Como Stan Lee revolucionou as HQs e aproximou a Marvel dos fãs

Impacto do roteirista foi para além da criação de personagens

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Como Stan Lee revolucionou as HQs e aproximou a Marvel dos fãs

A notícia da morte de Stan Lee se espalhou pelos quatro cantos do mundo rapidamente. Mesmo para aqueles que não sabem diferenciar os personagens da Marvel dos da DC, Lee foi peça fundamental na construção da cultura nerd como conhecemos hoje. Sim, ele foi o criador do Homem-Aranha, do Demolidor, do Homem de Ferro e de tantos outros, mas, acima de tudo, Stan Lee quebrou algumas barreiras, ao desconstruir o arquétipo tradicional do super-herói e ao aproximar os fãs de todo o processo de produção da Marvel durante os anos em que foi editor-chefe da empresa.

Na segunda metade dos anos 50, a DC reinava soberana no mercado de quadrinhos americanos, no início da chamada Era de Prata das HQs. Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e Aquaman vendiam como água nas bancas dos EUA. Nessa época, a Marvel Comics, ainda sob o título de Atlas Comics, tinha revivido heróis da época da Segunda Guerra Mundial, como o Capitão América e o Namor, e, embora tivessem uma base razoável de leitores, ficavam muito atrás da DC.

Em 1960, a DC lançou a Liga da Justiça e suas vendas dispararam mais uma vez. Martin Goodman, editor da Marvel na época, pediu então para que Stan Lee, que até então era só mais um roteirista da empresa, criasse uma superequipe para a editora. Surgiu então o Quarteto Fantástico, em 1961, e então se iniciou o período mais prolífico da carreira de Lee e da Casa das Ideias.

Enquanto a DC apostava em personagens considerados larger than life, heróis que, a partir de arquétipos mitológicos, eram a personificação máxima de ideais como a Esperança, a Justiça e a Liberdade, Lee foi na contramão e quis apostar em histórias mais humanas, com protagonistas falhos e com problemas cotidianos.

O símbolo máximo desse conceito foi o Homem-Aranha, criado em 1962 na revista Amazing Fantasy #15. Em entrevista à Playboy, o Stan Lee contou que essas características eram o que faziam de seus personagens tão queridos:

O apelo desses personagens está no fato de que eles são extraordinários ao mesmo tempo que são ordinários. É fácil de se identificar com eles. O Quarteto Fantástico tinha super-poderes, mas os quatro também eram uma espécie de família com suas próprias peculiaridades. O Sr. Fantástico, por exemplo, podia ser incrivelmente chato. O Homem-Aranha era como vários adolescentes, confuso, cheio de problemas. Os problemas dele envolviam viver no mundo real ao mesmo tempo em que era um super-herói. Os X-Men eram um grupo magnífico de deslocados. O Demolidor é cego, mas faz muitas coisas melhor do que muitas pessoas que enxergam. E o Doutor Estranho? Eu amo esse cara, um cirurgião que sofre um acidente, machucando as mãos e que aprende magia na antiga tradição mística, se tornando o mago mais poderoso do Universo.

O sucesso foi imediato, e logo a Marvel estava comercialmente no mesmo patamar que a DC, consolidando de uma vez por todas a concorrência entre as duas empresas. Mas Stan não só fez com que os leitores se sentissem mais próximos dos personagens que acompanhavam, ele fez com que o público se sentisse mais próximo da editora e de todo o processo editorial, rompendo os limites que existiam entre os fãs e o mercado.

Em 1964, Lee, que também era o editor-chefe da Marvel, decidiu publicar a revista Marvel Tales Annual, uma coletânea com as origens de alguns dos heróis mais famosos da empresa. Porém, para os fãs, o grande atrativo da edição era uma galeria de fotos que ocupava duas páginas e trazia imagens de praticamente todos os funcionários do departamento editorial da empresa.

O êxito da galeria da Marvel Tales Annual foi tão grande que no ano seguinte a editora lançou um produto inusitado, visando aproximar os leitores da empresa. O disco Merry Marvel Marching Society trazia gravações de funcionários da Casa das Ideias, permitindo que os fãs escutassem suas vozes pela primeira vez.

Também em 1965, Lee criou o Bullpen Bulletins, uma página de anúncios que era publicada junto dos principais títulos da casa. Lá, Stan revelava novidades para o público, contava histórias de bastidores e até zoava algum colega de trabalho de vez em quando.

Uma página do Bullpen Bulletins

Porém, o grande destaque dos Bullpen Bulletins era a coluna Stan’s Soapbox, onde Lee respondia algumas das milhares de cartas enviadas para a Marvel com dúvidas, críticas e elogios de fãs e fã-clubes. Escritas num tom informal, a página se tornou o principal elo entre o público e a editora.

Com tudo isso, Lee, enquanto editor-chefe, ajudou na criação da comunidade nerd como conhecemos hoje, em todas as suas qualidades e problemas, sendo parcialmente responsável por toda uma cultura que saiu de um nicho para dominar o mainstream, transformando os deslocados em protagonistas e fazendo com que aqueles que eram considerados freaks se sentissem parte de algo maior ao lerem suas HQs.

Stan Lee, o homem, era cheio de defeitos, colecionando uma série de erros em seus 95 anos de vida. Porém, Stan Lee, a lenda, deixa para o mundo um legado riquíssimo, que não só traz personagens que mudaram a vida de várias pessoas que os acompanharam ao longo das décadas, mas também revolucionando o mercado editorial de quadrinhos como um todo.

Somente aqueles que são esquecidos morrem de fato, e o trabalho de Stan será lembrado por muitas gerações que ainda estão por vir. Obrigado por todas as histórias, Stan. Excelsior!