Quarto episódio de Fundação reflete sobre o papel do indivíduo e suas escolhas

A guardiã Salvor e o jovem Alvorada se destacam na trama; última cena indica volta ao passado na próxima semana

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Quarto episódio de Fundação reflete sobre o papel do indivíduo e suas escolhas

A força do indivíduo é o tema que amarra o quarto episódio de Fundação. O título, Bárbaros no Portão, faz uma referência histórica: o papel central das invasões bárbaras no colapso de Roma, no século 5 EC, é um dos argumentos defendidos pelo acadêmico inglês Edward Gibbon (1737-1794) em Declínio e Queda do Império Romano.

A obra em seis volumes, publicada originalmente entre 1776 e 1789, se tornou um clássico da historiografia, e foi uma das inspirações para Isaac Asimov (1920-1992) criar a narrativa principal na coleção de livros que a série da Apple TV+ adapta. São evidentes os paralelos entre seu fictício Império Galáctico e aquele da vida real, governado por César Augusto e sucessores no Ocidente.

[Atenção: spoilers do quarto episódio a seguir!]

No contexto do episódio, a referência do título é mais direta: os bárbaros são os anacreonianos que chegam a Terminus e capturam Salvor Hardin (Leah Harvey). Inicialmente fingindo ser saqueadores, eles logo mostram ser um grupo organizado, com um plano definido: tomar a torre da Fundação e roubar o módulo de navegação da nave. Para isso, precisam que a guardiã os ajude a passar pela cerca de energia que protege o prédio.

Salvor consegue ludibriar seus captores e se libertar, levando a chefe do bando como prisioneira. Durante o interrogatório, a guardiã descobre que, mais do que uma vingativa sobrevivente do ataque do Império décadas antes, Phara (Kubbra Sait) é a Grã Arqueira de Anacreon, descendente direta de um dos líderes de seu povo. Nesse ínterim, os demais anacreonianos revelam estar em número maior e mais armados, dando início a um cerco à cidade.

Enquanto Salvor tentar desvendar quais são, de fato, as intenções dos invasores, a iminência de uma crise diplomática preocupa a cúpula da Fundação, que passa a questionar as atitudes da guardiã, fazendo questão de lembrá-la de que é uma pária, um “ponto fora da curva” não previsto nos cálculos feitos por Hari Seldon (Jared Harris).

É nesse aspecto que o tema narrativo se torna mais perceptível. O modelo criado pelo matemático usando a psico-história é capaz de antecipar com precisão o futuro de grandes populações. Porém, por seu caráter errático, as ações individuais fogem do escopo e têm o potencial de afetar o cenário.

Salvor personifica o conceito ao se diferenciar de seus pares de maneira evidente: ela tem visões misteriosas, aparentes dons de clarividência e uma ligação inexplicável com o Cofre. No entanto, não é preciso ter poderes especiais para assumir um papel único. Phara é um exemplo de indivíduo que se destaca da massa de bárbaros — em determinado momento, ela inclusive rejeita o rótulo depreciativo, “uma calúnia conveniente para quem não é como você”.

Os acontecimentos em Trantor, capital do Império, giram em torno da mesma ideia. Para isso, o roteiro, assinado por Lauren Bello, se concentra em Alvorada (Cassian Bilton). Além do óbvio descompasso com os irmãos (algo ressaltado nas sequências na sala do trono e na mesa de jantar, que mostram suas falas, gestos e até raciocínios sempre atrasados, fora de sintonia), o adolescente enfrenta algum tipo de conflito existencial, que o leva a se jogar do alto de uma torre — ele sai praticamente ileso graças à aura, uma espécie de campo de força pessoal.

Quaisquer que sejam os motivos de seus problemas, porém, eles são momentaneamente deixados de lado por conta de seu interesse pela plebeia Azura (Amy Tyger), a botânica que cuida dos jardins do palácio e que testemunha, sem querer, a frustrada tentativa de suicídio do jovem imperador. Alvorada pede, então, que o chefe de segurança imperial investigue a garota e passa, ele próprio, a segui-la obsessivamente.

As particularidades de cada clone também são retratados no crescente embate entre Dia (Lee Pace) e Crepúsculo (Terrence Mann), especialmente no que se refere às previsões de Hari. Enquanto o idoso trata o finado matemático desdenhosamente como um “charlatão”, um “fantasma”, seu irmão se mostra cada vez mais inquieto com o que entende serem sinais de confirmação do vaticínio sobre a queda do Império.

Por fim, individualidade também está na raiz de uma ameaça emergente: o conclave para escolher a próxima líder do Luminismo, uma das religiões mais populares da galáxia. A eleição pode acabar levando ao poder a defensora de uma antiga doutrina que crê no caráter único da alma — o que implica na conclusão de que os clones não podem ter uma alma e, portanto, coloca em xeque a própria autoridade imperial.

A última cena, com Gaal Dornick (Lou Llobell) flutuando à deriva no espaço, em sua cápsula de fuga, em direção ao que parece ser uma nave, indica que o próximo episódio fará novo salto temporal: desta vez, de volta ao passado, para provavelmente mostrar o destino dela, de Hari e Raych (Alfred Enoch).


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