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Novocaine: À Prova de Dor surpreende com comédia, ação e gastura | Crítica
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Novocaine: À Prova de Dor surpreende com comédia, ação e gastura | Crítica

Filme usa criatividade para trazer fôlego ao gênero com herói imune a dor

Gabriel Avila
Gabriel Avila
27.mar.25 às 09h00
Atualizado há 17 dias
Novocaine: À Prova de Dor surpreende com comédia, ação e gastura | Crítica
Paramount/Reprodução

Um homem comum parte em uma jornada violenta para recuperar a amada, sequestrada por criminosos. Esse fiapo de sinopse descreve um sem-fim de filmes, e o mais novo chegado ao grupo é Novocaine: À Prova de Dor, que passa longe de reinventar a roda e se diverte levando-a para girar por territórios surpreendentes, engraçados e sanguinolentos.

O mocinho da vez é Nate (Jack Quaid), bancário portador de Insensibilidade Congênita à dor com Anidrose, ou CIPA, uma doença real que o impede de sentir frio, calor e, principalmente, dor. Essa breve descrição dá uma ideia de onde a história vai parar e o próprio filme brinca com isso ao soltar a frase "você é basicamente um super-herói" logo nos primeiros minutos. Para nós, fica a interessante promessa de estarmos diante de um John McClane invulnerável. Mas, felizmente (para a trama), não é simples assim.

Antes de partir para a pancadaria que inevitavelmente vai usar a CIPA como arma, o roteiro de Lars Jacobson (Herança Maldita) aborda algumas das várias dificuldades causadas pela doença. Um retrato que retira a aura de "superpoder" da condição, expondo perigos mortais que se escondem em situações simples, como um banho ou uma refeição.

Esses cuidados são a espinha dorsal da personalidade de Nate, que cai como uma luva para Jack Quaid. A essa altura, o astro já se firmou como o intérprete perfeito para caras quadradinhos e introvertidos, que se envolvem em situações incomuns e, por vezes, violentas – como visto em The Boys, Pânico (2022) e mais. Uma imagem que Novocaine não só evoca, como alimenta para que seu protagonista se destaque dos heróis típicos desse gênero.

A produção investe um tempo precioso para estabelecer o quanto o protagonista é a "pessoa errada" para esse tipo de enredo, algo que vai além da CIPA. Afinal, ainda que a doença influencie a personalidade do jovem, a produção faz de tudo para mostrar o quanto ele se enclausurou, sem perceber, em um mundo sem vida – desde a escolha do bege para a decoração de sua sala até a predileção por baunilha entre todos os sabores possíveis para um milk shake.

Uma situação que muda drasticamente quando ele conhece Sherry (Amber Midthunder), colega de trabalho que não demora a se tornar mais que isso. Ela literalmente arranca ele dessa redoma sem graça e o leva para provar coisas novas em territórios coloridos e até então tido como proibidos por ele.

Essa etapa do romance demonstra um cuidado não apenas do roteiro, mas também da direção de Dan Berk e Robert Olsen (Vilões). A dupla abraça truques de romances e comédias românticas para que Nate e Sherry sejam não apenas críveis, mas carismáticos. Algo que funciona graças à fofa e envolvente química de Jack Quaid e Amber Midthunder, que convencem como um novo casal mesmo com um roteiro tão simples.

É nesse contexto que um grupo de homens fortemente armados invade o banco em que o casalzinho trabalha e leva a garota como refém. Para a felicidade de quem quer ação, Nate contraria qualquer lógica e decide recuperar Sherry com as próprias mãos, partindo em uma busca implacável mesmo sem a menor ideia de como manusear uma arma ou rastrear um grupo de criminosos sanguinários.

A busca pela amada dá a Novocaine: À Prova de Dor a chance de celebrar e brincar com o gênero em que se enquadra. A produção se aproveita da estrutura que herdou de seus antecessores, mas a preenche com criatividade o suficiente para sempre pegar o espectador de guarda baixa. O que inclui o tratamento dos coadjuvantes, que escondem reviravoltas que alimentam ainda mais o suspense.

Por um lado, há um esforço notável para sempre surpreender, fazendo com que possíveis respostas desemboquem em ainda mais dúvidas. Por outro, há também a preocupação em responder naturalmente algumas das perguntas que surgem naturalmente nesse tipo de história e que poderiam prejudicar a lógica interna da trama.

Os dois lados da balança são equilibrados com uma bem-vinda dose de autoconsciência ao abrir mão de realismo para que a história avance sem se perder demais em explicações. Algo que fica claro no uso da galhofa, que permeia toda a produção e alimenta a veia cômica que dá o tom desde o início.

É uma pena que a autoconsciência pareça contaminar Novocaine até demais. Apesar da saudável noção de que é mais uma entre tantas produções do mesmo filão, o longa parece satisfeito em não ter mais ambição. A consequência é a falta de uma ousadia que faz com que o projeto finque os pés em recompensas mais garantidas em vez de buscar voos mais altos.

Felizmente, a produção acerta na ação. As cenas de pancadaria levam em conta que Nate é um cara comum que luta com o que tem em mãos. Um direcionamento que, em seus melhores momentos, faz a produção exercitar da criatividade para garante doses de imprevisibilidade. Especialmente porque a principal arma dele é a CIPA.

Novocaine se diverte ao explorar o potencial destrutivo que alguém ganharia ao perder a sensibilidade à dor em todos os embates. Por se tratar de um cara comum, sem nenhum tipo de treinamento armamentista ou de combate, Nate usa a própria condição para se sair de situações limites, das quais seriam impossíveis sair sem infligir uma dor profunda em si mesmo, algo que o instinto de preservação nos impede.

Nesses momentos, os diretores entram em equilíbrio com o que diz o roteiro e exploram tanto o "superpoder" quanto as fraquezas que o acompanham. Em contrapartida às “vantagens” de não sentir dor, há a deterioração em tempo real do corpo do protagonista, cuja representação muitas vezes beira o gore – nome dado a representações gráficas de violência e sangue. E não se engane, o alívio de saber que o personagem não sente nada daquilo não diminui em nada a angústia causada por esses momentos.

É uma pena que Dan Berk e Robert Olsen sejam competentes, mas não tenham pleno domínio da ação. Assim, parte dos combates é filmada sem muita criatividade, ganhando tração apenas quando recorrem à gastura visual. Algo que, aliás, atrapalha o projeto como um todo, especialmente no último ato, quando a narrativa passa a avançar aos solavancos antes do grande embate final.

Ainda assim, o saldo de Novocaine: À Prova de Dor é mais do que positivo. A produção explora um conceito tão simples com uma bem-vinda combinação entre carisma, violência e humor macabro. Apesar de não brilhar o suficiente para transformar Nate no novo John Wick, o longa certamente não faz feio, divertindo – e agoniando – plenamente quem quiser conferir o sabor de novos temperos em uma receita consagrada.

Com Ray Nicholson (Sorria 2), Jacob Batalon (Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa), Betty Gabriel (Corra) e Matt Walsh (Veep) no elenco, Novocaine: À Prova de Dor está em cartaz nos cinemas do Brasil

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