Watchmen | Último episódio da temporada não decepcionou!

Mistérios resolvidos, arcos concluídos e gancho instigante para uma eventual sequência.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Watchmen | Último episódio da temporada não decepcionou!

Aviso: spoilers abaixo!

Mesmo sem um evento grandioso como a falsa invasão alienígena a Nova York na graphic novel, o último episódio de Watchmen não decepcionou. See How They Fly apresentou revelações importantes, retomou os temas explorados ao longo da série e fechou praticamente todos os arcos. De quebra, voltou a trazer referências em seu título — neste caso, à canção I Am the Walrus, dos Beatles que, inclusive, pôde ser ouvida no final, não em sua versão original, mas na releitura do Spooky Tooth.

Além dos trechos sobre “policiais enfileirados” e pessoas correndo “feito porcos de uma arma”, que remeteram à chuva de lulas congeladas no final (“veja como elas voam”), a letra de John Lennon inclui o verso “I am the egg man”, uma óbvia alusão ao “presente” que o Dr. Manhattan (Yahya Abdul-Mateen II) deixou para Angela (Regina King). Aliás, o ovo foi um símbolo de continuidade bastante ligado aos dois personagens, tendo marcado presença não apenas na semana anterior, durante a conversa no bar em Saigon, quando a policial pediu ao semideus que fizesse uma demonstração de poder e criasse uma vida, mas também no episódio de estreia, logo na primeira aparição da protagonista.

Como metáfora da fertilidade, o ovo também esteve relacionado a Lady Trieu (Hong Chau). Basta lembrar que esse era o principal produto na fazenda do casal sem filhos, que vendeu sua propriedade em troca de uma criança, no quarto episódio — e agora sabemos que a empresária vietnamita queria o terreno para poder resgatar a nave que trouxe Adrian Veidt (Jeremy Irons) de volta à Terra. Vale observar, no entanto, que no caso da trilionária o ovo representou um signo corrompido, uma vez sua família foi criada de modo não natural — sua filha, Bian (Jolie Hoang-Rappaport), era um clone de sua mãe (Elyse Dinh), que engravidou por inseminação artificial, com uma amostra de esperma roubada de Veidt.

É possível enxergar outro nível de conexão do episódio com a música dos Beatles, cujo título (“eu sou a morsa”) e parte das imagens evocadas pela letra tiveram como inspiração uma passagem de Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll. Nela, Tweedledee e Tweedledum recitam um poema sobre uma morsa e um carpinteiro que enganam e devoram um grupo de ostras. Alice, que inicialmente valoriza a morsa e sua tímida demonstração de pesar pelas ostras, acaba chegando à conclusão de que tanto ela quanto o carpinteiro são “muito desagradáveis”.

Essa história reflete, até certo ponto, a estrutura da temporada, que momentaneamente pintou Trieu de maneira menos negativa ao se concentrar em sua aliança com Will (Louis Gossett Jr.) contra os supremacistas brancos da Kavalaria, desde o princípio os antagonistas declarados. Todavia, o último episódio colocou ações e intenções na balança — a exemplo do ocorrido com Ozymandias nos quadrinhos —, o que consolidou de vez a posição da empresária no rol dos vilões.

Por sinal, trata-se de mais um paralelo entre pai e filha. No decorrer da série, Veidt também foi retratado com alguma simpatia, como um velho excêntrico tentando escapar da prisão. O roteiro de Nick Cuse e Damon Lindelof fechou esse arco de modo satisfatório, revelando que todo o drama em Europa, incluindo o embate com Guarda Florestal, não passou de um teatro para ex-aventureiro mascarado se manter ocupado, além de fazer uma divertida menção a um trecho da graphic novel, em que Ozymandias sugere ao Coruja que seria capaz de apanhar uma bala com as mãos. Entretanto, assim como Trieu, ele teve de arcar com as consequências de seus atos, ainda que com mais de três décadas de atraso — e foi apropriado que o acerto de contas tenha vindo, em parte, pelas mãos de Looking Glass (Tim Blake Nelson).

Levando em consideração o material extra, todos os mistérios foram esclarecidos — afinal, um memorando do diretor do FBI incluído na Peteypedia* sugere que o ex-agente Petey (Dustin Ingram), expulso da corporação, era o “Homem-Lubrificante”, pois lista entre os itens encontrados em seu escritório “um tipo de óleo de canola”. Da mesma maneira, quase todos os personagens concluíram suas jornadas. A exceção talvez fique por conta de Laurie (Jane Smart), que embora tenha conseguido encerrar o caso sob sua tutela, não obteve a devida resolução que parecia buscar com o Dr. Manhattan.

Quanto a Angela, sua trajetória amarrou os temas centrais. O apaziguamento com o avô (e, consequentemente, com o passado) representou o fim da busca por identidade e pertencimento, ao passo que a concretização do destino “profetizado” por Jon em seu primeiro encontro fechou o ciclo do amor trágico. E ainda que o corte da última cena tenha deixado a impressão de um final aberto, emulando a incerteza quanto à descoberta do diário de Rorschach nos quadrinhos, ficou implícito que a protagonista de fato recebeu os poderes do semideus. Eis o gancho para uma eventual segunda temporada.