Como a mídia física persevera em plena era do streaming

Conversamos com consumidores e profissionais do mercado para entender esse fenômeno

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Como a mídia física persevera em plena era do streaming

É uma das minhas cenas favoritas no cinema. Talvez por me reconhecer um pouco no personagem: William é um adolescente esquisito e solitário, que encontra parte de sua identidade na escrita e no rock ‘n’ roll — este, descoberto por meio da coleção de discos de vinil herdada de sua irmã mais velha.

Ele está em um estacionamento, junto à porta que acaba de transportá-lo a um novo mundo, cheio de glamour e mordomia, mas também (mais tarde aprenderá) ego e desilusão: os bastidores de um show do Stillwater, a banda mais hypada do momento.

Will escuta, ao longe, um assobio: é o chamado de sua mãe, religiosa e superprotetora. Diante dele, todavia, está Penny Lane, a garota que, além de servir como guia em sua jornada, personifica seu rito de passagem (cognitivo e afetivo) para a vida adulta. Penny diz que pretende se mudar para Marrocos, um dos muitos planos mirabolantes e improváveis que ela confidencia ao protagonista ao longo da narrativa, e o convida: “você quer vir?”.

A frase em inglês (“do you wanna come?”) tem conotação sexual (“come”, também grafado “cum”, é gíria para “ter um orgasmo”), algo que não passa despercebido pelo rapaz. Ele titubeia, pede para Penny repetir a pergunta e só então responde com convicção: “sim!”. Os dois se despedem, e Will corre para encontrar a mãe; àquela altura, no entanto, já está decidido a entrar na toca e seguir o coelho branco.

Cena de Quase Famosos
Coming of age: um convite inocente em Quase Famosos (Columbia/DreamWorks)

Até bem pouco tempo atrás, se você quisesse assistir Quase Famosos (2000) e acompanhar Will em sua saga de autodescoberta em meio ao universo do rock dos anos 1970 (fictícia, porém inspirada nas experiências pessoais de seu diretor e roteirista, Cameron Crowe, que foi repórter da revista Rolling Stone naquela época), não encontraria o longa-metragem em nenhuma plataforma digital. Só recentemente ele foi disponibilizado em lojas como Google Play e iTunes Store e incorporado ao catálogo do novo serviço de streaming Paramount+.

Mesmo que pagasse o aluguel avulso ou mais uma assinatura, você perderia a chance de descobrir que a sequência descrita acima não foi concebida assim. Na faixa de áudio com comentários, presente na edição definitiva do filme em DVD, Crowe conta que o intérprete de Will, Patrick Fugit (então estreante e com apenas 17 anos), acabou se apaixonando, na vida real, pela atriz Kate Hudson, a Penny Lane.

O desconcerto diante da frase de duplo sentido não estava no roteiro — naquele instante, o jovem ator apenas reagiu e pediu para a colega (e crush) repetir a fala. O diretor percebeu que a cena funcionava melhor dessa maneira e decidiu manter a interação espontânea.

No fundo, é apenas uma curiosidade, mas ela acrescenta uma nova camada, aprofundando a apreciação da sequência em questão e o entendimento da obra no todo, já que revela um aspecto importante do pensamento do autor. E é uma informação que poderia nunca ter chegado ao espectador, caso não houvesse sido incluída nos extras de um DVD — hoje, fora de catálogo, a exemplo de muitos outros títulos relevantes.

O auge

Há cerca de duas décadas, qualquer longa seria facilmente encontrado no formato, já que esses discos dominavam o segmento de home entertainment. Segundo dados da consultoria norte-americana Nash Information Services, o ápice de vendas de DVD nos Estados Unidos foi em 2005, com faturamento de US$16,3 bilhões.

São números que impressionam, ainda mais quando comparados aos atuais: em 2020, a mídia física (contabilizando tanto DVD quanto Blu-ray) rendeu “apenas” US$3,5 bilhões nos EUA, de acordo com o mais recente relatório da MPAA – Motion Picture Association, entidade que representa a indústria cinematográfica daquele país.

