RRR: Revolta, Rebelião, Revolução | Crítica

Épico indiano mistura ação, história e humor com trama eletrizante e divertida fora do circuito Hollywoodiano

Pedro Siqueira Publicado por Pedro Siqueira
RRR: Revolta, Rebelião, Revolução | Crítica

É bem possível que muitos torçam o nariz para RRR: Revolta, Rebelião, Revolução, épico de ação indiano disponível na Netflix, por conta da duração. Com 3 horas e 5 minutos, o filme é mais longo que Vingadores: Ultimato (2019), Batman (2022) e outras grandes produções às quais geralmente associamos o longo tempo.

Mas não se engane. A trama de RRR é tão frenética e biruta, misturando ação, comédia e história, que a produção se destaca justamente por fazer o espectador pensar o que mais poderiam inventar para colocar na tela. 

Ambientado na Índia dos anos 1920, em plenos anos de chumbo da colonização britânica, o filme apresenta a história de Komaram Bheem (Jr. NTR) e Alluri Sitarama Raju (Ram Charam). O primeiro é um líder tribal que parte em missão de resgate, quando uma garota de seu povo é sequestrada por membros da elite inglesa. Já Raju é um policial implacável, capaz de enfrentar o que for em busca de seu objetivo, ainda que seja preterido por seus superiores brancos e visto como traidor por seu próprio povo.

De início, a trama joga os dois em rota de colisão, já que Raju é designado para capturar Bheem, ainda que ninguém saiba sequer o rosto do guardião. Essa confusão, inclusive, rende a dinâmica mais improvável e divertida do filme, já que os dois viram amigos, sem saber a real identidade do outro. Tal busca, movida pela tensão constante de quando um descobrirá a verdade sobre o outro, é o mote para o que talvez sejam as sequências de ação mais despirocadas de 2022. E no melhor sentido possível.

Basta dizer que, só na primeira metade do filme, vemos uma tumultuada cena de perseguição a pé com milhares de figurantes (todos reais, um alívio em tempos de CGI dominante), um homem trocar sopapos com um tigre e o resgate alucinante de uma criança em um lago em chamas.

RRR não dá descanso e evita o pecado de muitas produções do gênero, ao não investir em câmeras tremidas ou coisas do tipo. A direção eficaz de S. S. Rajamouli apresenta um domínio de cena que nos permite aproveitar toda a ação e ainda entender tudo que se desenrola na tela. Mérito, também, da coreografia.

O filme brilha como uma clara homenagem aos filmes de brucutus dos anos 1980, e até de produções mais recentes, como a série John Wick. Mas, se nas produções da época, o poderio ocidental era representado na figura do homem fortão que resolvia todas as broncas sozinho, RRR vira a mesa com um tempero anticolonialista que chega por um detalhe importante.

Bheem, descobrimos, é baseado no líder revolucionário de mesmo nome, que lutou pela independência indiana durante a época. É com essa visão revisionista que entende-se que, apesar de toda a porradaria divertida, o longa tem sim um subtexto político importante.

Já os britânicos são retratados como caricaturas. De soldados de campo, até o poderoso governador Scott Buxton (Ray Stevenson), com sua esposa Catherine (Alison Doody, de Indiana Jones e a Última Cruzada), todos exibem a empáfia do colonizador. O que para eles é sinal de força, vira piada para a plateia.

Clichês desse tipo podem soar forçados em diversas produções de ação. Mas em RRR, conseguimos perdoar o uso de tais elementos,  já que eles são propositalmente exagerados. Inclua nisso os números musicais, típicos nas produções indianas.

São bregas. Até a raiz. Mas servem à trama não só como ferramenta narrativa (uma das sequências tem como pivô exatamente uma batalha de dança), como também como uma extrapolação de todo o absurdo que já está na tela. As letras, inclusive, acompanham as cenas, com frases como: “Água e fogo se encontram. O que virá de tal confronto? Se acabará em derramamento de sangue, ninguém sabe.”

Uma dose de boa vontade também pode ser oferecida ao roteiro, que por vezes oferece soluções convenientes até demais para os problemas dos heróis. A trama emenda as cenas de ação com história de resgate que, mesmo divertida, não oferece nada que já não tenhamos visto em dezenas de outros filmes.

Mas há muito mérito na dupla NTR e Charam, que sustenta o “bromance” inusitado entre os dois antagonistas de forma tão crível, ao ponto de temermos o momento em que a relação será abalada.

O resultado final é um espetáculo visual exagerado, que não poupa nem o já manjado uso de câmera lenta ou trilhas imponentes para destacar quando uma sequência deve ser épica. Um blockbuster, no melhor sentido da palavra. Perfeito para arrasar quarteirões e retificar que há todo um mundo interessantíssimo fora de Hollywood, a um clique de distância.

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