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Novo Godzilla e Kong se equilibra entre velhos erros e novos acertos | Crítica
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Novo Godzilla e Kong se equilibra entre velhos erros e novos acertos | Crítica

O Novo Império se joga na fantasia e abraça a galhofa, mas derrapa ao não confiar na própria proposta

Gabriel Avila
Gabriel Avila
28.mar.24 às 14h00
Atualizado há 11 meses
Novo Godzilla e Kong se equilibra entre velhos erros e novos acertos | Crítica
Godzilla e Kong: O Novo Império/Warner/Reprodução

Godzilla vs Kong (2021) foi tanto a culminação do MonsterVerse quanto um divisor de águas para a franquia, que ainda não havia definido um tom próprio que unificasse todos os projetos. A proposta e a boa resposta do público parecem ter agradado o estúdio, que trouxe a mesma equipe de volta para Godzilla e Kong: O Novo Império, que entretém ao levar os titãs por novos caminhos, mas desliza ao repetir velhos problemas.

Um dos grandes esforços do encontro anterior entre Godzilla e Kong foi desprender os monstros de uma conexão mais firme com o realismo em prol da fantasia. A produção de 2021, comandada por Adam Wingard, chegou mais interessada em explorar diferentes possibilidades dentro desse universo e apostou mais em imaginação, estilização e humor, praticamente o oposto do realismo sombrio que havia tomado conta dos filmes do lagartão – e encontrado um esgotamento em Godzilla II: Rei dos Monstros (2019).

O direcionamento do antecessor e o sucesso de outros filmes de monstros mais voltados para a galhofa ajudam a entender a abordagem de Godzilla e Kong: O Novo Império, que se joga de cabeça na fantasia e na diversão. No novo filme, os monstrões precisam unir forças para impedir a ascensão de Skar King, um primata gigantesco que ameaça tanto o planeta Terra habitado por humanos quanto a Terra Oca, lar dos monstros.

Logo de cara, Wingard e companhia reforçam o foco nas particularidades desse universo, ao finalmente abraçarem os monstros enquanto personagens. Os bichões protagonizam grandes porções do filme sem a presença de humanos para explicar cada um de seus passos ou sentimentos, uma decisão que favorece a produção em praticamente todos os sentidos.

O principal ganho é a conexão com os monstros, em especial Kong. Tratado como mais do que fonte de destruição ao longo do MonsterVerse, o primata toma para si o protagonismo do novo filme com um arco simples, mas efetivo, que ganha a empatia do público. Uma ligação construída enquanto ele explora a Terra Oca e se torna o nosso guia no passeio por esse local cheio de possibilidades, com seus mistérios e criaturas.

A força do arco de Kong é tanta, que o principal enredo do núcleo humano parece estar ali meramente para fazer um paralelo entre o que ele e a garotinha Jia (Kaylee Hottle) estão passando. A proximidade entre os dois, estabelecida no filme anterior, ganha uma nova camada no momento em que monstro e humana passam a enfrentar problemas parecidos, um paralelo tão descarado que surpreende por funcionar bem.

Por falar em humanos, outro acerto de Godzilla e Kong foi enxugar esse núcleo. Consequência direta do abandono da abordagem realista, que precisava da perspectiva das pessoas para funcionar – e raramente conseguia –, essa diminuição dá ao núcleo humano somente o espaço necessário para viver as próprias histórias enquanto conecta as várias tramas em andamento. Curiosamente, o filme chega pouco após a estreia da série Monarch - Legado de Monstros (2023), que conta com mais personagens humanos em uma trama em que isso faz sentido por se desenrolar ao longo de décadas.

De volta a Godzilla e Kong, os humanos encontram seus melhores momentos quando cumprem papéis bem definidos sem muita dificuldade. A ligação entre a doutora Andrews (Rebecca Hall) e a pequena Jia fica responsável pelo lado emocional, trazendo motivos plausíveis para que ambas entrem na aventura e prossigam avançando. O mesmo pode ser dito de Bernie (Brian Tyree Henry) e o novato Caçador (Dan Stevens) nos papéis de alívios cômicos carismáticos e funcionais, por mais que nem todas as piadas funcionem.

É uma pena que todo esse cuidado vá por água abaixo dentro do próprio filme. Em certo momento, Godzilla e Kong: O Novo Império decide expandir a mitologia desse universo e, como os monstros não podem fazer isso sozinhos, cabe aos humanos explicá-la. A ideia é boa, especialmente por desfazer erros de filmes passados, que fecharam portas e deixaram lacunas que diminuíram os caminhos possíveis para novas histórias.

Infelizmente, o conceito é executado de forma desastrosa e trouxe à tona a dificuldade da franquia em lidar com as pessoas. O texto econômico dá lugar a minutos seguidos de diálogos forçados com foco em explicações que não surgem de forma orgânica e quebra o ritmo da produção no momento em que se preparava para o grande clímax. Afinal de contas, quando bichos gigantes estão prestes a se socar, a última coisa que a gente quer é um falatório sem fim.

Para piorar, isso contamina o restante da produção, que abre mão da confiança de que os monstros são capazes de “falar” por si mesmos e volta a explicar cada passo deles. Um velho obstáculo da franquia que volta a dar as caras mesmo em uma produção que parecia ter se certificado de evitá-lo.

Esse sentimento de retrocesso tira parte do brilho de Godzilla e Kong, mas só não mancha o projeto por completo porque ele é capaz de contornar esse problema ao voltar a proporcionar o que o público veio ver: ação de primeira.

É um tanto óbvio que o atrativo de um filme como esses é a pancadaria entre bichos gigantes, e nesse quesito, O Novo Império não decepciona. Adam Wingard já tinha se provado com os embates do anterior e retoma o bom trabalho ao trazer ainda mais combates ao longo da rodagem, que é cheia de embates antes mesmo de chegarmos aos finalmentes prometidos pela sinopse.

As diferentes pancadarias entre os monstros são marcadas não só pelos usos quesito

das habilidades e corpos de cada um, como também por diferentes tons. O mais comum é a urgência, causada tanto pela busca pela sobrevivência quanto para fazer demonstrações de poder. Porém, há combates com toques de humor, que caem como uma luva dado o absurdo de toda a premissa.

A ação, inclusive, ajuda a justificar a presença de Godzilla no filme. O lagartão desempenha um papel de coadjuvante de luxo, acionado pela necessidade de preencher blocos com mais ação até ter realmente um papel a desempenhar na aventura. Uma participação que só não se torna frustrante porque cada novo ataque ou batalha monstro traz a dose exata de adrenalina esperada dele.

Na verdade, é até difícil falar sobre o que se espera do Godzilla, que ganhou diferentes facetas ao longo de seus 70 anos de existência. A versão do MonsterVerse optou por jogar o personagem e o universo que o cerca na fantasia e na galhofa, ingredientes que já fizeram parte da franquia anteriormente, incluindo as produções japonesas.

Esse direcionamento pode ser frustrante para quem espera o lado sério e dramático do lagartão, que ganhou força graças à merecida repercussão de Godzilla Minus One (2023), que focou nesse lado e o trabalhou com esmero. Por outro lado, considerando que Hollywood nunca soube fazer esse trabalho direito, faz sentido que a saga ganhe nova vida ao abraçar o absurdo e faça seu espetáculo focado em ação descerebrada e humor causados pelo absurdo da própria premissa.

É uma pena que a própria produção não cumpra completamente esse potencial ao dar passos para trás com falatório humano ao invés de abraçar completamente a maluquice. Ainda assim, é empolgante e divertido o suficiente para fazer valer o retorno de dois dos grandes titãs do cinema.

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