Pânico | Crítica

Quinto filme celebra e expande legado de um dos maiores patrimônios do horror slasher

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Pânico | Crítica

Com a combinação perfeita de um texto afiado, uma direção brilhante e uma época propícia, o primeiro Pânico (1996) mudou os rumos do horror na década de 1990. Criando um legado instantâneo, o filme se popularizou rapidamente e ganhou sequências, derivados e até paródias. Vinte cinco anos depois, a franquia chega ao quinto longa em Pânico (2022), que aproveita a ótica de fãs para homenagear, expandir e até alfinetar um dos maiores patrimônios do horror slasher.

A história acompanha um grupo de amigos da cidade de Woodsboro sendo perseguido por um assassino que precisa descobrir quem entre eles é o matador antes que seja tarde demais. Essa premissa, repetida em todos os filmes até aqui, traz como primeiro diferencial a escolha dessas mentes criativas por trás do projeto, já que pela primeira vez um filme da saga não conta com a direção do mestre Wes Craven, além de ser a segunda sem o texto de Kevin Williamson, roteirista original que praticamente deu o tom do “quem matou?” sangrento e metalinguístico que a franquia se tornou.

Com um time de fãs assumidos formado pelos diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, e pelos roteiristas James Vanderbilt e Guy Busick, Pânico promove uma verdadeira celebração à obra original. Seja em detalhes sutis ou dedicando momentos inteiros à reverência, a produção reflete esse esmero para celebrar algo que fez parte também de sua formação cinematográfica – os próprios diretores já tinham deixado bem clara essa influência no elogiado Casamento Sangrento (2019).

Mas sabendo que muito cuidado tornaria o produto insosso e até injustificado, os criadores também se empenharam em trazer um ar fresco para os novos eventos. Conscientes de que Pânico, assim como os filmes de terror, têm sua própria estrutura e lista de regras, o time busca constantemente adicionar novos ingredientes a uma receita que faz sucesso há mais de duas décadas.

Primeira escolha do estúdio para substituir Wes Craven, Bettinelli-Olpin e Gillett trazem para o jogo uma direção inspirada que estabelece com calma cada cenário antes de investir gradualmente em enquadramentos claustrofóbicos que amplificam a angústia de cada ataque. Investidas essas que dão a Ghostface uma aura ameaçadora poucas vezes vista nos filmes anteriores, surgindo quase como uma força da natureza. Ênfase no quase, já que ao contrário de Mychael Myers (Halloween) e Jason Voorhees (Sexta-Feira 13), ele segue estabanado e vulnerável, mas aqui surge mais ameaçador do que nunca.

Essa aura ameaçadora do assassino ajuda a tornar o mistério ainda mais urgente. Com uma condução provocativa, o enredo tem um claro foco em desafiar o espectador a tentar resolver o mistério conforme ele se desenrola. É imensa a quantidade de informações e dicas que podem se transformar em pistas ou simplesmente apontar para o caminho errado, criando uma crescente de suspense que sustenta com louvor.

Em parte, a força do enigma se deve também ao trabalho do elenco. De um lado há os novatos, que se mostram cativantes o suficiente para ficar à altura do desafio de trazer novos ares a Pânico. Se tratando de personagens com ligações a figuras já conhecidas deste universo, chega a ser impressionante o nível de identidade que personagens como Sam (Melissa Barrera), Tara (Jenna Ortega), Richie (Jack Quaid) e Mindy (Jasmin Savoy Brown) ganham com o tempo disponível – um espaço reduzido que infelizmente prejudica outros membros do grupo.

Um dos grandes méritos desse núcleo está em quão bem ele funciona sem a presença do trio clássico composto pela grande final girl Sidney (Neve Campbell), a repórter Gale (Courtney Cox) e o policial Dewey (David Arquette). O trio é adicionado aos poucos e sem a menor pressa, mostrando uma coragem inédita na franquia de contar uma história que não orbita em torno deles. Isso não significa que seus retornos sejam desperdiçados, já que os diretores sabem exatamente que tratamento dar a figuras tão icônicas.

Esse tom de homenagem inclusive é levado para a outra característica que tornou a saga tão famosa: a metalinguagem. Como era de se esperar, os comentários sobre o cinema de horror como um todo estão de volta, fazendo chover citações a filmes clássicos, atores famosos e especialmente aos clichês utilizados à exaustão.

Porém, mais do que simplesmente utilizar essa ferramenta em pontos específicos ou de respiro, o texto de Vanderbilt e Busick metralha referências a torto e a direito de forma a construir um argumento maior dentro do filme, que aponta suas facas não apenas para o gênero do terror, como dos próprios fãs. Com cutucadas pertinentes e pouco sutis, o texto traz um peso quase reflexivo.

Se no primeiro Pânico nós rimos de Randy (Jamie Kennedy) por repetir um erro estúpido que ele próprio estava criticando, o novo nos convida a rir de nós mesmos e do que a cultura de fã – seja de terror ou de qualquer outro gênero – se tornou. Uma crítica que poderia soar hipócrita vinda de uma produção tocada por fãs, mas é justamente esta ótica que valoriza o lado crítico, que chega muito mais sincero e menos acusador.

É uma pena que mesmo empenhado, o novo Pânico não escape dos limites já impostos à franquia. Apesar de todo o comentário atualizado para o momento atual do cinema de horror e de adicionar ideias novas à franquia, o texto acaba sendo menos esperto do que esperava e repete pontos já abordados anteriormente.

Trazer à mesa um produto com ideias completamente inéditas no quinto filme de uma saga parece uma tarefa quase impossível, mas passar por lugares-comuns após evitar tantas armadilhas parece menos um risco calculado e mais uma traição ao que foi se construindo. Não chega a tirar o brilho da obra, que se torna marcante à própria maneira, mas impede que o resultado seja impecável.

Ainda assim, Pânico faz um retorno triunfal de dar inveja a muitas obras clássicas cujos retornos se justificam apenas na busca pelo lucro fácil encontrado na exploração de uma franquia. Com uma bem-vinda combinação de respeito ao original e vontade de somar a um legado tão celebrado, a produção diverte, assusta e deixa as portas de Woodsboro aberta para novas visitas.


O DVD do clássico filme de 1996 está disponível. Caso adquira, o Jovem Nerd pode receber comissão.

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