teorias malucas e faz os anúncios de jogos serem tão animados é a mesma que incita mensagens de ódio e quer estragar a experiência do outro por um tipo de diversão... meio esquisita.

E eu sei que o cenário não vai melhorar: estamos mergulhados em polarização. Mas, por mais que a comunidade possa ter esse lado negativo, talvez o que realmente valha a pena agora é nós buscarmos o que queremos que nossa experiência com jogos se torne. É buscar quem pensa como você e faz jus ao senso de coletividade que, querendo ou não, está na essência do videogame: desde a criação do primeiro jogo eletrônico, lá no início da década de 1970, o clássico Pong, que foi criado para, veja só, duas pessoas jogarem juntas!

Afinal, se a gente parar para pensar, o vazamento pode ter afetado a comunidade, mas não vai ser um motivo grande o suficiente para comprometer as vendas do novo The Last of Us. Os fãs, aqueles que realmente gostam, querem mesmo é jogar — apesar de seja lá o que viram na internet. No fim, acima de qualquer ato ou comportamento tóxico, o que realmente importa é que a essência de jogar videogame ainda vive. Só depende de escolhermos qual caminho vamos seguir.


Tayná Garcia é jornalista e redatora do NerdBunker, que gosta de pesquisar academicamente sobre jogos nas horas vagas (e jura que não acha chato). Ela também é descrita por muitos como a doida dos gatos e das teorias de videogame, mas sabemos disso por fontes não tão confiáveis.

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