O guia do Isekai: origem, títulos populares, diferentões e mais

O primeiro isekai é tão antigo quanto os primeiros livros e publicações do Japão

Priscila Ganiko Publicado por Priscila Ganiko
O guia do Isekai: origem, títulos populares, diferentões e mais

Entre os shounen de lutinha, animes musicais e longa-metragens sobre amores impossíveis, um tipo de história que ganhou muito destaque nos últimos anos nas produções japonesas é o isekai.

A palavra isekai significa, literalmente, mundo diferente. Composta dos kanjis “異”, de diferente, e “世界”, de mundo, obras que adotam o gênero mostram os protagonistas sendo obrigados a se adaptarem a um mundo que possui regras diferentes das quais estão acostumados.

Apesar de ter ficado em evidência em romances, mangás e animes japoneses, o gênero não é exclusivo do oriente e títulos como Alice no País das Maravilhas, Peter Pan e até mesmo As Crônicas de Nárnia podem ser considerados como isekais.

A lenda de Urashima Tarou

Voltando ao Japão, a lenda de Urashima Tarou é considerada uma das precursoras do gênero. Estima-se que ela tenha surgido no século VIII, na época em que começaram a aparecer os primeiros registos escritos da região. Publicações clássicas como o Fudoki, o Kojiki e o Nihon Shoki, livros que documentam parte da história e folclore do país, apresentavam versões dessa história.

A lenda segue um homem chamado Urashima Tarou. Ao ver um grupo de crianças brincando com uma tartaruga, Tarou a comprou para devolvê-la ao mar. Depois de alguns dias, a tartaruga voltou e se ofereceu para levá-lo ao Palácio Dragão como forma de agradecimento por seu gesto. No palácio, que ficava em um reino subaquático, o homem conheceu a princesa Otohime e ficou alguns dias desfrutando de sua hospitalidade.

Depois de um tempo, porém, Tarou começou a sentir saudades de seus pais e resolveu voltar para a superfície. Como presente de despedida, a princesa lhe deu uma caixa misteriosa com a recomendação de que nunca fosse aberta. Quando voltou à sua cidade natal, Tarou descobriu que haviam se passado muitos anos, e que seus pais já haviam falecido. Desolado, ele abriu a tampa da caixa contra as ordens da princesa, e se tornou um velho.

A viagem para um mundo fantástico, representado pelo Palácio Dragão, é o que caracteriza a lenda como uma precursora dos isekais.

Ganhando popularidade

Logo no começo dos anos 90, alguns títulos com a premissa de universos alternativos começaram a pipocar Japão afora. Em 1992, Fushigi Yuugi, de Yuu Watase, começou a ser publicado em uma revista de shoujo, ou seja, mangás voltados para jovens garotas. A história se encaixa na definição de isekai, pois acompanha duas meninas que são transportadas para a trama de um livro.

No ano seguinte, a Clamp lançou Guerreiras Mágicas de Rayearth, que foi adaptada para anime em 94, mesmo ano de lançamento de EscaFlowne. Em 1995, foi a vez de El Hazard estrear na televisão japonesa com uma história original.

Após essa primeira leva, o gênero ficou fora de foco por alguns anos, mas voltou com força total em 2002 através de três títulos: A Viagem de Chihiro, .hack e Sword Art Online.

A Viagem de Chihiro, longa do estúdio Ghibli, vencedor do Oscar de Melhor Animação, também pode ser considerado um isekai — Chihiro vai parar em uma outra dimensão cujo tempo e regras são diferentes de seu mundo original, além de ter criaturas espirituais e um toque de magia.

A Viagem de Chihiro (2002)

No caso de .hack a situação foi diferente. O projeto da franquia envolveu jogos e livros, além do anime, que foi um dos principais pontos de partida. O lançamento aconteceu através do anime .hack//Sign e do jogo .hack//Infection, e, dado o sucesso de ambos, a franquia expandiu rapidamente e cobriu as principais áreas de entretenimento.

O terceiro título, Sword Art Online, escrito por Reki Kawahara, foi publicado como um livro online entre os anos de 2002 e 2008. O título foi adaptado para o formato de light novel em 2009, e em 2012 o anime estreou na televisão japonesa, tornando-se extremamente popular e revivendo a popularidade do gênero.