Em terras brasileiras, a curva foi semelhante. “No auge do mercado, a tiragem de um título [independente] começava em 2 mil unidades, podendo chegar a 3 mil, 4 mil. Hoje, é de 1 mil peças — e isso vale inclusive para as majors [termo que se opõe a ‘independente’ e se refere às grandes empresas do setor, ligadas aos estúdios, como Sony, Universal, Warner, Paramount e Disney]. Lá atrás, algumas majors chegaram a fazer tiragens de 300 mil, 500 mil unidades de um título”, observa Fernando Brito, curador da Versátil Home Video.

A distribuidora independente que atua desde 1999 e é responsável por lançamentos como Stargate, a Chave para o Futuro da Humanidade (1994), de Roland Emmerich, e o recente Druk – Mais Uma Rodada (2020), de Thomas Vinterberg.

Stargate em Blu-ray
Stargate em Blu-ray, um dos lançamentos cheios de extras da Versátil (Divulgação)

A fase áurea resultou de um processo gradual. O principal fator foi tecnológico, com a mudança no formato da mídia (e, consequentemente, de seus players): da fita magnética para o disco óptico. “A transição do VHS para o DVD trouxe um grande salto de qualidade de imagem, bem como de interface e interação com o espectador, oferecendo acesso a várias trilhas de áudio e legenda e material extra”, aponta Fernando, da Versátil.

Ele lembra que, ao mesmo tempo, os próprios televisores passaram por algo similar: os aparelhos de tubo, com tela em proporção 4:3, mais quadrada, foram dando lugar aos widescreen, com tela de LED, LCD ou plasma em proporção 16:9.

Somado a isso, o momento da economia era favorável. Por aqui, os anos 2000 foram marcados por crescimento da indústria e do comércio, geração de empregos, aumento e distribuição de renda. A célebre capa do periódico britânico The Economist, por exemplo, com a imagem do Cristo Redentor disparando feito foguete e a manchete “Brazil takes off” (“O Brasil decola”), data de novembro de 2009.

Havia, portanto, um produto novo e atraente, um ambiente promissor e um consumidor com dinheiro no bolso. Assim, o DVD furou a bolha da segmentação, formada pelo cinéfilo que o adquiria em estabelecimentos especializados, para alcançar o público em geral, que passou a comprá-lo em lojas de departamentos, supermercados e até bancas de jornal.

Nada parecia indicar uma mudança drástica nesse panorama. A única nuvem no horizonte era o avanço da pirataria, possibilitado pela popularização da internet de banda larga e dos protocolos de transferência de arquivos, como BitTorrent. No entanto, ao final daquela década, veio uma crise econômica mundial, que afetou praticamente todos os setores e cujos efeitos continuaram a ser sentidos pelos 10 anos seguintes.

A queda

No Brasil, assim como aconteceu na ascensão, o declínio do segmento foi influenciado por diversos fatores — dentre os quais está, de novo, a questão do formato. O Blu-ray, que então se configurava como novo padrão da indústria, não vingou no país, já que para o grande público, o ganho em qualidade de imagem não compensava a diferença gritante de valores em relação ao DVD.

“Os preços do Blu-ray e dos equipamentos nunca foram populares, o que prejudicou muito sua massificação”, aponta o colecionador Juliano Vasconcellos, o Jotacê, que comanda o Blog do Jotacê, referência para os aficionados em mídia física.

A estante de Juliano, do Blog do Jotacê
A estante de Juliano, do Blog do Jotacê, referência entre os colecionadores (Acervo pessoal)

Do ponto de vista econômico, a queda no consumo do DVD e a baixa procura pelo Blu-ray fizeram com que muitos revendedores deixassem de apostar nesse mercado, o que, por sua vez, levou algumas distribuidoras independentes a encerrar as atividades. Até mesmo as majors abandonaram suas operações diretas nessa área por aqui (atualmente, elas são representadas por distribuidoras locais, menores).

