Em primeiro lugar, devo uma desculpa ao caro leitor pelo título hiperbólico. Sei bem que os fãs de The Walking Dead existem aos montes (esse texto não existiria se o repórter que vos escreve não estivesse nesse meio). Mas o fato é que a série de zumbis se tornou um alvo fácil de piadas ao longo dos anos, boa parte ironizando a longevidade da trama. Com a chegada da temporada final (que não foi bem um final, mas explico adiante), e os últimos 12 anos em perspectiva, fui questionado por queridos colegas de Nerdbunker, amigos íntimos e finalmente por mim mesmo: por que diabos nunca abandonei a série esse tempo todo?
Matutando sobre o tema, achei justo dividir o assunto em quatro níveis. Em primeiro lugar, e em uma análise tão profunda quanto um pires, eu nunca abandonei The Walking Dead porque… eu adoro a série. Curto e simples. Essa explicação, inclusive, me salvaria do montão de palavras que seguirão abaixo [risos]. Mas vamos com calma, que o amado leitor logo entenderá meus pontos. Ou assim espero.
Em um nível talvez mais inconsciente, há a ideia de que já dedicamos tanto tempo a algo, que queremos ir até o final, seja por birra ou curiosidade genuína. Sabe o tal “Agora quero saber o que vai dar”?. Pois bem.

Os mais entendidos de psicologia e ciência podem me corrigir ou me corroborar, mas uma parte da cabeça fica coçando com a ideia de ter desistido de algo a que já dediquei 12 anos da minha vida, e sabe-se lá quantas horas, entre série principal, derivados e todas as mídias que eu provavelmente consumi mais do que deveria.
Nesse quesito, o mérito é também do roteiro da série, que mesmo com suas derrapadas, criava momentos em que continuar assistindo virava quase obrigação. Quem viveu o gancho entre o fim da temporada 6 e o início da temporada 7 lembra a paulada na cabeça, para bom entendedor.
Em um nível mais frio e racional, também não abandonei The Walking Dead porque, como dito acima, a série ainda pincelava momentos de genialidade mesmo com a indiscutível queda geral de qualidade e audiência.
Sob o olhar crítico e jornalístico que demanda a profissão, nenhum leitor me verá negar que o descompasso interno com as diversas trocas de showrunners, mortes de personagens baseadas em renegociações de contrato e a saída da maior estrela, Andrew Lincoln, afetaram o rumo da série.
Mesmo assim, um elenco carismático, liderado por gente como Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan e Jeffrey Dean Morgan mantinham um mínimo de carisma e entretenimento todo domingo à noite. Se as histórias ficavam mais repetitivas ou bobinhas com o passar das temporadas, o deleite ao menos vinha com as competentes e tensas cenas de ação, que nunca deixaram a desejar.

Em última análise, e em tom estritamente pessoal, nunca abandonei The Walking Dead porque The Walking Dead esteve comigo em boa parte dos melhores momentos da minha vida.
Pense em tudo que aconteceu na SUA vida em 12 anos. DOZE. ANOS. Para mim, isso significa todo o caminho desde a correria na escola e os perrengues das recuperações no fim do ano (a que devo minha formação nas ciências humanas, privando o mundo de um péssimo matemático), passando pelo amadurecimento e a chegada da vida adulta. Bote aí também a minha visão de mundo, e como ela mudou ao longo de mais de uma década, e um pedacinho da paixão pela cultura pop que me levou a hoje escrever para tanta gente, inclusive você, que me acompanhou até aqui. Faça o exercício e tente imaginar o seu eu de 2010, comparado com o você que está agora mesmo lendo estas mal traçadas linhas.
Para ajudar no raciocínio, pense no tanto de séries icônicas que começaram e terminaram só durante o período de exibição de TWD. Game of Thrones, House of Cards, Better Call Saul, The Leftovers… Ainda mais considerando que a trama não acabou pra valer, com ao menos três continuações diretas já confirmadas.
No fim das contas, as séries que amamos nos dão histórias para torcer, passar raiva mas, na verdade verdadeira, ganhamos mesmo é amigos. Tanto os que acompanhamos na tela, como os com quem acompanhamos tais aventuras.
Para mim, a sorte sorriu com uma certa pessoa especial (que não será exposta aqui, nem peçam) cuja história comigo se confunde com toda a trajetória de The Walking Dead. Lembrar de trechos da série é lembrar de quem eu era, e como era minha vida quando tais coisas aconteceram. E de quem esteve junto na jornada, da primeira cena de Rick Grimes baleado até o último rolar de créditos.
Créditos, aliás, que trouxeram o golpe mais baixo em despedidas, mas que sempre funciona: a montagem de momentos e personagens passados ao longo de toda a série. Mas Deus do céu, como funciona. E aqui eu deixo toda a imparcialidade jornalística de lado ao admitir que não só o nó na garganta se formou, como o aperto no peito veio da mesma forma de quem se despede de uma grande amizade. Mas com a felicidade de quem apreciará para sempre todos os momentos, sejam os altos ou os baixos. E foi por isso que eu nunca abandonei The Walking Dead.