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Como o filme trash do Monstro do Pântano levou a um marco das HQs
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Como o filme trash do Monstro do Pântano levou a um marco das HQs

Amado personagem da DC ajudou a revolucionar os quadrinhos graças a um longa esquecido

Gabriel Avila
Gabriel Avila
28.fev.23 às 16h30
Atualizado há cerca de 2 anos
Como o filme trash do Monstro do Pântano levou a um marco das HQs

A DC anunciou os primeiros projetos de seu novo universo nos cinemas, e um dos personagens a ganhar filme é o Monstro do Pântano. O que muita gente não sabe é que o personagem chegou aos cinemas há mais de 40 anos. Comandado por Wes Craven, diretor de A Hora do Pesadelo e Pânico, o longa passou longe do sucesso, mas se tornou a semente de um verdadeiro clássico dos quadrinhos que revolucionou a indústria.

O Monstro do Pântano surgiu em 1971. Criado por Len Wein e Bernie Wrightson, o personagem é um cientista cujo trabalho é sabotado em uma explosão que ateia fogo em seu corpo e causa a morte de sua esposa. Banhado pela substância que criou, uma fórmula capaz de estimular o crescimento de vegetação, ele mergulha nos pântanos, de onde revive como um monstro composto por plantas.

Astro de uma história curta dentro de uma antologia, o personagem não demorou a ganhar uma revista própria, que decolou graças à mistura entre super-heróis e terror. Com o tempo, a popularidade decaiu e a revista foi cancelada, mas ela fez um fã fiel: Michael Uslan. No final dos anos 1970, ele comprou da DC os direitos para fazer filmes do Monstro do Pântano e de um tal de Batman.

O escolhido para comandar o filme do Monstro foi Wes Craven. Hoje lembrado como um dos grandes nomes do terror, o cineasta estava em uma etapa inicial da carreira, vindo do sucesso do clássico Quadrilha de Sádicos (1977). Proibido de ler HQs na infância, Craven só conheceu o anti-herói pantanoso quando Uslan lhe ofereceu o projeto e o amor foi à primeira vista. O problema é que o sonho de escrever e dirigir o filme de um personagem dos quadrinhos se tornou um verdadeiro pesadelo.

Monstro do Pântano: Das HQs para os cinemas (DC/MGM/Divulgação) Monstro do Pântano, de uma HQ de terror bem-sucedida a um filme live-action

Os perrengues de Monstro do Pântano

Todos os envolvidos no filme O Monstro do Pântano (1982) falaram abertamente sobre os grandes problemas dos bastidores da produção. Logo no início das filmagens, a produtora cortou o orçamento do longa e exigiu uma série de mudanças. Em uma trilha comentada do filme (via FilmSchoolRejects), Wes Craven lembra que os engravatados “não foram amigáveis ou úteis. Bancaram os durões o tempo todo.”

Estrela do filme no papel de Alice Cable, a atriz Adrienne Barbeau fez coro ao cineasta. Em entrevista ao Insider, ela lembra que o roteiro original era maravilhoso, mas os desmandos do estúdio forçaram o diretor a “reescrever cenas e eliminar personagens”, o que acarretou a problemas práticos no set:

“Aparecemos um dia no set e não havia mais o trailer de maquiagem porque eles não haviam pago a conta.”

Monstro do Pântano e Alice Arcane no filme (MGM/Reprodução) Monstro do Pântano e Alice Arcane no filme (MGM/Reprodução)

Esse foi só o início de uma produção extremamente conturbada. Como as gravações aconteceram durante um verão muito quente, eram constantes os relatos de desmaios durante as filmagens, além de enxames de insetos que infestaram o set no pântano. Algo que traumatizou Craven profundamente.

“Meio que senti que tive minha chance e ela implodiu de fora que nunca conseguiria trabalhar normalmente”, lembra o diretor. Por sorte, ele voltou atrás e anos depois desenvolveu A Hora do Pesadelo, clássico cuja ideia surgiu durante a tumultuada produção de O Monstro do Pântano.

