Em 2007, quando as primeiras notícias sobre os novos filmes de Evangelion (o chamado Rebuild) começavam a sair, Hideaki Anno, o criador da série, divulgou uma declaração que explicava suas intenções com a nova quadrilogia, como o “desejo de retratar meus sentimentos sinceros em forma de cinema”, de “combater a tendência de estagnação na indústria da animação japonesa” e também que “Evangelion é uma história que se repete.”
O último filme da série, lançado em março de 2021 no Japão e em breve disponível mundialmente pela plataforma Prime Video, Evangelion: 3.0+1.0: A Esperança (um subtítulo que perde algumas das nuances do original, mas que até faz sentido), veio para provar que a afirmação de Anno procede em vários níveis.
É um comentário sobre a natureza de Eva como franquia, mas também como narrativa, algo que já ficava claro — pelo menos o mais “claro” que a saga sabe ser — ao final da série original de 1995 assim como de sua contraparte em mangá, concluída em 2013. Evangelion é uma história que se apresenta em ciclos. A repetição é o ponto ou, mais especificamente, sair dela.
Este quarto filme se propõe a evidenciar a importância desses ciclos e criar um final verdadeiro e definitivo para a história de Shinji Ikari. E, por mais que algumas coisas fiquem confusas no meio do caminho (afinal, é Evangelion), pode acreditar: este é o fim da saga — e um grandioso, belo e ótimo desfecho.
É um tanto difícil contextualizar de que ponto da história dessa nova série o quarto filme começa. Não que o filme não tente, já que ele abre com uma muito bem-vinda recapitulação. Entretanto, pensando apenas na jornada dos personagens, o 3.0+1.0 começa com Shinji ao fim de um desses ciclos.
As três primeiras películas mostraram um Shinji eternamente em busca de um propósito, querendo ser feliz, mas toda tentativa sua dá errado. A saga descreveu uma ascensão (ao fim do primeiro até o meio do segundo filme) e duas apocalípticas quedas (os finais do segundo e do terceiro filmes).
Depois da última queda, inicia-se um novo ciclo: um catatônico e traumatizado Shinji, ao lado de Asuka e Rei, está em uma peregrinação num mundo devastado após o “Quase Terceiro Impacto” que sofreu por culpa dele mesmo. Depois de muito andar em círculos e sempre ter o mesmo resultado, Shinji decidiu que, agora, não vai fazer mais nada.
Essa busca nos traz a um dos trechos em que o filme mais brilha: os pilotos dos Evas ficaram parados no tempo, mas o mundo continuou e seguiu em frente; assim, os três encontram uma comunidade de sobreviventes na qual seus antigos colegas de classe, Touji Suzuhara e Kensuke Aida, agora adultos, vivem uma vida pacata, apesar da iminência de um próximo fim do mundo. Vários dos melhores momentos da história estão aqui, retratados de forma muito bela e delicada, com destaque para o desenvolvimento da Ayanami.
Passar cerca de uma hora vendo os pilotos de robôs gigantes aprendendo a plantar e cuidar de bebês é uma enorme quebra de expectativa do que se esperaria de um capítulo final de uma história de ficção científica pesada como Evangelion, mas uma escolha que acerta em cheio. Ao focar no que Eva tem de melhor, que é a complexidade de seus personagens e as relações entre eles, as jornadas cheias de dor com a possibilidade de um mundo sem lutas e sem Evas são intensificadas. Com uma economia narrativa invejável, o primeiro ato do filme é praticamente uma história completa, como começo, meio e fim, e personagens vivendo arcos inteiros antes mesmo de a trama começar de fato.
Ao fim desse trecho, voltando ao sci-fi da coisa, é que alguns dos problemas dessa nova versão da obra aparecem. Eles não são poucos, e não estão limitados aos elementos de ficção científica — o excesso de nudez neste capítulo, assim como de enquadramentos com câmera baixa saídos diretamente do Domingo Legal nos anos 90, com certeza é um deles. Exceto por uma cena muito interessante da Asuka nua na frente de um Shinji apático, aqui, o fanservice saiu completamente do controle e, frequentemente, é apenas gratuito.
Além disso, a própria estética do filme tem um quê estranho. O filme é lindo, veja bem. Além de herdar várias das características de enquadramento e edição de Hideaki Anno (que aqui, é apenas co-diretor — o filme é dirigido por seu colaborador Kazuya Tsurumaki), como seus cortes secos e ângulos de câmera ora em perspectiva forçada, ora chapados, ele também adota uma ampla variedade de paletas de cores para cada situação: o primeiro terço, mais idílico, é tão pacífico e belo quanto uma obra de Hayao Miyazaki; já o resto do mundo pós-apocalíptico é banhado em um vermelho sufocante e aterrador.
