Logo do Jovem Nerd
PodcastsNotíciasVídeos
É verdade que Os Cavaleiros do Zodíaco só faz sucesso no Brasil?
Filmes

É verdade que Os Cavaleiros do Zodíaco só faz sucesso no Brasil?

Propagado desde os anos 1990, boato diz que Seiya e companhia só são famosos por aqui - mas isso é verdade?

Gabriel Avila
Gabriel Avila
28.abr.23 às 10h00
Atualizado há quase 2 anos
É verdade que Os Cavaleiros do Zodíaco só faz sucesso no Brasil?
Os Cavaleiros do Zodíaco/Toei/Divulgação

Os Cavaleiros do Zodíaco estão de volta aos cinemas. O filme live-action é a nova produção de uma franquia que nasceu nos anos 1980 e não parou de crescer desde então. Curiosamente, a cada novo lançamento é possível ler nas redes sociais e até entre fãs de anime que “Cavaleiros do Zodíaco só faz sucesso no Brasil” ou algo do tipo. Um chavão que até tem sua lógica, mas que está longe da verdade.

A saga dos cavaleiros começou em 1986, quando a tradicional revista de mangás Weekly Shonen Jump iniciou a publicação do título Saint Seiya, de Masami Kurumada. Em questão de meses, a história de Seiya e os cavaleiros que lutam por Atena ganhou anime e uma linha de brinquedos que não demoraram para explodir no Japão e fora dele.

Em seu país, a obra de Kurumada teve impacto quase imediato, com bons números em relação à venda em bonecos e mangás – em 2007, a Comipress listou Cavaleiros do Zodíaco como o 20º título mais vendido da história da Shonen Jump. E o sucesso não ficou restrito ao país, já que poucos anos depois, a série animada de Saint Seiya e seus produtos chegaram a países da Europa e da América Latina.

Isso nos leva à grande pergunta deste texto:

Cavaleiros do Zodíaco só é grande no Brasil?

A resposta curta é: não. Cavaleiros do Zodíaco não foi abraçada apenas pelo público brasileiro. Em primeiro lugar, nós nem fomos os primeiros a receber a obra de Kurumada. Esse feito ficou para os franceses que, em 1988, foram os responsáveis por transformar o título de Saint Seiya para Les Chevaliers du Zodiaque, que se tornou o nome oficial da obra ao redor do mundo.

Os europeus foram os primeiros a importar não apenas a história, mas a forma de lucrar com ela ao usar o desenho animado como comercial para brinquedos inspirados nele. Dessa forma, a jornada de Seiya, Saori e companhia se espalhou pelo mundo rapidamente. A revista Veja citou em novembro de 1994 que a franquia tinha um faturamento aproximado de US$ 100 milhões graças ao desempenho em territórios como Portugal, Espanha, México e na própria França. Uma febre que não demorou para tomar conta também da América do Sul.

É aí que o Brasil entra na história. Ou melhor, é aí que Cavaleiros do Zodíaco faz história no Brasil.

Arte do anime de Cavaleiros do Zodíaco (Toei/Divulgação) Arte do anime de Cavaleiros do Zodíaco (Toei/Divulgação)

Cavaleiros do Zodíaco chegam ao Brasil

O ano de 1994 foi agitado para o Brasil. Entre uma eleição presidencial, a conquista de uma Copa do Mundo no futebol e o adeus a um grande ídolo como Ayrton Senna, o país ainda recebeu Os Cavaleiros do Zodíaco. Colocar a estreia do anime na mesma prateleira dos demais eventos pode parecer exagero, mas não é.

Seis anos após a estreia do anime em terras francesas, a empresa Samtoy decidiu lançar os brinquedos da saga por aqui e, para isso, estava disposta a arcar com os custos da exibição da série animada. Recusada por várias emissoras, a companhia só conseguiu emplacar a animação na Rede Manchete, que “pagou” o investimento da Samtoy com os intervalos comerciais da exibição da série.

Os Cavaleiros do Zodíaco se tornou um sucesso estrondoso que fez bem para ambas as partes. A Manchete conquistou uma audiência que vinha precisando há tempos – meses antes a emissora chegou a sair do ar devido a uma crise financeira –, enquanto a Samtoy lucrou imensamente com a venda dos bonecos. Em dez meses, foram mais de 800 mil brinquedos vendidos.

Esse sucesso movimentou também outros setores, como o cinema. A própria revista Veja reportou a expectativa pela estreia de Os Cavaleiros do Zodíaco: O Filme (1995) dizendo que "nunca um filme estreou no país ocupando tantas salas ao mesmo tempo". O que diz muito, considerando que a produção estreou quando títulos como Batman: Eternamente e Pocahontas ainda estavam em cartaz.

