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Belle | Crítica

Uma pérola profunda, sensível e corajosa disfarçada de fantasia animada convencional

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Belle | Crítica

A ideia da essência oculta sob o véu da aparência tem sido mote frequente nas mais diversas expressões culturais, dos contos folclóricos ao cinema. Em seu novo longa-metragem de animação, o diretor Mamoru Hosoda propõe uma visão original sobre o tema, a começar pela própria estrutura: um drama sensível escondido no formato de fantasia clichê.

Belle gira em torno da adolescente Suzu (Kaho Nakamura), que passa por um evento traumatizante e, com isso, cresce introvertida, afastada do pai e incapaz de cantar, apesar do amor cultivado pela música na infância. Seus únicos amigos são a geek Hiroka (Lilas Ikuta) e o bonitão Shinobu (Ryô Narita), que conhece desde pequena e por quem é secretamente apaixonada.

Por sugestão de Hiroka, ela se conecta ao U, uma plataforma digital imersiva com bilhões de usuários, onde reencontra a voz e, por meio de sua avatar, Bell, se torna uma cantora extremamente popular (e passa a ser chamada de Belle pelos fãs). Uma de suas apresentações é interrompida pela aparição do Dragão, tido por muitos como violento e perigoso. Suzu, no entanto, logo fica fascinada pelo misterioso avatar.

O filme acompanha, então, essas duas realidades, delimitadas de forma visual. O mundo real, animado em 2D, com cenário rural, repleto de natureza e casas isoladas, evoca um ar de nostalgia, de algo congelado no tempo. Nesse contexto, a garota lida com questões acrônicas, como o senso de inadequação social, o complexo trânsito entre tribos e a breve comédia dos erros que leva à formação de um triângulo amoroso.

Enquanto isso, o mundo virtual, animado em 3D, com seu turbilhão de cores, luzes e arranha-céus se projetando em múltiplas direções, comunica uma modernidade hipnótica e esmagadora. Dentro do U, Suzu enfrenta temas que espelham o ambiente das redes sociais, como o medo de ser exposta, o comportamento de manada e os usuários que se autoproclamam defensores do bem e da verdade.

Conforme avança, a trama sugere uma resolução que amarre os laços que vão se formando entre Suzu e o Dragão. Não é à toa: o roteiro, assinado pelo próprio Hosoda, se baseia nos elementos principais da centenária fábula A Bela e a Fera e suas adaptações cinematográficas mais conhecidas, como a dirigida pelo francês Jean Cocteau em 1946 e a versão animada lançada pela Disney em 1991.

Essa última, por sinal, tem significado especial para o cineasta japonês, que em diversas entrevistas declarou ter sido o filme que reavivou sua paixão pela animação e o motivou a continuar trabalhando na área, numa época em que sua confiança vinha esmorecendo. O carinho pelo filme da Disney se faz notar sobretudo na homenagem à célebre cena da dança, recriada aqui.

Outro ponto em comum é a importância dada à música, que em Belle não somente serve como recurso narrativo, mas exerce papel fundamental no enredo e ajuda a construir a identidade da protagonista. Composta pelo sueco Ludvig Forssell (conhecido pelo trabalho nos games Metal Gear Solid V e Death Stranding) e pelos japoneses Taisei Iwasaki e Yuta Bandoh, a excelente trilha sonora fica em primeiro plano em ao menos três passagens chave, ganhando força com a interpretação de Kaho Nakamura – também musicista, a atriz que empresta sua voz a Suzu contribuiu com as letras de algumas das canções.

O maior trunfo do longa, no entanto, não reside no que o aproxima do material em que se baseia, e sim no que o afasta. Engenhoso, o roteiro aponta ostensivamente para uma conclusão convencional, apenas para surpreender com uma reviravolta que, apesar de inesperada, funciona de maneira orgânica, já que a subtrama à qual se relaciona é construída sutilmente em momentos que, à primeira vista, parecem acessórios.

A surpresa não é mera pirotecnia: a mudança de rumo traz o choque que o tema discutido requer. Tema este que atualiza a fábula, trazendo para a contemporaneidade as reflexões sobre beleza exterior/interior e monstruosidade aparente/encoberta. Além disso – e, quiçá, mais importante –, ele consegue resolver o passado de Suzu de um jeito muito mais profundo, tocante e catártico do que o “felizes para sempre” jamais conseguiria.

Em sua versão de A Bela e a Fera, Hosoda troca o amor romântico pela empatia, uma forma de amor mais desapegada e talvez em falta hoje em dia – decisão que demanda tanta coragem quanto sua protagonista demonstra.

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