Thor: Amor e Trovão | Crítica

Novo filme de Taika Waititi amadurece humor de Thor: Ragnarok e é inesperadamente emotivo

Camila Sousa Publicado por Camila Sousa
Thor: Amor e Trovão | Crítica

Quando o MCU começou a ser formado em 2008, três heróis foram a base de tudo: Homem de Ferro, Capitão América e Thor. Enquanto os dois primeiros sempre tiveram um papel de liderança dentro dos Vingadores, o Deus do Trovão trilhou uma jornada própria, que só ganhou personalidade a partir de Thor: Ragnarok (2017), dirigido por Taika Waititi. Cinco anos depois, chega aos cinemas Thor: Amor e Trovão, longa que amadurece várias ideias apresentadas em Ragnarok.

Há muito do humor de Waititi na nova produção, com cenas que geram a conhecida vergonha alheia. Mas enquanto essa característica soou um pouco exagerada no longa de 2017, aqui ela aparece em momentos-chave e não se torna cansativa. É como se o cineasta tivesse refinado suas ideias para o personagem, sensação que se reflete em outros arcos envolvendo Odinson.

Como dito acima, Thor nunca teve um papel de liderança dentro do MCU, e essa sensação de deslocamento acontece dentro e fora das telas. Se por muito tempo a Marvel parecia não saber o que fazer com ele, o próprio herói começa Amor e Trovão questionando sua trajetória até ali. Afinal de contas, quem é Odinson sem as batalhas que o tornaram famoso? O personagem de Chris Hemsworth é confrontado por essa pergunta em dois momentos: quando deixa o exílio para combater Gorr, o Carniceiro dos Deuses (Christian Bale), e quando reencontra Jane Foster (Natalie Portman), sua ex-namorada, agora transformada em Poderosa Thor.

Esses dois eventos fazem o personagem olhar para si mesmo e tentar entender onde se encaixa. E, ainda que o longa não aprofunde tanto essa discussão no meio de confrontos grandiosos e visitas ao Monte Olimpo, ela é refletida em como o filme termina. Thor, finalmente, encontra uma motivação digna – um objetivo que não poderia ser mais imprevisível e, exatamente por isso, perfeito para o personagem. Se Odinson não teve a jornada tradicional dos primeiros heróis do MCU, faz sentido que seu destino seja totalmente diferente.

Essa discussão sobre propósito é retomada com outros personagens de Thor: Amor e Trovão. Valquíria (Tessa Thompson), por exemplo, se vê dividida entre as responsabilidades atuais como Rei de Nova Asgard, e quem ela costumava ser. E Jane Foster tem seu próprio “chamado à aventura” quando empunha o Mjölnir e se torna a Poderosa Thor.

O arco da personagem é um dos mais aguardados e, ainda que corrija os problemas de Jane nos outros filmes de Thor, há uma percepção constante de que Portman se sente deslocada quando está na pele da heroína. Já quando está em cena como Jane, a atriz entrega boas cenas, que mostram o cuidado que Taika Waititi teve ao decidir qual seria a história para trazer a personagem de volta.

Se o tema propósito de vida permeia a história de Thor: Amor e Trovão, o outro lado dessa moeda é justamente a fé. Ao ter um personagem chamado “carniceiro dos deuses” como grande vilão, o longa fala da relação dos personagens com suas crenças, e quando elas atendem ou não as expectativas. Nesse sentido, a história de Gorr é bem construída, porque explica quem ele era no passado e como se tornou alguém com ódio de todos os deuses. Curiosamente, essa falta de fé é espelhada na jornada do próprio Thor, que se vê diante daqueles que admira e percebe que eles não são tão legais quanto ele imaginava.

Por essa perspectiva, Thor: Amor e Trovão tinha tudo para ser um filme pessimista em relação às crenças de um modo geral. Porém, enquanto Gorr representa o lado negativo de uma doutrinação cega, há um núcleo jovem que mostra a importância de acreditar em algo – inclusive em si mesmo. Em uma das sequências mais fofas e improváveis do MCU, uma nova geração de personagens se empodera por meio de sua fé e mostra como a esperança em algo melhor é uma das armas mais importantes que existem.

Em sua essência, Thor: Amor e Trovão tem todos os elementos característicos do Universo Cinematográfico da Marvel. Há cenas de ação dignas de grandes páginas dos quadrinhos, brincadeiras com os personagens, referências por todos os lados e uma piscadela para os próximos planos do estúdio.

Porém, no meio de tudo isso, Taika Waititi construiu uma história com significado, incluindo uma mensagem que vai além de teorias para o futuro nos cinemas e easter-eggs. Isso prova como a Marvel (e os fãs) só têm a ganhar quando o estúdio equilibra com sucesso os planos de um universo maior, com um trabalho autoral e minucioso.

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