A retração afetou ainda a fabricação de aparelhos dedicados à reprodução dessas mídias no país — uma busca em sites de compra hoje mostra pouquíssimos modelos nacionais disponíveis no mercado.

Outro golpe fatal veio recentemente. “Nos últimos anos, a crise das livrarias prejudicou esse mercado como um todo”, afirma Jotacê. Fernando, da Versátil, faz coro e destaca o pedido de recuperação judicial da Livraria Cultura, seguido pelo da Saraiva, como marcos negativos.

Ele ilustra o cenário desolador com dados da empresa em que trabalha: “70% dos nossos rendimentos vinham das livrarias, que compravam grande parte das tiragens. Entre Cultura e Saraiva, com a recuperação judicial [dessas companhias], nós tivemos um desfalque de cerca de R$1,5 milhão. A Versátil quase fechou as portas”.

Provavelmente, o maior catalisador nesse processo todo tenha sido o surgimento do streaming, uma revolução encabeçada pela Netflix, que começou sua trajetória no final dos anos 1990, voltada à locação de DVD. Em 2007, a empresa anunciou o lançamento de sua plataforma de filmes online e, cinco anos depois, já contava com 33 milhões de assinantes no mundo todo.

O sucesso do modelo abriu caminho para a formação de um novo segmento. Segundo os já citados relatórios da MPAA, em 2014 o número de assinaturas globais de streaming girava em torno de 150 milhões; em 2019, chegou a 863,9 milhões. No ano passado, somando Netflix e demais nomes, como Prime Video e Disney+, o setor ultrapassou a marca de 1 bilhão de clientes em todo o planeta.

Esse crescimento acelerado é compreensível. Há o aspecto financeiro: um mês de assinatura de um serviço sai mais em conta do que um único disco (e não só no Brasil; nos EUA, o preço do pacote básico da Netflix é US$8,99, ao passo que um lançamento em Blu-ray custa, em média, US$20).

Igualmente importante é a questão da praticidade: o acesso instantâneo a um amplo catálogo de filmes, documentários, séries e animações. As grandes plataformas oferecem quantidade, relativa diversidade e, de quebra, novidade, na forma de estreias e produções originais exclusivas. Por fim, não se pode menosprezar a economia de espaço — afinal, mesmo uma filmoteca modesta em DVD ou Blu-ray ocupa ao menos uma gaveta ou nicho de estante.

A sobrevivência

E ainda assim, a mídia física segue firme. As empresas que resistem bravamente não hesitam em apontar os maiores responsáveis pela continuidade desse segmento. “Os colecionadores. Eles podem até consumir filmes em streaming, mas não abrem a mão de tê-los fisicamente na prateleira”, afirma Luan Filippo, coordenador de marketing da Imovision, distribuidora independente que está no mercado desde 1989, tendo lançado clássicos cult, como Incêndios (2010), de Denis Villeneuve, e Amor (2012), de Michael Haneke.

Cena do drama Incêndios
O drama Incêndios, de Denis Villeneuve, lançado em Blu-ray pela Imovision (Divulgação)

Fernando, da Versátil, vai além: “é um público reduzido, mas fiel, que consome e compartilha. Os grupos de colecionadores são muito ativos, eles fazem lives e eventos, discutem”. E pressionam — o executivo ressalta que foi graças à força da comunidade que títulos como o longa Parasita, de Bong Joon Ho, e a minissérie Chernobyl, da HBO, ambos de 2019, foram lançados em disco. Da mesma forma, uma campanha dos fãs garantiu que Liga da Justiça de Zack Snyder (2021) ganhe em breve sua versão em Blu-ray.

Afinal, quem é esse público? O perfil extrapola os estereótipos do saudosista que cultua elementos de seu passado ou do hipster que fetichiza o anacrônico/excêntrico. É claro que há motivações pessoais por trás da preferência por um formato aparentemente datado, mas existem também razões bem objetivas que justificam o consumo da mídia física. A começar pela superioridade técnica.

