Por que Duna é tão importante para a literatura?

A obra mais popular de Frank Herbert mudou os rumos da ficção científica

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
Por que Duna é tão importante para a literatura?

Já faz mais de 50 anos desde que Duna foi lançado, dando início a uma saga literária que não viria apenas a se tornar a obra de ficção científica mais vendida do mundo, mas também se tornaria referência para o gênero, inspirando milhares de produções sci-fi — até mesmo Star Wars.

Criada pelo escritor Frank Herbert, a franquia teve seis livros ao todo — o que, diga-se de passagem, totalizam mais de 3 mil páginas (!) — que contam, de forma detalhada, uma história complexa e cheia de minúcias. Duna se passa em um universo totalmente novo com conceitos nunca pensados antes, como conta Daniel Lameira, editor da Aleph, editora que publica os títulos no Brasil:

Duna é um marco da ficção científica, Frank Herbert criou uma história que mudou os rumos do gênero e, ao mesmo tempo, os abraçou e os homenageou.

Antes de Duna, o sci-fi era ligado a dois grandes movimentos dialéticos. O primeiro são as narrativas “pulp”, que focam em um entretenimento rápido e curto, geralmente com bastante liberdade criativa. Já o segundo é a era de ouro da ficção científica: “Com narrativas mais elaboradas e maior cuidado científico, destacando os romances de autores como Clarke, Asimov e Heinlein, durante a década de 50”, esclarece Lameira.

Herbert, que lançou Duna nos 60, é o responsável por quebrar a divisão entre os dois movimentos, impondo uma visão inédita ao gênero, como completa o editor:

Ao mesmo tempo que ele bebe dessas influências — e também da fantasia — ele acrescenta temas que passam ali a fazer parte do gênero, como influência das ciências sociais, psicologia, antropologia, discussões ecológicas, religiões orientais, drogas, contracultura. Ele capturou a essência da época, influenciando diversas áreas artísticas, transcendendo o próprio gênero.

A obra mais popular e relevante de Frank Herbert continua influenciando escritores mundo afora e, claro, isso inclui o Brasil. Samir Machado de Machado, autor de Homens Elegantes (Rocco, 2016) e Tupinilândia (Todavia, 2018), conta sobre a importância de Duna em sua carreira:

Li o primeiro Duna no tempo da faculdade. Foi uma experiência transformadora, tanto como leitor quanto como escritor iniciante: a construção de um mundo épico espacial cujos dilemas políticos parecem sempre atuais, a visão cósmica sobre religião e sociedade, ao mesmo tempo tão avançada e retrógrada, como se o futuro e o passado convergissem numa realidade espacial barroca.

Mas sobre o que é Duna?

Duna se passa 20 mil anos no futuro, em um universo em que os humanos já colonizaram outros planetas e estabeleceram uma sociedade neles. O ano exato, de acordo com a nossa noção de tempo, seria 21.267 d.C.

A trama acompanha o conflito entre as duas famílias mais poderosas da galáxia — as dinastias Atreides e Harkonnen — que estão interessadas na mineração do planeta Arrakis, também conhecido como “Duna” por ter terrenos arenosos e um clima seco.

Lá, existe uma substância rara, apelidado de “especiaria”, que supostamente prolonga a vida humana, melhora as capacidades mentais e até possibilita a dobra entre o espaço-tempo. O uso contínuo deixa o usuário com os olhos totalmente azuis.

A especiaria só pode ser encontrada em Duna e é protegida por vermes gigantes com até 450 metros de comprimento, que vivem debaixo da areia e são atraídos pelas bases de mineração.

Além das criaturas, o planeta desértico também é habitado por seus nativos, os Fremen, que vivem como nômades debaixo das dunas e temem pela ocupação da dinastia Harkonnen, liderada por um barão ganancioso e cruel. Eles acabam se juntando com o protagonista Paul, o jovem duque da família Atreides, quem eles acreditam ser o profeta que vai salvar Duna.

Por trás ainda dessa premissa, existem muitos conceitos fictícios desse universo que envolvem destino, visões, guerras políticas, habilidades místicas, telepatia e por aí vai. Debates políticos e sociais, que podem até ser equiparados a cenários contemporâneos, também estão atrelados subjetivamente na narrativa.

Os seis livros

A saga escrita por Herbert tem início em 1965, com o primeiro livro, Duna. Continua em O Messias de Duna (1969), Os Filhos de Duna (1976), O Imperador Deus de Duna (1981), Os Hereges de Duna (1983) e é encerrada em As Herdeiras de Duna (1985).

Para Samir Machado de Machado, a leitura dos quatro volumes é a recomendada: “As continuações me parecem todas acessórias”. “Claro, há elementos do livro que envelheceram mal, e outros que seguem sendo avançadíssimos, como em toda grande obra”, comenta o autor.

Sinto que está para a ficção científica como O Senhor dos Anéis está para a fantasia, como exemplo máximo de construção de um mundo ficcional complexo e consistente.

Duna foi adaptado para o cinema em 1984, com direção de David Lynch. Com a nova adaptação marcada para estrear no dia 17 de dezembro de 2020, no Brasil, umas das obras máximas do sci-fi pode se tornar popular para uma nova geração. Os cinco primeiros livros você encontra pela editora Aleph (que planeja o lançamento do sexto para 2021). Por enquanto, o último só em edições mais antigas, como a da Nova Fronteira.