Homem-Aranha no Aranhaverso | Crítica

Com animação extravagante e narrativa frenética, o filme já é um dos melhores do personagem

João Abbade Publicado por João Abbade
Homem-Aranha no Aranhaverso | Crítica

Na última década, tivemos três sagas do Homem-Aranha nos cinemas contando a mesma história de maneiras levemente diferentes. Nesse cenário, é até estranho lembrar que Homem-Aranha no Aranhaverso é a quarta versão do herói neste curto período de tempo. Isso porque Aranhaverso é tão diferente e cativante que fica difícil colocá-lo na mesma caixa que os outros filmes do personagem.

E isso não se deve unicamente ao fato de ser uma animação. O roteiro traz um humor ao universo Aranha e uma narrativa frenética, que não desacelera em nenhum momento. Estes pontos transformam a experiência de assistir a “mais um filme do Homem-Aranha” em algo incrivelmente revigorante neste mercado já saturado de super-heróis.

Phil Lord e Chris Miller entendem muito bem o universo de animação e têm uma extensa experiência na área (Aventura Lego e Tá Chovendo Hambúrguer são alguns exemplos). Eles conseguem dosar perfeitamente o desenvolvimento da história e a criação de um universo próprio, mesmo em um longa com tantos personagens para apresentar. A narrativa é trabalhada de uma forma ágil, que harmoniza a leveza do humor com uma velocidade surpreendente na montagem dos planos.

Muitas interferências inusitadas dão dinamismo aos acontecimentos: cortes rápidos mudam cenários, personagens narram trechos em primeira pessoa, balões de quadrinhos pipocam na tela. Descrevendo assim pode soar como uma loucura completa, mas a direção do trio Peter Ramsey, Bob Persichetti e Rodney Rothman usa o melhor da linguagem de animação para fisgar e surpreender o espectador.

Pode ser óbvio pra quem já viu qualquer trailer do filme, mas, de fato, o visual é a parte mais impressionante da obra. Não só pela animação primorosa que mistura computação gráfica com efeitos mais tradicionais de HQ, como os Pontos Ben-Day — a técnica de colorir painéis com pontos de quatro cores sobrepostos.

No lado direito é possível ver como os pontos Ben-Day são utilizados

O estilo muda levemente com cada um dos seis Heróis-Aranha que estrelam o filme: Peni Parker tem características de anime (simulação do 2D e olhos grandes); o Aranha Noir tem um visual inspirado em HQs dos anos 1930 (preto e branco e com sombras mais “rabiscadas”). Mesmo com essa salada de visuais, os estilos mesclam de forma coesa nesse mundo multicolorido que é recheado de intervenções visuais divertidas. Além disso, cada um deles tem seu próprio estilo e humor. Algumas piadas do Porco-Aranha lembram o universo Looney Tunes, enquanto a Gwen tem uma veia mais sarcástica, por exemplo.

Os vilões também se destacam e os poderes de cada um são bem valorizados nos ótimos visuais das batalhas — que trazem inserções psicodélicas. Alguns dos vilões tem relações pessoais com os protagonistas e estes são os mais interessantes e bem desenvolvidos.

Quem conhece as histórias do teioso sabe que elas sempre envolvem uma relação familiar de mentor e aprendiz. Esse é um dos temas centrais do filme em diversas esferas. É enriquecedor para o desenvolvimento de personagem acompanhar Peter falhar como mentor, Miles ter problemas de se conectar com seu pai e também um embate específico entre um protagonista e um antagonista que tem um certo parentesco (quem conhece o rol de vilões do Aranha vai saber!)

Homem-Aranha no Aranhaverso não é nenhuma reinvenção da roda e tem um roteiro calcado inteiramente no humor, sem ir mais a fundo no drama dos personagens. Ainda sim, é um longa que entende bem os personagens e a linguagem da animação e se torna um dos filmes mais divertidos e prazerosos de se assistir lançados neste ano.