À frente de um canal no YouTube que leva seu nome e tem mais de 9 mil inscritos, o colecionador Vinícius Sarquis observa que a alta taxa de compressão que viabiliza a rápida transmissão de dados no streaming acaba interferindo diretamente na qualidade de imagem e som — mesmo nos pacotes com resolução 4K disponibilizados por algumas plataformas.

“O tamanho final do arquivo [de vídeo] e sua qualidade dependem do bitrate [número de bits transferidos ou processados por segundo; quanto maior o bitrate, maior a qualidade]. Em média, no streaming, ele fica entre 4 e 8Mb/s, enquanto no Blu-ray pode passar dos 40Mb/s. Com o áudio é a mesma coisa: embora alguns serviços estejam fazendo um bom trabalho, com bitrate de 640kbps e 5.1 canais [referente ao número de canais de áudio no sistema surround], que é ótima qualidade, ainda assim não se compara ao Blu-ray, com bitrate que chega a 4.000kbps e 7.1 canais”, explica.

Jotacê ilustra com um exemplo:

“Séries como Game of Thrones [da HBO], em que temos cenas noturnas ou muito escuras em alguns episódios, foram extremamente prejudicadas pela distribuição digital. Só no Blu-ray é que as pessoas conseguiram ter uma experiência audiovisual aceitável.”

Além disso, o colecionador considera que apostar na mídia física o deixa livre daquilo que chama de “volatilidade do conteúdo”: as idas e vindas de filmes e séries nos catálogos de streaming.

As empresas do ramo não costumam discutir o tema abertamente. Netflix e Prime Video, por exemplo, declinaram do convite de participar desta matéria. Mas é sabido que a inclusão de títulos no acervo de uma plataforma requer diferentes contratos para diferentes regiões do planeta. E, invariavelmente, eles possuem prazo de validade — sua renovação depende de fatores que vão desde o interesse em investir novamente em determinado conteúdo (o que, obviamente, está ligado à audiência) até o surgimento de um concorrente que decide abocanhá-lo.

Só que a questão pode ser ainda mais complexa. Às vezes, estúdios e produtoras vão à falência, são comprados ou entram em imbróglio judicial, o que transforma as negociações de suas obras em um labirinto com saídas improváveis. Exemplos extremos são os filmes Corações em Alta, de Elaine May, e Jogo Mortal, de Joseph L. Mankiewicz, ambos de 1972, cujos direitos acabaram nas mãos de uma empresa farmacêutica (?!).

Em outros casos, há razões externas. A marcante série The Muppet Show (1976-1981) foi quase integralmente disponibilizada pelo Disney+ nos EUA. A exceção fica por conta de três episódios com problemas distintos: dois envolvem disputas em torno de copyrights de músicas; o outro, especula-se, foi excluído devido à participação de um convidado condenado por posse de fotos impróprias de crianças.

As coleções

Comprar um DVD ou Blu-ray, portanto, traz “a segurança de ser o real proprietário do conteúdo, sem depender dos contratos dos distribuidores com os serviços de streaming”, diz Jotacê. Dono de mais de 3 mil títulos, sua coleção é ampla na quantidade e no escopo: “já priorizei filmes de guerra, vencedores das categorias técnicas [do Oscar], animações de todos os tipos, filmes do [Martin] Scorsese, filmes do [Steven] Spielberg, etc. Hoje, coloco em primeiro lugar os que tenham um forte fator de replay”, diz.

De modo semelhante, a filmoteca de Vinícius, iniciada com animações da Disney, não se concentra mais em um rótulo específico. “Assisto e compro de tudo, desde que eu goste, seja documentário, drama, cult, besteirol, cinema europeu, trash, shows, curtas e por aí vai”, enumera ele, que contabiliza por volta de 2 mil discos.

