Capitão América: Guerra Civil | Crítica com Spoilers

As consequências do filme para o universo

Guilherme Jacobs Publicado por Guilherme Jacobs
Capitão América: Guerra Civil | Crítica com Spoilers

Esse texto contém spoilers de Capitão América: Guerra Civil. Você foi avisado.

Vingadores: A Era de Ultron é um filme no qual toda a humanidade está ameaçada. Nossa raça pode entrar em extinção caso o vilão titular consiga realizar seu plano. Mas apesar disso tudo, não há um sentimento de urgência, não há peso no roteiro. Você se diverte, porque o Joss Whedon é um mestre em fazer qualquer pessoa se divertir (assistam Firefly), mas fica por aí. Esse é um problema comum nos filmes da Marvel, como os dois do Thor, o segundo e terceiro Homem de Ferro nos mostram bem, e é por isso que algumas pessoas se sentem cansadas da repetitividade do estúdio, de como seus longas são previsíveis e até semelhantes.

Claro que há excessões, e nem todo mundo precisa de peso ou urgência, há filmes dentro do estilo Marvel que são ótimos – Homem de Ferro, Vingadores, Guardiões da Galáxia – mas de vez em quando é legal fugir do padrão que já é esperado da produtora, fazer a audiência sentir que há algo em jogo. O Soldado Invernal fez isso muito bem, graças aos diretores Joe e Anthony Russo e aos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely. Mas agora, esse quarteto se superou e Capitão América: Guerra Civil é o filme que justifica totalmente a existência do universo compartilhado no cinema. Ele faz uso excelente da continuidade que foi construída nos últimos anos e traz consequências grandes para os personagens envolvidos no conflito.

Hoje vamos explorar as decisões narrativas feitas no filme, se funcionaram ou não, como elas se encaixam com o que veio antes e o que elas significam para o futuro.

O Lado Bom da Continuidade

Vamos ser honestos: é legal ver os Vingadores juntos, mas a união deles normalmente acontece só pra vermos eles lutando em equipe ou trocando piadas um com o outro. E isso não é algo necessariamente ruim, pelo contrário, mas, eventualmente, você começa a esperar “algo mais”. Afinal, ninguém gosta de um mágico que só tem um truque. Guerra Civil é esse “algo mais.” É um filme que só é possível porque nós conhecemos Tony Stark, Steve Rogers, Natasha Romanoff, Clint Barton e Bucky Barnes. Nós vimos como eles mudaram ao longo dos anos, sabemos suas motivações e fraquezas, e vê-los brigando vai além de “heróis vs heróis é divertido.” Pela primeira vez, o universo compartilhado foi justificado num nível profundo de narrativa e essa é, de longe, a melhor história da Marvel nos cinemas até agora.

Pra mim, a morte do Capitão América neste filme era algo quase certa. Eu estava pronto para ver Bucky tomando o escudo na última cena, mas o que Markus e McFeely fizeram no roteiro foi muito melhor. A confiança dos Vingadores em seus colegas, e a do mundo, em relação aos Vingadores, foi completamente destruída. Isso tem um peso maior do que mortes. No fim do filme, os únicos membros da equipe que não estão sendo caçados mundialmente como criminosos são Homem de Ferro e Visão. O resto, por culta de Tony, foi parar numa prisão no meio do oceano. Claro que eles escapam, mas não muda o fato de que eles se sentem traídos e abandonados pelas pessoas em quem confiavam.

Eu gosto muito de que a forma como o lado de Tony trata Wanda gera raiva no Capitão e em seus colegas. Ela tem 20 anos, é jovem, passou por torturas pesadas, perdeu o irmão e ainda está aprendendo a controlar seus poderes. Mas ela tem o coração no lugar certo, e por isso é tão devastador vê-la causando a mortes de inocentes, mesmo sem querer, durante a caçada ao Ossos Cruzados, que dá início ao filme. Depois disso, o lado pró-registro passa a tratar a Feiticeira Escarlate como uma arma de destruição em massa. É esse tipo de traição que faz com que essa história seja tão triste no ponto de vista dos heróis.

