Watchmen | Revelação do sétimo episódio foi de explodir a cabeça

Roteiro trouxe surpresas, novos mistérios e estrutura similar à de um dos capítulos da HQ

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Watchmen | Revelação do sétimo episódio foi de explodir a cabeça

[Aviso: spoilers abaixo!]

A cada semana, Watchmen continua a surpreender tanto no conteúdo quanto na forma. Desta vez, o episódio tirou seu título diretamente da história original, não do material anexo, como aconteceu no anterior. An Almost Religious Awe é uma citação do quarto capítulo da graphic novel, intitulado Relojoeiro, em um trecho em que o Dr. Manhattan recorda sua intervenção na Guerra do Vietnã e o fato de os soldados vietcongues terem se rendido a ele com um misto de terror e “reverência quase religiosa”.

Por sinal, um dos quadros da página que traz o referido texto — com o herói azul em tamanho gigantesco avançando pelas linhas inimigas e provocando explosões — foi reproduzido duas vezes durante o flashback da infância de Angela (Regina King) em Saigon: no documentário em exibição na locadora de fitas VHS e no show de marionetes na rua.

Enquanto o último episódio traçou paralelos entre as trajetórias da protagonista e de Will (Louis Gossett Jr. ), o novo fez algo semelhante, só que desta vez apontando as convergências entre ela e o ser outrora conhecido como Jon Osterman. Engenhoso, o roteiro de Stacy Osei-Kuffour e Claire Kiechel explorou os efeitos da overdose de Nostalgia em Angela — os constantes saltos entre suas próprias recordações e as de seu avô — para emular a estrutura do já mencionado capítulo da HQ. Nele, o Dr. Manhattan, que experimenta o tempo-espaço de um jeito diferente dos humanos, alterna-se entre passado e presente como se fossem simultâneos.

Mais do que simplesmente servir como gancho e criar expectativa, a apresentação não-linear dos acontecimentos tem, nestes casos, uma função narrativa bastante específica: ressaltar a repetição de determinados signos — o retrato e o relógio para Jon, a máscara e o distintivo para Angela —, que representam o tema central no desenvolvimento dos personagens — o caráter aleatório da existência para ele, a busca da identidade para ela.

No que diz respeito a Angela, reforçou-se ainda a noção de uma espécie de destino hereditário. Se ela aparentemente está fadada a seguir os passos do avô, algo semelhante aconteceu com o pai. Marcus (Anthony Hill) pode ter sido impactado negativamente pelas empreitadas de Will como vigilante mascarado — “pessoas que usam máscaras são perigosas, devemos ter medo delas”, alertou à filha —; mesmo assim, ele acabou decidindo vestir um uniforme, não muito diferente de seu pai.

Em retrospecto, essa aproximação dos arcos da protagonista e do Dr. Manhattan antecipou, de certo modo, a grande reviravolta do episódio — a de que Cal (Yahya Abdul-Mateen II ) na verdade era o ser azul disfarçado. Apesar de surpreendente, a informação está em conformidade com o estabelecido na graphic novel.

O capítulo Relojoeiro mostra que as duas mulheres que Jon Osterman amou — Janey, que ele conheceu antes de sua transformação, e, mais tarde, Laurieforam extremamente significativas em sua vida. Em ambos os casos, os relacionamentos terminaram por causa das incompatibilidades resultantes de sua nova e praticamente divina condição, o que funciona como motivação convincente para a decisão de se passar por humano para tentar viver ao lado de Angela. Além disso, o plot twist conferiu um toque cômico a um trecho do quarto episódio, em que Laurie (Jean Smart) estava falando sobre o ex-namorado e disse que ele não era “nenhum Cal”.

Outra grande revelação foi a do plano do senador Keene (James Wolk) de capturar e roubar os poderes do Dr. Manhattan. Vale observar que é provável que, a essa altura, Looking Glass (Tim Blake Nelson) tenha se infiltrado, incógnito, na Kavalaria, a julgar pela ausência da máscara de Rorschach em um dos corpos encontrados pelo agente Petey (Dustin Ingram) na casa de Wade.

No campo oposto, a descoberta de que Lady Trieu (Hong Chau) está lutando contra os supremacistas brancos não significa, necessariamente, que ela seja um dos mocinhos. Afinal, a série já provou que, a exemplo de sua fonte, não aposta na dicotomia. Até agora, a personagem agiu de forma moralmente questionável em mais de uma ocasião e deu claros sinais de megalomania. Sem falar em sua fixação por Ozymandias, expressa não somente na estátua que tem no viveiro, mas também nos nomes de seus projetos. As pílulas Nostalgia e o Relógio do Milênio remetem a duas linhas de perfume lançadas por uma das empresas de Adrian Veidt na HQ — a primeira, explorando a ideia de “um retrato idílico do passado”; a segunda, investindo em uma imagem “moderna e controversa, projetando uma visão de utopia tecnológica”.

A pergunta que fica é: quem é o pai da empresária vietnamita? Uma matéria anexada na Peteypedia uma coleção de arquivos compilados pelo agente Petey — sugere que poderia ser o falecido Edward Blake, uma vez que, durante os anos em que trabalhou para o governo norte-americano, o Comediante lutou na Guerra do Vietnã (e Trieu poderia muito bem tê-lo clonado também). Porém, a admiração quase obsessiva por Veidt poderia ser explicada por um eventual laço sanguíneo…

A propósito, o núcleo do vigilante aposentado segue cada vez mais estranho. Mesmo com toda a pompa, o julgamento deu a impressão de ter sido um grande teatro, assim como tudo o que se refere à prisão de Ozymandias — vide a piscadela da versão promotora da senhorita Crookshanks (Sara Vickers) e o fato de que até mesmo o Guarda Florestal parece ser outra cópia do sr. Phillips (Tom Mison). Se são todos clones, quem serão os modelos originais?