Cartaz japonês de Os Cavaleiros do Zodíaco - O Filme, que depois ficou conhecido como A Lenda dos Defensores de Atena (Toei/Reprodução) Cartaz japonês de Os Cavaleiros do Zodíaco - O Filme, que depois ficou conhecido como A Lenda dos Defensores de Atena (Toei/Reprodução)

Esses são alguns dos eventos que ajudam a dimensionar o fenômeno Cavaleiros do Zodíaco nos anos 1990, tido por muitos como um dos grandes responsáveis pela explosão dos animes no país. Se hoje temos eventos, streamings e editoras dedicadas à obras asiáticas – além de títulos como Demon Slayer e Suzume chegando aos cinemas por aqui –, muito se deve aos guerreiros do cosmo. Com isso em mente, talvez não seja exagero dizer que essa estreia entrou para a história do país, ao ser um catalisador para que ele se abrisse para toda uma cultura.

Curiosamente, esse raio caiu duas vezes por aqui e a franquia teve outro pico de popularidade nos anos 2000. Foi neste ano que o mangá chegou ao país, em uma publicação da editora Conrad, que chegou ao fim em 2004. Neste mesmo ano, o anime voltou com tudo no canal pago Cartoon Network e na TV aberta pela Band. Com direito à uma nova abertura ao som de “Pegasus Fantasy” na voz do cantor Edu Falaschi, esse momento foi responsável pela criação de uma nova geração de fãs – incluindo este que vos escreve.

Watch on YouTube

Mas não pense que o mundo havia abandonado os Cavaleiros dos Zodíaco enquanto o Brasil se reencontrava com a saga. Afinal de contas, há uma famosa lenda urbana sobre uma possível influência francesa na aguardada conclusão da série clássica.

O anime dos anos 1990 chegou ao fim antes de adaptar a famosa Saga de Hades, que encerra a história contada por Masami Kurumada nos mangás. Após anos sonhando com essa conclusão, um fã francês chamado Jérôme Alquié produziu de forma independente dois curtas imaginando como seria o arco final em animação. Confira abaixo:

Watch on YouTube

Coincidentemente ou não, um ano depois a Toei decidiu animar a saga final no formato OVA (Original Video Animation). Apesar de nunca ser creditado oficialmente pelo retorno do anime, a influência de Alquié é óbvia para muitos. Anos depois, o autor recebeu a chance de trabalhar oficialmente na franquia com Saint Seiya: Time Odyssey, HQ francesa que conta uma história original.

Que fique claro que usamos a França por questão de recorte, mas é possível encontrar registros sobre o sucesso da animação em vários outros países. O autor Miguel Martínez cita a produção como uma das responsáveis pelo “boom dos animes” na Espanha. Já o jornal La Voz diz que Cavaleiros fez “parte da educação emocional e estética de toda uma geração” na Argentina e comparou o sucesso do anime a Friends.

Então, de onde surgiu o boato de que Cavaleiros do Zodíaco só fez sucesso no Brasil?

Antes de encerrar, é interessante refletir sobre de onde vem essa história de que Cavaleiros do Zodíaco é um fenômeno exclusivo do Brasil. O primeiro argumento é que Seiya e seus companheiros ficaram para trás em comparação a outros grandes mangás de sucesso da atualidade.

Por exemplo, o mangá clássico atingiu a marca de 50 milhões de cópias vendidas em 2022, mais de 35 anos após sua estreia. Para comparação, Demon Slayer bateu 60 milhões de cópias em circulação pouco menos de quatro anos após o início da publicação – em fevereiro de 2021, o número chegou a 150 milhões.

Outro fator pode ser o fato de que a saga nunca explodiu nos Estados Unidos. Ao contrário de Dragon Ball ou Naruto, Cavaleiros passou batido na terra do Tio Sam, chegando por lá apenas em 2003 e passando longe do fenômeno que foi na Europa e na América Latina. Por mais absurdo que pareça, há quem acredite que passar batido pelos EUA seja sinal de fracasso, como se os estadunidenses fossem algum tipo de padrão de qualidade.

Essas são algumas das possibilidades, mas é difícil traçar a raiz dessa conversa. Talvez a razão seja muito mais simples e tenha a ver com o fato de que nenhuma cultura popular foi tão impactada por Cavaleiros do Zodíaco quanto a do Brasil. E, se for o caso, a comparação diz mais sobre a paixão dos brasileiros por uma produção que fez elevar o cosmo no coração de uma nação inteira.

Com direção de Tomasz Baginski (The Witcher), o live-action Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo tem Mackenyu (Círculo de Fogo: A Revolta), Madison Iseman (Annabelle 3), Famke Janssen (X-Men), Sean Bean (Game of Thrones) e Mark Dacascos (John Wick 3: Parabellum) no elenco. O filme está em cartaz nos cinemas do Brasil.

Encontrou algum erro neste conteúdo?

Envie seu comentário

Veja mais

Utilizamos cookies e tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossas plataformas, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Para mais informações, consulte nossa Política de Privacidade.
Capa do podcast