Bloodshot | Crítica

Carisma de Vin Diesel não consegue redimir este filme de ação genérico.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Bloodshot | Crítica

O retrospecto é sempre mais fácil. Tempo e distância favorecem a análise e permitem enxergar com maior clareza, por exemplo, o que diferencia filmes de ação como Robocop (1987), O Vingador do Futuro (1990) e Matrix (1999) de seus pares, elevando-os à condição de clássicos, referências no gênero. Em comum, eles têm a direção segura e cheia de personalidade — os dois primeiros, de Paul Verhoeven; o terceiro, das irmãs Wachowski — e o fato de usarem com destreza as convenções da ficção científica. Embora os três explorem o tema da identidade, cada um o faz sob uma perspectiva própria — Robocop recorre à sátira social, O Vingador do Futuro se apoia em uma releitura do conto Lembramos Para Você a Preço de Atacado, de Philip K. Dick, e Matrix oferece uma abordagem filosófica. Hoje, sabemos que foram apostas certeiras, mas, na época, nenhum dos envolvidos poderia imaginar tamanho sucesso.

É claro que os realizadores de Bloodshot acreditavam ter diante de si uma receita promissora: um diretor que, apesar de estreante em longas-metragens (Dave Wilson já havia assinado o episódio A Vantagem de Sonnie, da série animada Love, Death & Robots), conta com boa experiência em efeitos usuais, algo crucial no projeto; um script baseado em uma história em quadrinhos com material suficiente para originar um combo moderno e atraente de ação, sci-fi e humor; e um elenco encabeçado por um nome bastante popular, lastro de uma das franquias mais lucrativas da indústria. Mesmo assim, o resultado decepciona: pouca coisa sobressai no filme.

A trama segue o reboot da HQ promovido pela editora norte-americana Valiant em 2012, que trouxe um novo protagonista na pele do anti-herói do título. Ray (Vin Diesel), um fuzileiro naval especialista em missões de alto risco, é assassinado. Como parte de um experimento comandado pelo doutor Harting (Guy Pearce), ele é trazido de volta à vida, sem memória e com o corpo modificado por nanotecnologia, que lhe confere força e regeneração sobre-humanas e capacidade de se conectar a dispositivos eletrônicos. Em dado instante, as lembranças da antiga vida começam a voltar, colocando-o em uma missão de vingança contra o responsável pela sua morte e a de sua esposa.

O grande mérito do roteiro de Jeff Wadlow e Eric Heisserer é o conceito da reviravolta apresentada logo no primeiro ato. Por sinal, a escolha de certo ator para um papel breve, porém significativo é bastante eficaz, já que o perfil de personagens que ele costuma interpretar ajuda a estabelecer a farsa para o público.

Todavia, a concretização da tal ideia acaba prejudicada por uma série de equívocos. O mais grave se refere à sequência encenada duas vezes — uma se desenrola como narrativa real, de modo a enganar Ray e o espectador; a outra é a revelação do plot twist em si. Acontece que a primeira deveria ter sido filmada exclusivamente do ponto de vista do protagonista; da maneira como foi executada, ela mostra os vilões em um teatro para ninguém, sem sentido. Outro exemplo: há uma passagem que deveria se destacar pelo exagero, por ser parte do engodo (e para justificar um diálogo mais adiante); só que o tom do restante do longa continua o mesmo, over the top (por vezes, até se intensifica), o que dilui essa intenção.

Ainda que tome emprestados alguns elementos dos três clássicos mencionados no primeiro parágrafo, Bloodshot deixa de lado o ponto mais instigante que tem em comum com eles: o tema. A questão da identidade — aqui, atrelada ao conflito controle x livre arbítrio — é sugerida, porém nunca devidamente desenvolvida, resumindo-se a um punhado de chavões. E se por um lado Vin Diesel carrega boa parte do filme na base do carisma, por outro, sua limitada habilidade dramática contribui para a superficialidade, com o astro resmungando ou gritando nos raros momentos mais intensos.

Sem pretensão de ser profundo, o longa escorrega também no que deveria ser seu forte: a ação. Nesse quesito, a falta de experiência de Dave Wilson com live-action se faz notar. O diretor está a anos-luz do talento de um Paul Greengrass (O Ultimato Bourne) ou de um Christopher McQuarrie (Missão: Impossível — Efeito Fallout) para filmar sequências de luta com ritmo e clareza — o resultado é um frenesi de cenas confusas e cortes ineficientes. Já na sua área de especialidade, o uso de computação gráfica até rende duas ou três imagens interessantes; entretanto, aplicado nos combates, cai na mesmice de franquias mais famosas de super-heróis, nas quais há, pelo menos, o engajamento emocional do público.

A propósito, as piadinhas, pelo jeito, são item obrigatório no gênero atualmente — e os escritores tentam entregar algumas. Apesar dos esforços do ator Lamorne Morris, que interpreta o alívio cômico da vez, a maioria não vinga, já que muitas são forçadas e sem qualquer relação com a situação. E uma observação: simplesmente apontar um clichê enquanto ele transcorre na tela não é humor metalinguístico. Jogada dessa maneira, sem contexto, a brincadeira passa longe do sarcasmo à moda Deadpool pretendido e soa exatamente o que é: uma tentativa preguiçosa de se safar com um lugar-comum.

Os fãs do ator principal provavelmente vão se contentar. Mas Bloodshot é mais um título genérico na longa lista dos filmes de ação. Em retrospecto, vai ser lembrado apenas como “aquele com o cara do Velozes & Furiosos”.