Ahsoka expande Star Wars com fábula para novatos e convertidos | Crítica

Série do Disney+ pavimentou caminho para um futuro brilhante para a franquia

Pedro Siqueira Publicado por Pedro Siqueira
Ahsoka expande Star Wars com fábula para novatos e convertidos | Crítica Crédito: Lucasfilm/Divulgação

Dizem que um velho macaco não aprende novos truques. E a vasta sabedoria popular até estaria certa se tratando de uma franquia com mais de 40 anos e toda a fundação da cultura nerd como conhecemos nas costas, mas também, o que seria do mundo sem os visionários? Aqueles dispostos a reinventar a roda mesmo nos chassis mais clássicos? É o caso de Dave Filoni e sua Ahsoka.

Série do universo Star Wars, a produção é o começo do ápice de toda a narrativa do produtor do universo, indo desde as animações The Clone Wars e Rebels (dirigidas e criadas por ele) até as investidas em live-action com The Mandalorian e O Livro de Boba Fett.

A trama acompanha a personagem de mesmo nome, vivida por Rosario Dawson, em missão para impedir o retorno de um perigoso oponente que ameaçaria a frágil paz da recém-instaurada Nova República. Ahsoka é acompanhada por velhos conhecidos das animações como Sabine (Natasha Liu Bordizzo), Hera (Mary Elizabeth Winstead) e a turminha de Star Wars Rebels.

Se a fadiga da cultura pop pode levar o querido leitor a torcer o nariz pensando “Mas então preciso assistir trocentos desenhos para curtir a série?”, graças aos deuses da Força, Ahsoka vence o desafio se provando, ao mesmo tempo, intrigante o suficiente para os devoradores de cada pequeno detalhe do folclore de Star Wars, e acessível o bastante para acomodar e entreter fãs mais casuais.

Isso porque, apesar de beber na fonte de tudo que a antecede, a série se preocupa em caminhar com as próprias pernas e até quebrar os limites da galáxia muito, muito distante. Literalmente.

Mestres e aprendizes

A trama põe a ex-Jedi em busca de um mapa que pode levar ao paradeiro do Grão Almirante Thrawn (Lars Mikkelsen). Ao mesmo tempo em que corre para impedir que os vilões Baylan (Ray Stevenson), Shin (Ivanna Sakhno) e Morgan (Diana Lee Inosanto) cheguem ao perigoso imperial, Ahsoka Tano vive na pele a dualidade da própria missão, já que o paradeiro de Thrawn pode também revelar a localização de Ezra Bridger (Eman Esfandi), jovem Jedi que se sacrificou para exilar o vilão.

A jornada da personagem a leva a uma outra galáxia, território praticamente inexplorado nas décadas de filmes, animações, quadrinhos, games e tudo mais que a Lucasfilm pôde conceber. Um pequeno passo para Lady Tano, mas um grande salto para a franquia, que mostra a moral ganha por Filoni ao longo dos anos, como discípulo maior do mestre George Lucas (ambos conceberam, juntos, The Clone Wars).

Ahsoka, Sabine e Ezra enfrentam a ameaça de Thrawn. Crédito: Lucasfilm/Divulgação

Se a série aumenta o escopo de ambição na imagem maior de Star Wars como um todo, Filoni, paralelamente, também dedica boa parte do roteiro a uma competente jornada interior da própria Ahsoka Tano.

Na pele da ex-Jedi desde a primeira aparição em The Mandalorian, Rosario Dawson entrega o peso dos traumas vividos pela personagem. Desde a infância como soldado das Guerras Clônicas até a culpa pela queda de seu mestre, Anakin Skywalker (Hayden Christensen) para o Lado Sombrio, e o medo da escuridão no íntimo da própria protagonista.

Para além das viagens intergalácticas, duelos de sabre de luz e ação espacial desenfreada, Ahsoka é, antes de tudo, uma jornada de mestres e aprendizes, e o entendimento de que todos podemos ser mais do que as caixinhas que tentam nos encaixar.

Enquanto busca o amigo perdido, Tano toma a mandaloriana Sabine como Padawan, mas também descobre que até os maiores mestres têm bastante a aprender. Isso é exemplificado de forma bela com o quinto episódio, “O Guerreiro das Sombras”, no qual a protagonista recebe uma última lição de Anakin Skywalker.

Trunfo da série, o elenco representa, com a devida reverência, suas contrapartes em animações e filmes anteriores, mostrando que, quando bem feito, um olhar ao passado pode guiar um saudável caminho para o futuro (estou falando de você, Episódio IX).

Tudo isso embalado num deleite visual que não decepciona os fãs do lado “guerra” de Star Wars. Ahsoka chega como um belo presente de construção de mundo e personagens, embalado numa eletrizante trama de ação.

Herdeiros do Império

O antagonismo da série é representado pela intrigante dupla Baylan Skoll (Stevenson) e Shin Hati (Sakhno). Falecido meses antes da estreia do projeto, o saudoso ator transmite, a cada cena, o fardo do Jedi caído, em busca de alguma solução para o fim do sofrimento na galáxia, mesmo que isso signifique a própria ruína.

Não deixa de ser interessante como Skoll e Hati também são, à sua forma, arquétipos nos mestres e aprendizes que permeiam toda a trama. É uma pena, no entanto, que o roteiro de Filoni termine subutilizando os dois, que, mesmo com excelentes performances de seus atores, nunca saem do lugar nos 8 episódios.

Lars Mikkelsen vive Thrawn em Ahsoka. Crédito: Lucasfilm/Divulgação

Isso porque Ahsoka se preocupa em estabelecer Thrawn como o grande vilão pós-O Retorno de Jedi, para o bem e para o mal. Vivido pelo mesmo Lars Mikkelsen que deu voz ao vilão em Star Wars Rebels, o Grão Almirante estreia em live-action como um dos líderes de uma possível reorganização do Império. Embora Mikkelsen dê ao vilão a frieza e calculismo que Thrawn merece, a mudança de tom com a aparição do personagem é um pequeno deslize na trama autocontida que, neste momento, se permite um pequeno pecado de “franquia” ao claramente preparar o terreno para produções futuras.

“It’s a kind of magic…”

Ainda assim, Ahsoka funciona também como exemplo de como Star Wars comporta, ao mesmo tempo, produções mais densas e sóbrias, como a excelente Andor, e fábulas mágicas com bruxas, feitiços antigos e até mortos-vivos (sem spoiler). Talvez até o grande trunfo da série seja trazer de volta a “magia” à franquia, dentro e fora da tela.

Star Wars sempre funcionou bem por nos fazer imaginar mundos, galáxias, sociedades, aventuras maiores do que a vida, tal qual um jovem Luke Skywalker fitando seus sonhos no pôr dos sóis de Tatooine. O quão apropriado é, então, deixar o futuro da franquia na TV e no cinema nas mãos, justamente, de um sonhador? Que venham mais aventuras pela galáxia muito, muito distante.

Todos os episódios de Ahsoka estão em streaming no Disney+. Siga de olho no NerdBunker para mais novidades. Aproveite e siga a gente nas redes sociais Twitter, Instagram e TikTok, e entre no nosso grupo no Telegram.

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