Não deve ser fácil suceder uma obra de sucesso. Mais difícil ainda quando tal obra torna-se o primeiro grande sucesso global em língua não-inglesa do maior streaming do mundo, com uma legião de fãs ainda absortos em teorias e perguntas mesmo dois anos após seu final. A boa notícia é que o casal alemão Baran Bo Odar e Jantje Friese evitou o caminho fácil que seria requentar Dark. Ao invés disso, eles se desafiam (e aos espectadores) em um intrigante novo mistério com 1899, série já disponível na Netflix.
Situada no ano de que pega emprestado o título, a trama apresenta a tripulação e passageiros de um enorme navio a vapor em viagem da Europa para os Estados Unidos. Multilinguístico, o roteiro apresenta personagens alemães, ingleses, japoneses, franceses, espanhóis e mais. O mistério começa quando a embarcação encontra um outro navio à deriva, sumido há meses, que é o estopim de todos os dramas e mistérios da trama.
O leitor deve ter percebido que alguns elementos soam comuns a quem viu Dark. E, de fato, é uma tarefa mais fácil acompanhar os rostos que movimentam a história se você estiver acostumado com a igualmente extensa galeria de protagonistas da trama anterior (ainda que um bloquinho seja conveniente). Mas as múltiplas perspectivas e a paixão dos criadores por deixar você coçando a cabeça é onde as similaridades terminam - ao menos conscientemente. O problema é que, na fuga de se repetirem, Friese e Bo Odar correm com tantas coisas ao mesmo tempo, que nem a trama consegue alcançar.
Desde as primeiras cenas, é claro que há algo acontecendo por baixo do que está em tela. Rimas visuais, o foco em determinados aspectos do cenário e outras opções narrativas criam uma necessidade de se prestar atenção nos mínimos detalhes. O grande perigo, claro, é que o espectador construa em sua cabeça um mistério ainda mais interessante do que o que será revelado ao longo de oito episódios.
Nesse sentido, a referência visual e narrativa mais próxima de 1899 é uma mistura de Twin Peaks (1990-1991) e Lost (2004-2010). E, no caso da última, sabemos a duras penas onde jogar mistério atrás de mistério pode resultar.
1899 ao menos chega embalada em um impecável trabalho de direção de Baran Bo Odar. Da fotografia de tons frios, até os claustrofóbicos corredores do navio (o que é um interessante contraponto, visto que o bicho é enorme por fora), o cineasta cria uma sensação de desconforto constante. É no cenário labiríntico que se desenrolam as interações entre o numeroso elenco, um dos acertos da série.
O protagonismo se divide entre a médica inglesa Maura Franklin (Emily Beecham), o capitão do navio, Eyk Larsen (Andreas Pietschmann, voltando de Dark) e o misterioso Daniel (Aneurin Barnard). O trio convence tentando ser a âncora de sanidade do navio, embora eles mesmos guardem segredos sombrios.
Há figuras como os irmãos espanhóis Ángel e Ramiro (Miguel Bernardeau e José Pimentão), o casal francês Lucien e Clémence (Jonas Bloquet e Mathilde Ollivier), além de uma esquisitíssima família carola dinamarquesa, com a jovem Tove (Clara Rosager). Os atores conseguem instigar o interesse em cada subtrama, ainda que o roteiro teime em por horas relegá-los a peças narrativas, ou reagindo às bizarrices se desenrolando em cena, ou convenientemente colocando eventos em ação. Um jogo interessante é contar quantas vezes e quantos personagens conseguem entregar variações da frase "Isso não faz sentido" ao longo dos oito capítulos.
Baran Bo Odar e Jantje Friese afirmam que a história está planejada para até três temporadas, assim como Dark. Para os órfãos da série anterior, 1899 vai saciar o desejo por algumas horinhas de neurônios queimando. Para os novatos, o ritmo glacial pode torcer narizes. Não espere respostas fáceis, nem rápidas. Mas todos sabem os riscos ao se embarcar nesse navio, não é mesmo?
A série encerra a primeira temporada com ideias interessantes e um lado técnico competente, ainda que caia nas próprias armadilhas ao tentar demais criar uma trama mais complexa do que deveria (talvez mais complexa até do que de fato é). Resta torcer que as bússolas de Friese e Bo Odar se aprumem melhor quando a trama zarpar ao mar para as próximas temporadas.