Guerra Civil Critica Spoilers Pantera Negra

Mas apesar de serem claramente os idiotas da parada, os Vingadores que assinam o Tratado de Sokovia têm argumentos muito mais claros e convincentes do que nos quadrinhos, onde eles eram simplesmente arrogantes. Rhodes é militar, então não é surpresa ver sua atitude, o Visão tem sempre o fim da humanidade em mente e acha que aquilo pode controlar as ações dos humanos. E Tony? Tony sofreu com a última gota d’água. Depois de levar uma bomba nuclear através de um buraco de minhoca, passar por estresse pós-traumático e ver uma criação sua quase causar o fim do mundo, o Homem de Ferro se vê sem opções. Ele acredita em supervisão, e genuinamente acredita que está fazendo o que é melhor pra humanidade, e nós entendemos ele.

A cena com a mãe de um jovem que morreu em Sokovia funciona de forma excelente, e vemos o terror nos olhos de Robert Downey Jr. e toda a culpa que carrega. Ele ainda está errado ao propor que a equipe assine o Tratado, contudo, porque é exatamente como Steve fala: aquele documento apenas transfere a culpa para que os Vingadores possam ficar sossegados, quando o correto é que o time tome responsabilidade pelas suas ações, sejam elas boas ou ruins. Tony, por sua vez, quer supervisão, para que alguém receba a culpa por seus atos.

Além desta briga entre responsabilidade e supervisão, há um tema mais central no filme: vingança. O Barão Zemo é um personagem complicado, já que suas verdadeiras motivações ficam escondidas até os minutos finais, mas eu fiquei muito feliz em ver que seu objetivo era simplesmente ferrar com os Vingadores, porque eles causaram a morte de pessoas que ele ama – e não conquistar o mundo ou fazer um exército de super-soldados. Ainda é um pouco forçado, mas ele não ligava para morrer ou ser preso, foi dominado completamente pelo desejo por vingança. O mesmo acontece com Tony depois que ele descobre algo que nós já sabíamos desde Soldado Invernal: Bucky foi o responsável por matar seus pais (lembra quando a HIDRA mostra os alvos do agente, e vemos Nick Fury e Howard Stark entre os mortos?). Esse desejo também toma conta de T’challa depois que seu pai é morto na ONU. Mas quando o Pantera Negra vê qual era o propósito central do vilão, entende onde tinha caído. Talvez a forma como Wakanda tem se comportado precise mudar, talvez ele precise mudar.

Eu esperava que o Homem-Aranha fosse o centro moral do conflito – vamos chegar nele já, já – mas isso acaba sendo papel do Pantera, e Chadwick Boseman faz um trabalho maravilhoso. Eu mal posso esperar para ver o que Ryan Coogler (Creed) vai fazer com o personagem em seu filme solo. Ele percebe o que Steve já sabia: que as pessoas estão cegas com o desejo de culpar alguém pelas desgraças do mundo. É por isso que o Capitão está na defensiva durante toda a guerra, tentando salvar seu amigo e garantir que ninguém seja punido sem um julgamento correto. Ele entra na briga não porque quer provar que está certo, mas porque ainda prefere ver justiça sendo feita antes de qualquer outra coisa. Esse é o mesmo personagem que falou pra Nick Fury que a punição só deve vir depois do crime, e que vem de um tempo onde a divisão entre bem e mal era bem mais clara.

Algumas pessoas vão dizer que Guerra Civil é uma história dos Vingadores antes de ser uma história Cap, e apesar delas não estarem erradas, essa é uma história liderada pelo Capitão, um arco que foca mais nele do que nos outros. Se ele não tomasse a decisão de se plantar no chão como uma árvore mesmo quando todo o mundo diz para se mover – algo que Sharon Carter fala em um discurso tirado letra por letra dos quadrinhos – então o filme teria se transformado num combate sem fim e sem sentido, indo contra todo o desenvolvimento do personagem até agora. Guerra Civil funciona perfeitamente como um capítulo final para a trilogia do Capitão América, concluindo até arcos que começaram lá trás em O Primeiro Vingador.

Guerra Civil Critica Spoilers Homem-Aranha

“Vocês já viram aquele filme velho, o Império Contra-Ataca?”

