O anúncio de que um mangá vai ganhar filme live-action é capaz de deixar os fãs desconfiados – e se a produção vier de Hollywood, o sentimento pode virar pavor. Com um desafio tão grande em mãos, os criadores precisam encontrar saídas criativas para que o filme honre o material base e se sustente por si próprio. Infelizmente, Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo não alcança nenhum dos dois objetivos.
A natureza da história e da mitologia de Os Cavaleiros do Zodíaco traz uma carga extra de complexidade para uma adaptação em live-action. A obra de Masami Kurumada é uma fantasia que funciona nas páginas – e nas animações –, mas exige modificações drásticas para convencer em carne e osso. Há vários jeitos de fazer esse transporte, mas o escolhido foi encaixar a saga em uma jornada típica de super-herói sem abandonar elementos do material original.
O roteiro do trio Josh Campbell, Matt Stuecken e Kiel Murray diminui o escopo da história, abrindo mão de praticamente todo seu elenco principal – e suas tramas paralelas – para focar na origem de Seiya (Mackenyu), o jovem destinado a se tornar um Cavaleiro protetor de Atena, deusa grega que reencarnou na jovem Saori (Madison Iseman) - ou Sienna, no original.
A partir dessa premissa, o futuro cavaleiro de Pégaso passa por praticamente todos os passos da famosa Jornada do Herói com direito a batidas consagradas pelo sem-fim de filmes de origens de super-heróis na última década. O tempero próprio é a mitologia herdada pelo mangá, traduzida de forma incompleta pela produção.
Por um lado, questões fundamentais para a caracterização de Seiya, como a busca pela irmã e a recusa em se render independente da situação, estão presentes. Cheio de carisma, o ator Mackenyu usa toda experiência adquirida em outros live-actions de mangás para uma composição que torna o protagonista um herói digno da atenção do público.
Um carisma que é colocado à prova constantemente graças a um texto previsível que nem se importa em esconder a natureza derivativa ao colocar o personagem em uma jornada abarrotada de clichês. O que fica claro desde as relaçoes pessoais do personagem até a trajetória em se tornar digno de vestir a famosa armadura de Pégaso.
Clichês, por si só, não são um problema. O que torna esse recurso um incômodo é a forma preguiçosa como são costumeiramente utilizados. O problema de Os Cavaleiros do Zodíaco é a tentativa de mascarar o uso desses chavões recorrendo à mitologia da franquia original, sem o desenvolvimento necessário.
Não há tratamento especial a características que tornam essa história única. Usando a gramática do cinema dos super-heróis, é possível ler praticamente todos os elementos apresentados como variações de atributos comuns a qualquer produção de Marvel, DC e afins.
Essa preguiça mina a trama de Saori, por exemplo. Apesar da personagem precisar ter mais agência do que na obra original, empurrar a ela a função de “ser tão poderoso que pode destruir o mundo” é de uma falta de criatividade que lembra o que o subgênero dos heróis tem de pior a oferecer – como a Magia de Esquadrão Suicida (2016) ou a própria Fênix Negra de X-Men: Confronto Final (2006). Pois é.
Esse é um exemplo da falta de imaginação que contamina vários dos enredos da produção ao ponto em que o espectador pode passar as quase duas horas de duração com uma grande sensação de déjà-vu. São fragilidades que comprometem o projeto e tiram a força de momentos planejados para a catarse.
Vários desses problemas estruturais são amplificados pela direção de Tomasz Baginski. O cineasta comanda o filme com uma apatia que remove qualquer impacto ou urgência, mesmo que os personagens não parem de repetir os riscos a cada cena. Até mesmo o principal trunfo do projeto, que é a ação, é apresentada com um porém.
É preciso reconhecer que as cenas de luta de Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo são empolgantes e acertam o tom. Coordenadas por Andy Cheng, veterano de produções como A Hora do Rush (1998) e Shang-Chi (2021), as pancadarias são ágeis como uma pancadaria franca, mas não perdem a plasticidade de um embate digno de mangá. Há movimentos que desafiam as leis da física, mas eles são performados com toda a energia esperada.
Filmados com clareza pela direção, que se delicia com o trabalho dos dublês, essas sequências são mutiladas pela edição. Na busca por tornar tais momentos ainda mais frenéticos e empolgantes, a montagem acaba picotando algumas das lutas, deixando a sensação de que falta algo.
De certa forma, esse sentimento resume a experiência do live-action de Os Cavaleiros do Zodíaco. Ainda que traga elementos conhecidos aos fãs antigos, a adaptação nunca os desenvolve de maneira apropriada e torna a produção um amontoado de clichês genéricos e esquecíveis.
Relativamente barato – ao custar menos da metade de um filme do Marvel Studios –, o filme pode até ser lucrativo ao ponto de atrair uma sequência, e pode ser abraçado por parte da comunidade de fãs, em nome da tosqueira. Mas, caso voltem, os cavaleiros de Atena têm a missão de ampliar o pouco que deu certo para apagar o gosto amargo deixado por um início apático.