Sword Art Online

Por coincidência ou inspiração no sucesso de SAO, outros escritores também resolveram contar suas histórias fantásticas em mundos alternativos e, em 2012, algumas das obras mais populares dos últimos anos surgiram, em forma de light novel — mais especificamente, KONOSUBA -God’s blessing on this wonderful world!, Re:Zero − Starting Life in Another World, No Game No Life, OverlordThe Saga of Tanya the Evil.

Dessa leva, o primeiro título a fazer a transição para anime foi No Game No Life, que estreou em 2014. No ano seguinte, tivemos a estreia de Overlord, e em 2016 foi a vez de KonoSuba e Re:Zero dominarem a internet com suas best girls.

Rem, de Re:Zero

Desde então, tivemos That Time I Got Reincarnated as a SlimeIsekai Izakaya: Japanese Food From Another WorldHow Not to Summon a Demon LordIsekai QuartetThe Rising of the Shield Hero… A quantidade de animes e obras isekai aumentou muito, e inúmeros títulos do gênero aparecem a cada nova temporada.

Digimon é isekai?

Série clássica de Digimon

Teoricamente, sim. Digimon conta a história de um grupo de amigos que é transportado para o mundo digital, o que se encaixa na descrição do gênero, apesar de não ser amplamente divulgado como um isekai.

Criado em 1997 como um incentivo para que as crianças comprassem Tamagotchis, aqueles bichinhos virtuais, o anime fez tanto sucesso que ganhou múltiplas temporadas. Em 2015 foi feito Digimon Adventure tri., continuação direta dos acontecimentos das primeiras temporadas que trazia os primeiros digiescolhidos de volta, agora adolescentes, para uma última aventura.

Quando a história se repete

KONOSUBA (2016)

Muitas vezes, o protagonista do isekai é alguém que tem uma vida considerada ruim, ou que se sente inútil de alguma forma, e, por conta disso, não é feliz. Quando transportado para o novo mundo, além de ganhar poderes e encontrar um propósito maior na vida, também se torna parte de um grupo formado por mulheres (ou seres fantásticos femininos).

The Rising of the Shield Hero, Death March to the Parallel World Rhapsody e KONOSUBA -God’s blessing on this wonderful world! são alguns exemplos que se encaixam nessa descrição. E, por causa da repetição da “fórmula”, com o protagonista acompanhado por alguma personagem mais forte e calada, uma mais fofa, outra mais engraçada, desastrada, etc., a palavra isekai acabou se aproximando de uma “redefinição” errada. Ainda que títulos populares utilizem esse padrão, o gênero tem um significado muito mais amplo e, por vezes, podemos ver o tema sendo abordado de uma forma diferente.

Os diferentões

Com tantas obras do gênero surgindo a cada três meses (com as novas temporadas de anime no Japão), é fácil se cansar e ficar enjoado da estrutura e desenvolvimento similares dos títulos, e parece ficar cada vez mais difícil encontrar algo que dê uma nova vida ao isekai.

Para sair um pouco da mesmice, separamos abaixo alguns títulos que fogem um pouco do comum:

  • The Saga of Tanya the Evil (2017) — um executivo ganancioso reencarna no corpo de uma garota soldado no meio de uma espécie de guerra mundial com magia, e acaba subindo os escalões até virar a general mais barra-pesada do exército;
  • Isekai Izakaya: Japanese Food From Another World (2018) — segue a história de Nobu, dono de um restaurante que serve comidas para pessoas de outros mundos;
  • Ascendance of a Bookworm (2019) — a protagonista morre e reencarna numa garotinha bastante frágil e sem poderes, e a motivação dela não é se aventurar ou matar monstros, mas sim fazer livros;
  • High School Prodigies Have It Easy Even In Another World (2019) — sete alunos de colegial que são prodígios em suas respectivas áreas e causam uma revolução no mundo medieval onde vão parar.
Ascendance of a Bookworm (2019)

Mesmo após 18 anos do surto de popularidade mais recente, o isekai veio para ficar, conquistando muitos fãs justamente por essa premissa de que mesmo uma pessoa ordinária pode realizar algo fantástico em outro mundo. É fácil de se identificar com esse desejo, afinal, quem nunca pensou em ser transportado para um outro universo com novas regras e coisas como magias e criaturas místicas?

Embora ainda não seja possível nos transportarmos desse plano existencial para outro mais empolgante, podemos mergulhar nas histórias mirabolantes dos isekais e, com tanta variedade de universos para explorar, certamente um deles vai agradar você.