Watchmen | Série estreia com trama instigante, narrativa engenhosa e referências à HQ

Talvez já seja possível deixar o ceticismo de lado em relação a essa adaptação

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Watchmen | Série estreia com trama instigante, narrativa engenhosa e referências à HQ

[Aviso: spoilers abaixo!]

O ceticismo é uma atitude saudável, que ajuda a evitar decepções e, vez ou outra, ainda rende boas surpresas. Quem duvidava que a nova empreitada da HBO pudesse acrescentar qualquer coisa à obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons deve ter ido dormir um pouco mais esperançoso no domingo. Afinal, em seu episódio de estreia, Watchmen conseguiu se manter reverente ao material original e, ao mesmo tempo, propor uma nova história interessante, contada com engenhosidade suficiente para gerar discussão e criar expectativa.

Publicada entre 1986 e 87, a graphic novel explorava o zeitgeist de então nos Estados Unidos, especialmente o clima de medo e paranoia provocado pela Guerra Fria com a União Soviética, bem como o risco iminente de uma hecatombe nuclear. Apropriadamente, a série atualiza a temática, voltando-se a questões atuais como o recrudescimento dos conflitos raciais e a ameaça representada pela ascensão dos grupos supremacistas brancos.

Por sinal, o episódio It’s Summer and We’re Running Out of Ice começou retratando o histórico massacre ocorrido na cidade de Tulsa em 1921, em que turbas de brancos realizaram violentos ataques à população de um bairro de maioria negra. Além de ajudar a definir o tom logo de cara, a tragédia foi usada como pano de fundo para apresentar um personagem que terá importância mais à frente, o garotinho que sobreviveu.

Ao avançar para 2019, o roteiro do showrunner Damon Lindelof trouxe uma solução bastante eficiente. Sem recorrer a diálogos expositivos, a sequência da abordagem policial na estrada conseguiu, em poucos minutos, estabelecer o presente alternativo, decorrente dos acontecimentos mostrados na HQ — uma realidade em que os defensores da ordem pública escondem seus rostos, seguem rígidos protocolos de segurança e interpretam a máscara de Rorschach como sinal de perigo, por associar seu portador à milícia terrorista Sétima Kavalaria, formada por admiradores do falecido vigilante.

Igualmente bem-sucedida foi a introdução de Angela Abar (Regina King). Longe de se limitar a ser badass quando veste o manto de Sister Night, a protagonista se mostrou carismática, complexa e dona de enorme potencial dramático, que poderá ser desenvolvido em diferentes abordagens, incluindo o aspecto racial, o drama familiar — principalmente com o marido, Cal (Yahya Abdul-Mateen II) — e a conformidade ao sistema, algo que se reflete na relação próxima, porém atribulada com o chefe, Judd (Don Johnson).

O maior achado do script, todavia, foi a utilização do musical Oklahoma!, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein, como uma espécie de fio condutor. A graphic novel já havia explorado recurso semelhante, notadamente no capítulo Terrível Simetria, que faz referência a um verso do poema O Tigre, de William Blake, não somente no título, mas no próprio layout — a primeira página espelha a última, e assim sucessivamente, até a dupla central, criando uma estrutura totalmente simétrica.

O musical surgiu três vezes no episódio, todas ligadas a Judd. A primeira, no início, quando ele assistia uma versão com um elenco de atores negros. A segunda, durante o jantar em sua casa, durante o qual revelou que, quando jovem, participou de uma montagem, interpretando Curly, o papel principal (vale apontar que o vilão da peça se chama Jud… Coincidência? Ou pista de que o chefe de polícia escondia algo?). E a terceira, no final, ao som de uma canção de Oklahoma! cuja letra traz justamente o verso “it’s summer and we’re running out of ice”.

Também é importante notar que a morte de Judd remeteu ao filme mudo que o garotinho lá do início estava assistindo — nele, Bass Reeves, “o xerife negro de Oklahoma”, impedia que a multidão enforcasse o ladrão, dizendo a todos que deveriam confiar na lei. A julgar pelo bilhete em sua mão, aquela criança cresceu e se tornou Will Reeves (Louis Gossett Jr.), o velhinho na cadeira de rodas.

É claro que o detalhe mais chamativo na última cena foi o sangue sobre o distintivo, emulando o icônico button da carinha sorridente. O episódio teve outras referências diretas aos quadrinhos, como a aeronave de design idêntico à Archie, do Coruja (seria a mesma nave ou uma cópia?); a menção a um tal senador John Keene, provavelmente o autor da Lei Keene, que baniu os vigilantes mascarados nos anos 1970; e um exemplar de Sob o Capuz, autobiografia de Hollis Mason, o Coruja original, que apareceu na mesa do chefe de polícia.

Por fim, tivemos a aparição de Adrian Veidt (Jeremy Irons), o Ozymandias, aparentemente aposentado e cercado de empregados cuja excessiva devoção e inabilidade em realizar tarefas simples (como preparar um bolo ou oferecer o utensílio adequado para cortá-lo) sugere que há algo de estranho com eles. E se por um lado a manchete no jornal a respeito da morte de Veidt pareceu indicar que ele a forjou para poder se exilar, por outro, existe a possibilidade de que os eventos protagonizados por ele sejam flashbacks — afinal, brincar com narrativas em diferentes linhas temporais é um truque bem conhecido por Lindelof, um dos criadores de Lost.

Resta agora saber de que maneira os demais personagens da HQ, como o Doutor Manhattan e Laurie Juspeczyk, a Espectral, serão integrados à trama. Isso sem falar em questões como o misterioso plano da Kavalaria, a ligação entre Will e Angel e a chuva de lulas. É, talvez já seja possível deixar o ceticismo de lado…