Entretanto, além de o filme patinar no uso de computação gráfica, em especial, um trecho no ponto zero do Segundo Impacto, com uma camada de proteção branca sem nenhuma textura, muito de sua estética sci-fi, agora em full-HD e sem limitações orçamentárias ou aquelas advindas do formato de televisão, perdeu sua qualidade mais, digamos, rústica. Agora tudo é muito mais “super high tech” — lindo, mas limpo e por vezes sem peso. Isso se reflete nos Evas, que continuam com seus belíssimos designs, mas que agora não têm praticamente nenhuma restrição e podem fazer praticamente qualquer coisa.
O resultado são cenas de ação mais próximas de um Tengen Toppa Gurren Lagann que de um Evangelion. Amo de paixão os dois, mas cada um nas suas características. Este quarto capítulo, por exemplo, abre com o Eva de Mari Makinami usando a Torre Eiffel como uma espécie de broca gigante ou lança de justa. É superdivertido, e é bom que o filme se permita esse tipo de bobagem mesmo em seu final apoteótico hiper sério, mas é um tanto absurdo demais, até para Evangelion. A personagem, aliás, é um pouco melhor explorada neste filme, mas ainda existe uma certa dificuldade de justificar sua existência.
Mas, o principal problema deste filme é a dificuldade de se compreender sua trama. É importante salientar que o funcionamento prático da trama é, de fato, algo de importância secundária; o que fica bem claro se observado que seus trechos de operação de guerra ocupam bem menos tempo de tela que o primeiro terço introspectivo e o último terço de viagem psicológica. Mais uma vez, essa é a história de Shinji Ikari e não da guerra entre WILLE e NERV. Mesmo assim, o embate entre as duas organizações e como exatamente funciona o plano de Gendo Ikari tem sua importância, e esses aspectos do filme são bem pouco explicados.
O filme tem bastante exposição, mas é uma exposição que parte do pressuposto de que você já entende metade do que está sendo dito ou de que você só aceita o blá-blá-blá pseudocientífico e se diverte (que é a minha abordagem e, eu diria, a mais saudável). Digamos apenas que, hoje, eu seria incapaz de criar um vídeo chamado “Rebuild of Evangelion: Final Explicado”.
Mas todos os termos esquisitos do filme, todos os seus “Câmara de Guf” e “Outro Impacto” e “Impacto Adicional”, tudo isso serve apenas para criar as condições dentro da trama para que seja montado o literal e metafórico (é sério) palco ideal para seu inteligentíssimo e tocante final: o há muito esperado confronto entre Shinji e seu pai Gendo. E é aqui que 3.0+1.0 chega a uma brilhante apoteose.
Invocando imagens e cenários da série original de maneira que não é apenas fanservice, mas sim integral à intenção da história, além de ser justificado pela natureza do universo da franquia. Voltando a focar nos personagens, a película retoma muitas das características dos polêmicos episódios 25 e 26 da série original, principalmente o último. Desta vez, de forma muito mais claramente intencional e, portanto, muito mais eficiente em explicitar essas intenções com o uso de toda essa metalinguagem. Até mesmo a computação gráfica sem peso, “falsa”, é usada de forma que ajuda a narrativa visual das cenas.
O filme toma o cuidado de reservar um momento para resolver cada um de seus personagens-chave, inclusive, o que pode ser até um tanto polarizador. Gendo, por exemplo, é uma escolha particularmente ousada e um acerto gigantesco, pois traça paralelos entre ele e o filho e deixa ainda mais forte a conexão entre a psique do comandante Ikari e a motivação por trás do plano de Instrumentalização Humana. Mais importante, todo o terceiro ato da história parte da conclusão do arco de personagem do Shinji, algo em construção há quase 30 anos, para então concluir a jornada do restante de seu elenco.
Super interpretando mais um pouco (algo que a metalinguagem desse final não só permite, como quase convida o espectador a fazer), o filme conclui também a nossa jornada como público e a da relação de seu criador, Hideaki Anno, com sua obra. Superado o ruído que a ficção científica e as referências ocultistas da trama criam, a conclusão funciona em uma diversidade de níveis.
O último ato de Evangelion: 3.0+1.0: A Esperança amarra todos os temas não só do Rebuild como de toda a franquia: a forma como todos criamos barreiras de ego por medo de se machucar, a necessidade de se abrir, a dificuldade de sair dos círculos viciosos nos quais nos colocamos, e principalmente, o quanto precisamos sair deles para que seja possível amadurecer.
Tudo isso, claro, envolvido numa camada de metalinguagem que sempre foi presente na série, com subtextos de comentário sobre a indústria do anime, sobre o fandom otaku e sobre o próprio Evangelion. Um final que ecoa motes da série original e também da obra-prima The End of Evangelion, mas agora, cravando com força uma conclusão.
Ao final, quando é proferida a misteriosa frase que apareceu nos trailers e pôsteres e deixou os fãs especulando antes do lançamento, “Adeus, todos os Evangelions” —traduzido nos pôsteres como “Adeus, todo o Evangelion” — tudo se encaixa, toda a intenção do filme, da quadrilogia, da franquia como um todo, fica clara. É um final que consegue ser grandioso, complicado, épico, mas também tocante, singelo e, talvez mais importante, definitivo.
Evangelion acabou. Adeus, todos os Evangelions.