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A estranha forma como Godzilla Minus One e Godzilla e Kong se completam
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A estranha forma como Godzilla Minus One e Godzilla e Kong se completam

Saiba como filmes tão opostos homenageiam diferentes faces da franquia, que completa 70 anos em 2024

Gabriel Avila
Gabriel Avila
04.abr.24 às 10h33
Atualizado há cerca de 1 ano
A estranha forma como Godzilla Minus One e Godzilla e Kong se completam
Toho/Warner/Reprodução

O Godzilla está em uma nova onda de popularidade. No Japão, o monstro estrelou Godzilla Minus One (2023), filme aclamado ao redor do mundo ao ponto de levar para casa o primeiro Oscar da franquia. Nos EUA, ele é a grande estrela do MonsterVerse, universo lucrativo que retornou aos cinemas com Godzilla e Kong: O Novo Império. Praticamente opostos, esses dois projetos ajudam a entender o impacto do kaiju na cultura pop enquanto honram a essência de uma jornada que já dura 70 anos.

Antes de mais nada é importante voltar a 1954, quando o primeiro filme do monstrão foi lançado. A produção comandada pelo mestre Ishiro Honda apresentou Gojira, um monstro pré-histórico que ataca o Japão após ser acordado e modificado por testes atômicos realizados pelos Estados Unidos.

Com essa premissa, o enredo se desenvolveu entre o espetáculo dos ataques do Godzilla e o drama dos personagens humanos em busca de uma solução para o caso. Especialmente porque o jeito encontrado para lidar com o dinossaurão atômico foi a criação de uma nova arma química, justamente o tipo de substância que o criou. Como utilizar algo que, no futuro, pode voltar para castigar a humanidade?

Tal conflito é só um dos exemplos de como Godzilla reflete sobre os horrores causados pelas armas nucleares. Diretor da produção, Honda explicou que se inspirou na própria bomba atômica para representar o monstro como algo imparável e incontrolável. Uma ideia que se reflete no hálito atômico do bichão e no próprio design da criatura, que, não por acaso, lembra uma nuvem de cogumelo deixada pela detonação de uma bomba.

Imagens dos ataques de Godzilla no filme original, de 1954 (Toho/Reprodução) Fotos do Godzilla original e seu design inspirado na bomba atômica (Toho/Reprodução)

O uso do Godzilla para fazer comentários sobre questões do mundo real se tornou uma das assinaturas da franquia e deu as caras de diferentes formas ao longo do tempo. Além do próprio monstro representar uma mudança na forma como a sociedade encarava a energia nuclear – de ameaça imparável a aliada improvável –, ainda há outras questões, como Guerra Fria, catástrofes naturais, desastres nucleares e a até a inércia do governo.

Esse lado do personagem ganhou um reforço de peso no imaginário do público graças a Godzilla Minus One, filme que contou uma história inédita em que o monstro surge pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, ele causa destruição em um país que começava a se reconstruir após ser devastado por duas bombas atômicas.

A produção retoma as alegorias do mundo real e usa os personagens humanos para capturar alguns dos sentimentos e dilemas encontrados no país nesse cenário. Isso vai desde o protagonista Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), um piloto que lida com a desonra de não ter se sacrificado pelo país durante a guerra, passa pela jovem Noriko Oishi (Minami Hamabe), que perde tudo e ainda precisa cuidar de um bebê que acabou de ficar órfão, e por aí vai. Tudo isso enquanto tece uma crítica ao descaso das autoridades japonesas e reforça a união entre a população.

Godzilla em meio à destruição em arte de Minus One (Toho/Reprodução) Godzilla em meio à destruição em arte de Minus One (Toho/Reprodução)

São temas que não só fazem sentido com o delicado momento histórico retratado, como ainda alimentam o próprio enredo ao fazer com que o núcleo humano seja importante ao ponto de o público torcer e temer por eles. O que, por sua vez, torna a ameaça do Godzilla ainda maior e seus ataques realmente aterrorizantes.

Todas essas qualidades tornaram o filme um enorme sucesso de público e crítica ao redor do mundo. Esse prestígio chegou ao auge no Oscar 2024, em que Godzilla Minus One não só recebeu a primeira indicação da história da franquia iniciada em 1954, como levou o troféu de Melhores Efeitos Visuais para casa.

O sucesso de Godzilla Minus One, um longa marcado pelo drama e pelos comentários sociais, pode causar um choque a quem for esperando a mesma experiência de Godzilla e Kong: O Novo Império. Afinal de contas, a produção Hollywoodiana faz justamente o contrário, focando em ação, fantasia e até comédia. Ingredientes que, curiosamente, também honram a jornada do Godzilla nos cinemas.