E então precisamos falar do personagem que – vamos ser honestos – era o que todos queriam ver. Quando a palavra “QUEENS” apareceu na tela, eu já tinha começado a rir. Era um contraste enorme em relação a Viena, Budapeste, Londres e outros locais no qual o filme se passa. E então entramos no apartamento da família Parker e tudo funciona como mágica. Os atores que testaram para o papel de Peter tiveram que improvisar com o Robert Downey Jr. para conseguir a posição, e aqui fica clara a razão pela qual Holland foi escolhido. Ele está no mesmo nível que RDJ, não se sente amedrontado e participa com prazer da interação entre os dois. As sacadas são ótimas, o humor é de ponta, e eu mal posso esperar para ver Tony Stark em Spider-Man: Homecoming. Eu espero que o filme todo seja ele dando em cima da Tia May de Marisa Tomei.

E então ele entra em ação como o próprio Homem-Aranha, e fica claro que é assim que o personagem deve ser nas telonas. Há grandes qualidades nas duas outras versões do herói, mas neste filme, é um triunfo incrível. Ele é bem-humorado, suas piadas são do mais alto nível, e Peter se mostra inteligente e capaz no campo de batalha. É um tiro certeiro e eu tenho total convicção de que os fãs (e os não-fãs) vão sair com ótimas lembranças deste cabeça-de-teia, Assim como J. Jonah Jameson vão querer ver mais dele. Felizmente a espera será curta.

Ah, e a cena pós-créditos com ele? Ouro! Fica clara a importância pra Marvel quando as últimas palavras do filme são “Homem-Aranha Vai Retornar”

Super-Poderes

Uma coisa que é constante com o Homem-Aranha e com todos os outros personagens é como os Irmãos Russo integram o uso dos super-poderes em tudo. Eles não escondem essa característica tentando tornar a coisa mais realista, mas aproveitam para fazer cenas que não seriam possíveis com nenhum outro personagem. Na ação, cada um luta de uma forma diferente, seja o Capitão usando o escudo, o Aranha com sua agilidade, Pantera Negra com garras e força. Até as próprias piadas muitas vezes dependem dos poderes, como o Visão atravessando a parede ou Homem-Formiga diminuindo (e aumentando) de tamanho em momentos inesperados.

A cena no aeroporto é uma obra-prima de ação de quadrinhos, com um timing certeiro dos diretores e a execução perfeita da interação destes dois grupos de super-humanos entrando em combate. É um deleite e ninguém consegue segurar o sorriso enquanto assiste. Há tantas peças em movimento que é inevitável esquecer de algumas delas, o que permite aos Russos criar surpresas dentro do conflito, e é impressionante ver o que cada um dos combatentes consegue adicionar à luta, porque cada um altera a dinâmica do que está acontecendo.

E agora?

Guerra Civil tem alguns problemas. Personagens como o Máquina de Combate, Gavião Arqueiro e Homem-Formiga estão lá só para a ação ficar mais legal, e as motivações de Zemo são extremamente esperadas – mais uma pessoa que perdeu a família e culpa os heróis – mas este é de longe o filme que deixa maior consequências para o universo, que traz mais peso e importância para si mesmo, e por isso talvez seja o melhor da Marvel até agora. Ele é o real fechamento da Fase 2, e mais importante do que mortes ou reviravoltas, temos uma quebra de confiança e amizade. Sim, o mundo está caçando heróis agora, mas, mais do que isso, os Vingadores, como conhecemos, acabaram.

Vai ser fascinante ver Tony reagindo ao fato de estar errado, algo que ele faz ao não seguir as ordens do Coronel Ross, entendendo que nem sempre é possível atender as ordens, em Spider-Man: Homecoming. Estou curioso para ver mais do seu relacionamento com Peter, que tem um senso de heroísmo mais puro do que Stark. Wanda e Visão claramente estavam caminhando para algo mais íntimo, mas houve uma tremenda quebra de confiança entre eles, e o androide termina questionando a sua razão. E o Pantera Negra agora decide implementar uma filosofia diferente em seu país, abandonando o caminho de vingança e indo contra o mundo ao esconder os Vingadores lá.

Há muito em movimento, mas agora vem uma pausa.

Em Doutor Estranho, entraremos no mundo da magia, em Guardiões da Galáxia Vol. 2, voltamos ao espaço e ao grupo bem-humorado liderado por Peter Quill; e em Thor: Ragnarok, vamos nos atualizar com os assuntos de Asgard e ver o que aconteceu com Hulk. É um momento para respirar antes de Pantera Negra nos trazer de volta ao nosso planeta em 2018, logo antes do começo de outra guerra, mas esta, contra ameaças bem maiores.

Thanos Joias