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A DC é superprotetora com o Batman (e isso é um problema)
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A DC é superprotetora com o Batman (e isso é um problema)

Medo de “sujar a imagem” pode acabar com o legado do herói

Gabriel Avila
Gabriel Avila
16.fev.22 às 11h30
Atualizado há cerca de 3 anos
A DC é superprotetora com o Batman (e isso é um problema)

Nos últimos anos, a DC Comics deixou bem claro que com o Batman não se brinca. De tempos em tempos surgem relatos de criadores sobre vetos que a editora impõe, e em sua maioria eles recaem sobre o Homem-Morcego. Ainda que a intenção seja manter intacta a imagem de um dos pilares no Universo DC, essa prática pode se tornar um problema a longo prazo para o próprio morcegão e seus fãs.

Um caso bastante comentado nos últimos tempos foi o veto de uma cena picante entre o Batman e a Mulher-Gato em Harley Quinn, a série animada da Arlequina. Mesmo com uma classificação indicativa para maiores, um momento sugestivo de que o herói faria sexo oral na companheira foi proibido pela DC. Na ocasião, a empresa afirmou que “heróis não fazem isso” e que esse ato dificultaria a venda de brinquedos.

Além da justificativa absurda, esse episódio trouxe um estranhamento pelo simples fato de que o casal já havia protagonizado cenas de sexo nos quadrinhos. Ainda que nada tenha sido mostrado de forma explícita, os momentos íntimos fizeram parte das histórias, então qual foi o problema dessa vez? Aparentemente transar não afeta a venda de bonecos, mas satisfazer a parceira sim.

Aliás, o sexo parece ser um tabu constante para o Morcego. Em 2018, a DC lançou Batman: Condenado, quadrinho que estreou um novo selo de HQs adultas chamado Black Label. A primeira edição da revista trouxe momentos em que o herói apareceu nu, o que causou um falatório ao ponto de a editora censurar a bat-nudez em reimpressões e publicações internacionais.

Esse foi apenas o primeiro caso de vetos e alterações dentro do Black Label. Cenas de nudez foram cortadas de Batman: Cavaleiro Branco e os criadores de Arlequina e as Aves de Rapina: Todos Contra a Arlequina dizem ter sido obrigados a alterar uma cena de sonho em que o Morcegão apareceria de sunga. O roteirista Jimmy Palmiotti revelou no Twitter que tiveram de trocá-lo pelo Superman porque o “Batman não tinha permissão para parecer bobo”.

Tudo bem, já entendemos que sexo é um tema sensível para o Batman – mesmo que o fato de ele ser pai do Robin Damian Wayne revele que, canonicamente, ele já transou ao menos uma vez. Mas o problema parece chegar também na violência, pois em 2021 a DC alterou uma capa de Batman/Catwoman #7 para deixar menos sangue nas mãos e no rosto do herói. Curioso que a editora não se incomodou em publicar uma história em que ele literalmente coloca fogo em bandidos em Grandes Astros: Batman & Robin #7.

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O protecionismo chegou a um novo nível recentemente na série Peacemaker. No primeiro episódio, o Pacificador (John Cena) diz que o Batman é um “fracote” por não matar seus vilões, dando a chance de que eles escapem e façam mais vítimas. A frase, que no idioma original usa a palavra “pussy” (que pode servir tanto para fracote/molenga como para se referir de forma ofensiva à genitália feminina), virou motivo de preocupação.

Segundo o criador James Gunn, essa fala foi a única coisa que a DC “questionou” nos primeiros episódios da série. O próprio cineasta citou que a empresa não achou ruim a parte em que o Pacificador acusa o Aquaman de “foder peixes”, o que leva a crer que também não se irritaram quando ele diz que o Superman tem fetiche em fezes ou que o Flash é um “babaca insuportável”.

Sendo assim, por que tanto medo quando o assunto é o Batman? É difícil entender o que leva a editora a crer que fazer piada, mostrá-lo transando ou até coberto de sangue faria com que o público deixasse de simpatizar com ele. Especialmente quando tudo isso é feito sem o menor pudor com praticamente todos os outros personagens sem alvoroço.

Ainda que esses casos pareçam pequenos e até isolados, eles demonstram que a DC coloca o Batman em uma espécie de pedestal de castidade que não faz bem ao personagem. Essas proibições poderiam ser compreensíveis se acontecessem de produções voltadas ao público infantil, mas em sua grande maioria elas são voltadas a um público maduro que consegue muito bem aceitar que seu herói passe por situações adultas.

Mais do que deixar o personagem chato, essa preocupação excessiva em cada passo do Cavaleiro das Trevas pode se tornar um grande problema caso a editora não saiba a hora de parar e comece a interferir em absolutamente qualquer ideia relacionada ao personagem. Uma das chaves para a longevidade do Batman, que tem mais de 80 anos de estrada, está nas infinitas possibilidades encontradas no herói. Ele pode ser irreverente como na série dos anos 60, assim como pode ser sombrio em HQs como Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal e até mais realista como o da trilogia de Christopher Nolan.

Não à toa, algumas das histórias mais interessantes do Batman nos últimos anos nos quadrinhos surgem de universos alternativos ou futuros "possíveis". Ao não trazer nada para o cânone, essas aventuras ganham um pouco mais de liberdade para investir em perspectivas que parecem proibidas na continuidade oficial. Ainda assim, até mesmo essa liberdade tem limites, pois as já citadas Condenado e Cavaleiro Branco se encontram nessa condição e ainda assim sofreram cortes.

Ao podar a visão criativa de pessoas interessadas em procurar novas ideias e perspectivas, a DC pode acabar minando a originalidade em favor de histórias padronizadas e engessadas, mas que não “mancham” o legado do Batman. Como se chamá-lo de fracote fosse capaz de apagar os vários momentos memoráveis que moram na memória de cada fã que o herói angariou ao longo desses anos.

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