Coleção de Blu-rays e DVDs
Animações, séries e muito mais na coleção de Vinícius (Acervo pessoal)

Se os dois têm uma abordagem mais eclética, há quem se concentre em determinados gêneros. Uma das organizadoras da feira Horror Expo, maior evento do tipo do país, Cynthia Lembke possui um acervo menos numeroso (são cerca de 300 títulos) e mais focado, é claro, em terror, especialmente dos anos 1970 e 80.

Fora isso, suas motivações para consumir mídia física são praticamente as mesmas de outros colecionadores. Ela explica:

“Com certeza compro se for de um diretor de quem sou fã. Se a história me prende e me faz reassistir, é um fator para querer ter também. É interessante, ainda, se o produto leva alguns extras — sempre é bom saber mais sobre como os filmes foram feitos”

Além do conteúdo, DVD e Blu-ray podem oferecer projeto gráfico atraente, embalagem única e material exclusivo, que muitas vezes tornam os discos tão desejáveis e colecionáveis quanto as action figures. “Quando um filme famoso faz aniversário, sempre é lançada uma edição especial comemorativa, com extras e gifts, como miniaturas, camisetas, etc. Então, é cada vez mais comum ver colecionadores dessas edições por aí”, afirma Cynthia — ela própria, orgulhosa proprietária de uma rara versão alemã de Elvira, a Rainha das Trevas (1988), de James Signorelli, e de uma coleção com oito filmes de Tim Burton autografada pelo diretor.

Box autografado por Tim Burton
Item invejável na coleção de Cynthia: box autografado por Tim Burton (Acervo pessoal)

A maioria das versões especiais mais extravagantes, no entanto, é disponibilizada apenas no mercado estrangeiro, como o box set com quatro títulos da franquia Alien, lançado em 2002, em formato de cabeça de xenomorfo, ou a segunda temporada de The Walking Dead (2012), acondicionada em uma cabeça de zumbi com assinatura da McFarlane Toys.

Por aqui, as distribuidoras de mídia física apostam em bônus como livretos, cartões e pôsteres, ou ainda o steelbook, um estojo metálico mais caprichado. Seu maior diferencial acaba sendo mesmo o conteúdo, com edições remasterizadas e bastidores, bem como a oferta de títulos mais obscuros. Nesse último quesito, parece que as grandes do streaming esboçam uma reação. “O Prime Video tem um catálogo interessante de coisas de terror recentes de Hollywood. E a Netflix, para quem gosta de filmes asiáticos, fora do circuito convencional, é uma boa opção”, elenca Cynthia.

As alternativas

Uma tendência que se observa, porém, é o surgimento de plataformas online especializadas. Um exemplo é a Darkflix: seu embrião foi um projeto de TV por assinatura dedicado ao gênero fantástico que, em 2016, foi reformulado e passou a ser desenvolvido como streaming. O serviço estreou pouco antes do início da quarentena em virtude da COVID-19, no ano passado. “[Hoje] temos aproximadamente 230 mil usuários. Ainda estamos em fase de expansão, logo, esse número cresce todos os dias”, diz a empresa.

Com cerca de mil títulos no catálogo e lançamentos semanais, sempre focados em terror, suspense e fantasia, a Darkflix acredita que, mesmo em seu nicho de atuação, há potencial de crescimento. Tanto que planeja disponibilizar o serviço em outros países, como México, Portugal, Chile e EUA. Ao mesmo tempo, investe no formato físico: seu selo, distribuído pela 1Films, tem lançado obras como O Mestre dos Desejos (1997), de Wes Craven, e Willow: Na Terra da Magia (1988), de Ron Howard, em DVD e Blu-ray.

Também de olho nos dois mercados, só que voltada à sua especialidade, os filmes de arte, a distribuidora Imovision está estreando seu próprio streaming, o Reserva Imovision. “[Será] a maior plataforma de filmes independentes da América Latina. Vem quebrar barreiras, começando com mais de 250 filmes logo de cara”, adianta Luan, coordenador de marketing da companhia.