Todos esses problemas são sentidos no filme, que tem seu charme, mas passou longe de fazer um sucesso estrondoso. A produção teve um retorno satisfatório que garantiu a continuação em A Volta do Monstro do Pântano (1989), uma série live-action e até uma animação que durou apenas cinco episódios. Porém, foi nas HQs que o longa fez seu legado.

Dick Durock na fantasia quente de Monstro do Pântano no filme (MGM/Divulgação) Dick Durock chegou a desmaiar nas gravações de Monstro do Pântano

O Monstro do Pântano de Alan Moore

Pensando em aproveitar o possível sucesso do filme, a DC Comics reviveu a revista do Monstro do Pântano em 1982. O longa não decolou e o título estava prestes a ser cancelado novamente. Para evitar esse triste fim para sua criação, o então editor Len Wein buscou um novo roteirista para o gibi.

O escolhido foi Alan Moore, hoje lembrado por criar verdadeiros clássicos como Watchmen, Batman: A Piada Mortal e muitos outros. Na época, ele estava em alta graças a seu trabalho em Miracleman, que usou um herói britânico clássico para desconstruir as histórias de super-heróis. Fã do personagem, o escritor aceitou o trabalho com a missão pessoal de mostrar que quadrinhos podem ser profundos e maduros como qualquer outra arte.

Em entrevista à DC, o escritor chegou a dizer que fica envergonhado quando vê quadrinistas tratando HQs como uma arte inferior a literatura ou cinema. Para ele, as HQs trazem possibilidades que nunca foram exploradas ao máximo e que cabe aos criadores mudar isso: “Se quadrinhos não são a forma de arte que deveriam, cabe a mim e às pessoas no meio agir. A gente precisa fazer algo a respeito”. E ele fez.

Página dupla da clássica HQ do Monstro do Pântano de Alan Moore, John Totleben e Stephen Bissette (DC Comics/Reprodução) Página dupla da clássica HQ do Monstro do Pântano de Alan Moore, John Totleben e Stephen Bissette (DC Comics/Reprodução)

O escritor assumiu a revista na edição 20, a qual dedicou a encerrar as histórias em andamento na trama e preparar o caminho que gostaria de trilhar com o personagem. No número 21, o escritor modificou a origem do personagem em “Lição de Anatomia”, um conto de terror tenso e sombrio que dá o tom do que Moore fez na revista ao longo de três anos.

Em parceria com os artistas John Totleben e Stephen Bissette, Alan Moore direcionou o Monstro do Pântano de volta às raízes no horror. O escritor citou como inspiração o crescimento do gênero em outras mídias, em especial nos cinemas, onde o gênero slasher prosperava com longas como O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Halloween (1978).

Porém, esse tipo de terror “cínico e deprimente” não empolgava Moore, que também receava que o público não temesse as histórias clássicas de monstros, com vampiros e lobisomens. A saída foi misturar clássicos da literatura com medos mais modernos e palpáveis enquanto desenvolve seu protagonista como uma verdadeira força da natureza. Literalmente.

Sob a caneta de Alan Moore, o Monstro do Pântano passou a lidar com o lado mais sombrio das pessoas enquanto enfrenta criaturas vindas de pesadelo. Ele protege o mundo de um sem-fim de apocalipses, vai ao inferno e até outros planetas, enquanto propõe reflexões existencialistas e engata um dos romances mais celebrados dos quadrinhos. Tudo isso enquanto se torna a personificação viva da vida vegetal no universo.

Página dupla da famosa HQ do Monstro do Pântano de Alan Moore (DC/Reprodução) Página dupla da famosa HQ do Monstro do Pântano de Alan Moore (DC/Reprodução)

Afogando a censura em terror

O Monstro do Pântano de Moore, Totleben e Bissette também fez história fora dos quadrinhos. No mundo real, a guinada do título por caminhos mais maduros levou a DC Comics a bater de frente com o temido Código dos Quadrinhos.

