Shazam! é uma franquia marcada por dualidade. Fazendo jus ao protagonista, que se desdobra entre um garoto-problema e um herói adulto com poderes mágicos, os filmes se dividem entre a aventura e a comédia familiar. Novo lançamento da saga, Shazam! Fúria dos Deuses diverte, mas não empolga, justamente por acertar um quesito e desperdiçar o outro.
O filme começa mostrando o cotidiano de Billy Batson (Asher Angel) anos após ganhar e distribuir seus poderes mágicos. O garoto passa os dias lutando para manter a “família Shazam” unida e focada em salvar o dia, o que não é fácil, já que cada um está em um estágio diferente da vida.
Esse enredo se mostra uma forma inteligente de dar o próximo passo na jornada de um herói jovem. Ao invés de repetir as batidas do filme anterior, Fúria dos Deuses aposta em uma comédia de amadurecimento – ou coming of age, em inglês –, o que traz sabor único à produção e aproveita sua principal força: o carisma do núcleo familiar.
Para o roteiro, o filme conta com o retorno de Henry Gayden e a chegada de Chris Morgan, conhecido por escrever vários filmes da franquia Velozes e Furiosos. A dupla cria uma dinâmica envolvente que cobre diferentes estágios do crescimento, desde a inocência da infância de Darla (Faithe Herman) e Eugene (Ian Chen), passando pela chegada dos hormônios em Freddy (Jack Dylan Grazer) e Pedro (D.J. Cotrona), até os temores do início da vida adulta com Mary (Grace Caroline Currey).
Essa diversidade de perspectivas e interesses enriquece a jornada do amadurecimento de Billy Batson enquanto dá a seus irmãos personalidades, gostos e objetivos bem definidos. Uma característica que se torna ainda mais divertida quando essa família desajustada usa seus poderes, dando ao fator “super-herói” um caráter mais pessoal que torna a equipe cativante – o que justifica a escolha de um roteirista de Velozes & Furiosos para o projeto.
Além de Billy, o destaque fica para Freddy e Mary, os mais velhos e donos de algumas das trocas mais ricas da produção. O primeiro por viver o próprio drama adolescente entre paqueras e bullying na escola, e a segunda pelos dilemas de se tornar adulta. Relações que encontram uma perspectiva nova até para o batido clichê do “herói órfão”.
O núcleo jovem brilha especialmente no quesito comédia ao esbanjar uma leveza e um timing cômico de fazer inveja às suas contrapartes adultas, que em grande parte falham em interpretar crianças nos corpos de adultos. O mesmo pode ser dito de Djimon Hounsou, que encontra uma voz própria para o Mago Shazam e protagoniza um dos momentos mais hilários do DCEU sem perder de vista a importância do personagem.
É uma pena que o lado super-heróico não receba o mesmo capricho. A missão da vez coloca a família Shazam contra Hespera (Helen Mirren), Calipso (Lucy Liu) e Anthea (Rachel Zegler), filhas do deus grego Atlas. O trio chega para recuperar a magia das divindades, mesmo que isso coloque os heróis e o mundo em risco.
Em primeiro lugar, essa trama chama atenção por repetir a batida dinâmica de invasão à Terra. Um clichê que poderia ser contornado com um desenrolar criativo, que seria possível graças ao contexto mágico que une heróis e vilões, além do caráter pessoal da missão para as vilãs. Mas o que se segue é um desperdício de ambos os aspectos.
Os embates entre heróis e vilãs são batidos ao ponto de reprisar a mesma dinâmica do início ao fim. Não é exagero dizer que a maior parte das lutas é vagarosa e pouco urgente ao ponto de cansar. Isso afeta até mesmo a grandiosa batalha final, que apesar de caprichada e divertida, chega tão atrasada que pode não empolgar quem não tiver comprado a aventura até ali.
O descaso com a ação é tão grande que os momentos mais memoráveis das antagonistas estão pouco ligados a esse quesito. Ao fim da sessão é mais fácil se lembrar de cenas cômicas de Helen Mirren ou do fofo romance adolescente em que Rachel Zegler se envolve do que de ameaças ou desafios propostos por elas.
Essa dificuldade em tornar o lado heróico empolgante frustra especialmente pelas possibilidades contidas em Shazam!. Com ligações à mitologia, o herói e seu universo poderiam facilmente trafegar por caminhos únicos. Uma tese trazida pelo próprio Fúria dos Deuses, que ensaia um mergulho no lado mágico desses personagens graças a um orçamento ligeiramente maior que o do filme anterior.
Além da comédia, o filme de David F. Sandberg encanta ao capturar o deslumbramento de cinco adolescentes em contato com universos dignos de contos de fadas. O problema é que esse encanto fica pela metade porque o encontro pende mais para o mundano. O que acaba roubando a magia de quimeras, ciclopes e dragões ao prendê-los em um cenário tão cinzento e monótono quanto uma cidade grande do mundo real.
E veja bem, proteger a Terra de ameaças externas é uma convenção fundamental para os super-heróis. Shazam! 2 não é o primeiro e sequer será o último filme a recorrer a esse tipo de história – basta lembrar que o DCEU conta com vilões como Zod, Ares, Darkseid e até Starro. Porém, com uma infinidade de mundos fantásticos a uma porta de distância, é difícil não receber essa repetição como uma oportunidade perdida.
Mas, para ser justo, o filme não é de todo ruim. Ainda que o entorno seja um emaranhado de clichês sem muita empolgação, a produção tem como centro uma das famílias mais divertidas e carismáticas do multiverso dos super-heróis. Um grupo que certamente merece desafios melhores, mas que diverte e encanta o suficiente para justificar o novo lançamento da DC nos cinemas.