Godzilla: entre a crítica e o espetáculo

Dado que a franquia nasceu como uma grande metáfora sobre horrores do mundo real e atingiu o ápice de popularidade fazendo exatamente o mesmo, pode parecer estranho que algo tão diferente também faça jus a ela. Porém, ao longo de 70 anos, a franquia Godzilla percorreu vários caminhos, que nem sempre estavam ligados ao drama e à reflexão.

Parte do que tornou o longa original tão icônico foi o lado do espetáculo de destruição causado por um monstro gigante. Algo que atraiu o público para as salas de cinema, tornando o lançamento um sucesso, e servindo de inspiração para a popularização do gênero kaiju, focado em monstros gigantes, e do tokusatsu, produções live-action com forte uso de efeitos especiais.

O lado do espetáculo fez o Godzilla de 1954 ser levado mundo afora, chegando à Alemanha Ocidental e aos EUA, locais onde foi reeditado para amenizar o teor crítico, sem perder o entretenimento. Essa versão fez a mente de muitos espectadores, incluindo um pequeno Steven Spielberg, que anos depois citou a produção como inspiração para Jurassic Park (1993).

No Japão, a Toho correu para garantir uma sequência, em que o Godzilla lutaria não apenas contra a humanidade, mas contra Anguirus, um outro monstro gigante. Godzilla Contra-Ataca (1955) foi o primeiro com esse conceito, que explodiu em popularidade com King Kong vs. Godzilla (1962), que quebrou recordes de bilheteria e selou o destino do Gojira quanto a encontrar outros bichões nas telonas.

A partir daí, os filmes de Godzilla passaram a focar cada vez mais em ação e fantasia, com direito a fadas, outros planetas e seus alienígenas, e até comédia. Um ingrediente, aliás, que só foi possível graças à lenta metamorfose do personagem em uma figura heroica e até amigável.

Isso não significa que a franquia abandonou de vez seu caráter crítico, que aparecia aqui ou ali, dando até o tom de produções específicas. Porém, houve uma mudança gradual e um foco cada vez maior no espetáculo das grandiosas lutas entre monstros gigantes, com seus visuais e habilidades icônicas. Não à toa há filmes como O Despertar dos Monstros (1968), que conta com nada menos do que 11 criaturas, incluindo Minilla, uma espécie de filho do Godzilla.

Godzilla cercado por outros kaijus em cena de O Despertar dos Monstros (Toho/Reprodução) Godzilla cercado por outros kaijus em cena de O Despertar dos Monstros (Toho/Reprodução)

Essa abordagem tomou conta dos filmes lançados no fim da Era Showa, que são justamente as inspirações por trás de Godzilla e Kong: O Novo Império. Segundo o diretor Adam Wingard, o novo lançamento do MonsterVerse presta tributo a essas produções, das quais ele é fã por trazerem “grandes ideias e muita diversão com personagens grandiosos”.

Acontece que o caráter fantástico do Godzilla não ficou restrito a esse período. Afinal de contas, mesmo passando por reboots que retomavam o lado mais sério, a franquia nunca abandonou completamente a fantasia.

Basta lembrar que a Era Heisei começou com Gojira (1984), uma produção séria inspirada pela Guerra Fria e por um acidente nuclear recente, mas que alguns filmes depois estava viajando no tempo, apresentando fadas e até o bebê Godzilla Junior, monstrinho que faz amizade com uma humana com poderes psíquicos. Tudo isso antes de chegar ao fim com Godzilla vs. Destroyer (1995), que voltou ao tom dramático com contornos trágicos.

Essa versatilidade acompanha o Godzilla nesses 70 anos de existência e é uma das chaves para a popularidade do personagem. Afinal de contas, várias possibilidades cabem no universo desse monstrão gigante e há produções o suficiente para agradar os mais diversos gostos. A flexibilidade é a chave para entender como Godzilla Minus One e Godzilla e Kong: O Novo Império como dois lados de uma mesma moeda, que se complementam justamente por serem opostos.

Godzilla e Kong lutam no Rio de Janeiro em novo trailer de O Novo Império (Warner/Reprodução) Godzilla une forças a Kong em O Novo Império, filme que abre mão do drama em favor da fantasia (Warner/Reprodução)

Godzilla e Kong: O Novo Império está em cartaz nos cinemas do Brasil. Godzilla Minus One, por outro lado, está indisponível para streaming.

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