Nos anos 1950, o psicólogo Fredric Wertham usou dados falsos e distorcidos para a escrita de Sedução do Inocente, livro que acusava as HQs de corromper os leitores com histórias que poderiam torná-los delinquentes ou pervertidos. A histeria causada pelo livro acabou no Comics Code Authority (CCA), código que limitava o que poderia ser mostrado nos quadrinhos.

É verdade que quando Alan Moore chegou à revista do Monstro do Pântano, o código já estava enfraquecido e não exercia a mesma influência de quando surgiu. Os tempos em que revistas sem o selo de aprovação do CCA não eram nem distribuídas ficaram para trás, mas a organização ainda tinha certo poder nas publicações.

Dessa forma, foi muito corajoso da parte da DC publicar a revista Swamp Thing #29 sem o código impresso na capa. Essa foi a primeira revista de uma grande editora a sair sem a aprovação do CCA, um teste ousado que não afetou as vendas da revista, consumida majoritariamente pelo público adulto. Uma vitória que encheu Moore, um jovem antiautoritário, de orgulho:

“Gosto da ideia de ter o Monstro do Pântano livre do código. Não para poder ter violência grotesca ou sexo, mas para podermos contar histórias que um adulto possa ler e encontrar algo interessante nela.”

Capas das edições 28 e 29 da revista Swamp Thing, HQs marcadas pelo fim da censura no Monstro do Pântano (DC Comics/Reprodução) Capas das históricas edições 28 e 29 da HQ Swamp Thing

A partir dali, a DC parou de enviar a revista do Monstro do Pântano para aprovação e passou a publicá-la diretamente sem o selo. Não por acaso, a popularidade da revista subiu a patamares nunca vistos, especialmente considerando que Moore assumiu o título à beira do cancelamento.

Essa liberdade deu ao quadrinho uma sofisticação que saltou aos olhos de leitores mais exigentes. Um exemplo é Neil Gaiman, renomado escritor de Sandman, que havia parado de ler quadrinhos na juventude e só voltou a amá-los quando teve contato com a revista do Monstro do Pântano:

“Parei de ler quadrinhos e meio que desisti da ideia de que você podia fazer grandes HQs tão interessantes, importantes e valiosas quanto qualquer outra mídia. Decidi que eram bobagens para garotos. Então peguei o Monstro do Pântano do Alan Moore, o li e entendi que tudo o que havia pensado em fazer nos quadrinhos era possível, porque cá estava esse cara fazendo todas essas coisas. Foi uma revelação para mim”, refletiu.

É claro que Gaiman é um exemplo ilustre, mas não é o único. O sucesso de Monstro do Pântano foi tão grande que a própria DC passou a investir mais em quadrinhos maduros, o que deu início ao renomado selo Vertigo, casa de publicações como Preacher, John Constantine, Hellblazer e a própria Sandman.

Essa legião de leitores apaixonados prova que, no fim, Alan Moore estava certo. Era sim possível contar histórias maduras e complexas, que extrapolavam os limites dos quadrinhos. Uma luta que o autor empenhou até se aposentar das HQs em 2019, com um currículo povoado por grandes obras como V de Vingança, Do Inferno, A Liga Extraordinária e muito mais.

Por isso, não surpreende que James Gunn, chefão do DC Studios, cite justamente essa fase do Monstro do Pântano como uma influência para o reboot do personagem nas telonas. Referência que vai fazer justiça à obscura primeira passagem do Monstro pelos cinemas, que serviu de adubo para o florescer de um marco na história dos quadrinhos.

Monstro do Pântano em uma cena da clássica HQ de Alan Moore, Stephen Bissette e John Tottleben (DC/Divulgação) Monstro do Pântano em uma cena da clássica HQ de Alan Moore, Stephen Bissette e John Tottleben (DC/Divulgação)

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