Logo do Jovem Nerd
PodcastsNotíciasVídeos
Pesquisador da PGB falam sobre rejeição ao termo "gamer" no Brasil
Games

Pesquisador da PGB falam sobre rejeição ao termo "gamer" no Brasil

Apresentada na gamescom latam, pesquisa indica paixão pelos games, mas não a identidade

Arthur Eloi
Arthur Eloi
01.jul.24 às 15h51
Atualizado há 9 meses
Pesquisador da PGB falam sobre rejeição ao termo "gamer" no Brasil
gamescom latam 2024/Divulgação

A gamescom latam, que aconteceu na cidade de São Paulo durante o último fim de semana, foi uma celebração da cultura gamer. Estandes brilhantes recebiam filas enormes de gente querendo conferir grandes lançamentos e indies do Brasil todo. No palco do evento, a Pesquisa Game Brasil comprovou o enorme carinho pelos jogos na América Latina — mas um dado chama a atenção.

Os entrevistados pelo levantamento afirmaram não se identificar pelo termo “gamer”. Na América Latina, 63,6% do público da pesquisa não se considera um, e a rejeição é maioria tanto nos homens (58,1%) quanto nas mulheres (70,6%).

O dado salta aos olhos em uma pesquisa que celebra cada vez mais adesão aos videogames como principal forma de entretenimento. Será que isso é sinal que os jogadores no Brasil e países vizinhos não se sentem tão entusiastas da mídia que tanto aproveitam? Ou será que o problema está na identidade “gamer”, importada dos Estados Unidos? O NerdBunker se sentou com um dos responsáveis pela PGB para entender melhor o caso.

Jogadores da América Latina buscam jogos desafiadores, mas não são adeptos do termo "gamer" [Créditos: Pesquisa Game Brasil 2024/Divulgação]
Segundo Mauro Berimbau, pesquisador e consultor da Go Gamer, a baixa adesão ao termo pode representar preconceitos datados com a mídia, como a ideia de que videogame é coisa de criança, mas que também pode estar diretamente relacionado ao investimento pessoal no hobby:

A ideia de ser gamer é uma questão de identidade. É interessante essa afirmação: será que as pessoas têm 'vergonha' de ser gamer? É possível. Não medimos isso mas, hipoteticamente, será que é visto como coisa de criança? [...] O que sabemos dentro da área de pesquisa quantitativa é que existe uma relação muito clara entre a pessoa se identificar como gamer e consumir.

Esse é um ponto curioso. ‘Gamer’, afinal, é um rótulo amplamente usado para identificar entusiastas de videogame, mas a prática desse entusiasmo pode estar mais fortemente conectada a um aspecto financeiro do que artístico. É como, por exemplo, alguém se definir ‘Cinéfilo’ apenas se tiver grandes coleções de Blu-rays ou equipamento de cinema em casa, e não pela prática ávida de interesse no cinema mundial.

Gamer seria, então, uma identidade de consumo, e não necessariamente um indicativo de apreciação artística pelo meio. A própria descrição do dado na PGB explica nesses termos: “Ser gamer está associado a um perfil de maior envolvimento e que é composto por diversos outros comportamentos de consumo”, afirma. “Por isso, o que podemos afirmar pelos dados da pesquisa, considerando LATAM, é que aqueles que se identificam como gamers valorizam mais os jogos digitais, estando dispostos a gastar mais de seu tempo e dinheiro em nome da sua diversão.

É por isso que a ideia de uma identidade gamer é mais difundida no marketing do que como sinalizador de uma comunidade, especialmente na era em que os jogos estão sendo transportados para a TV e o cinema — com os estúdios na expectativa de que os gamers vão atrás. “Consumir jogos digitais não significa jogar, necessariamente”, falou Mauro Berimbau. “Dá para fazer isso assistindo, comprando camisetas e de tantas outras formas sem comprar jogos ou jogar.

Tentar quantificar o que é um gamer parece um esforço inútil, ou até mesmo uma forma aumentar a barreira para entrar nessa comunidade. Pelo contrário, entender que o título é pouco importante ao ato de jogar videogame pode contemplar muitas das pessoas que amam a mídia, mas não se vêem conectadas aos demais entusiastas.

Jogadores de smartphone são maioria no Brasil e América Latina [Créditos: Pesquisa Game Brasil 2024/Divulgação]
A disputa pela ideia de que o gamer não deveria ser o público-alvo de tudo na indústria é discutida na internet há mais de uma década, de várias formas diferentes, como na demanda por maiores ferramentas de acessibilidade, modos mais fáceis e visibilidade aos jogadores casuais.

Outro dado intrigante da pesquisa aponta que a plataforma favorita da América Latina é o smartphone, segundo 47,7% dos entrevistados. Ainda assim, parece haver uma noção entre os gamers hardcore de que jogos de celular são, de alguma forma, inferiores, mais baratos e mercenários, ou menos importantes que os títulos de PC ou consoles. Ou seja, há uma enorme fatia de jogadores em plataformas e games que são invalidadas por entusiastas, como diz o pesquisador:

Se você joga jogos digitais, você sabe que não são, necessariamente, baratos. Para ser um jogador com videogame e jogo do momento, ou ter um PC bacana para jogar, exige investimento. Isso, historicamente, no Brasil e na América Latina, a gente vê que quem consome consoles é o pessoal que tem renda maior.

Quando novos modelos de negócio começam a aparecer e disponibilizar diversos títulos, com estratégias de monetização diferentes, isso convida as pessoas a participar. Como é que a pessoa vai se apaixonar por algo que ela não consegue participar? Isso permitiu que muitas pessoas pudessem se tornar gamers ou fãs.

É difícil imaginar a identidade se tornando mais inclusiva a plataformas mais acessíveis e rendas sociais diversas, mas a rejeição ao termo na contramão do crescimento desse mercado no continente serve como um bom indicador de que talvez a indústria não tenha que tentar se enquadrar ou agradar a um rótulo tão limitante.

Há uma década, em agosto de 2014, a jornalista Leigh Alexander causou polêmica com o artigo intitulado (em tradução livre): “Gamers não precisam ser o seu público. Os gamers acabaram”. Dez anos depois, dados como o da PGB apenas comprovam que ela estava certa.

Você pode conferir o levantamento completo da Pesquisa Game Brasil 2024 no site oficial (clique aqui). Aproveite e conheça todas as redes sociais do NerdBunker, entre em nosso grupo do Telegram e mais - acesse e confira.

Encontrou algum erro neste conteúdo?

Envie seu comentário

Veja mais

Utilizamos cookies e tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossas plataformas, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Para mais informações, consulte nossa Política de Privacidade.
Capa do podcast