Nesse segmento de perfil cinéfilo, a disputa é mais acirrada. Nele, atuam outros serviços digitais de peso, como o Belas Artes À La Carte, ligado ao histórico cinema de rua de São Paulo, e a internacional MUBI, que existe há 14 anos e atua no Brasil desde 2018, tendo registrado crescimento global de 60% no ano passado, segundo sua assessoria.

O modelo da MUBI é um pouco diferente: disponibiliza 30 filmes novos por mês, mantendo alguns em acervo por um período estendido. A ideia é apostar sempre em títulos exclusivos, a exemplo de Amores Expressos (1994), de Wong Kar Wai, e Songs My Brothers Taught Me (2015), de Chloé Zhao, diretora do aclamado Nomadland (2020), com seis indicações ao Oscar deste ano.

Cena de Songs My Brothers Taught Me
Songs My Brothers Taught Me, título exclusivo da MUBI (Divulgação)

Só que mesmo com a crescente gama de opções no streaming, permanecem algumas lacunas significativas. “O catálogo desses serviços ainda é limitado quando falamos de clássicos. Então, o streaming não forma novos cinéfilos, porque alguns filmes essenciais não estão lá para que possam assistir”, considera o crítico de cinema Roberto Sadovski, citando como ausências notáveis “os grandes filmes dos anos 1970”, casos de Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, e Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, ambos de 1976.

Entusiasta de toda e qualquer mídia física, que ele entende ter papel importante na preservação histórica, Sadovski também é colecionador, com cerca de 3,7 mil discos em suas prateleiras, entre Blu-ray e DVD. Ele ecoa os colegas ao apontar a inconstância como um dos maiores defeitos das plataformas digitais. “Há alguns meses, assisti a Vestígios do Dia [de James Ivory, lançado em 1993], um filmaço com Anthony Hopkins e Emma Thompson; fui recomendar para uma amiga e já não está mais na Netflix, foi embora”, conta.

Obviamente, o crítico enxerga pontos positivos no streaming. Por seu caráter global, “esses serviços têm de procurar filmes de outros territórios, porque [o público de] cada um deles precisa se enxergar ali também, seja Coreia do Sul, Espanha, Brasil, Dinamarca, qualquer lugar. Isso é bom, pois estimula a produção local e corta uma burocracia gigante, que é a distribuição em cinema. Quanto mais essas empresas bancarem [as produções], mais veremos filmes de outras cinematografias aparecendo”, pondera.

Coleção de Blu-rays e DVDs
Cerca de 3,7 mil títulos na coleção de Sadovski (Acervo pessoal)

O futuro

Em um aspecto, todos concordam: os formatos físico e digital não são concorrentes, mas complementares. Por enquanto, o panorama é favorável ao streaming. E tendo sobrevivido até aqui, DVD e Blu-ray têm tudo para perseverar. A grande pergunta é: como?

Para o colecionador Vinícius, o crescimento do mercado requer uma mudança de mentalidade no consumidor.

“Fico um pouco inconformado com o fato de que cinéfilo em geral não compra filmes. Ele paga caro por um ingresso de cinema e por produtos relacionados, como camisa, action figure, pôster, Funko Pop, mas não tem o mínimo interesse na mídia, que, no meu ponto de vista, é o principal.”

Jotacê, por sua vez, é mais otimista. “Nosso segmento tem condições de ser ampliado, de dobrar ou triplicar de tamanho. Ainda mais agora, com os [iminentes] lançamentos em 4K, temos uma chance de redescoberta da mídia física como principal meio de apreciarmos nossas produções preferidas”, acredita.

Seja como for, o destino do DVD e do Blu-ray precisa passar pela conquista de um novo público, mais jovem, que não vivenciou o auge do formato e talvez ainda não tenha tido a chance de desenvolver o apreço pelo vínculo tátil com esses discos — e que o crítico Sadovski celebra também em CDs, livros e quadrinhos impressos.

Cena de Quase Famosos
A descoberta do vinil: experiência mística em Quase Famosos (Columbia/DreamWorks)

Fernando, da Versátil, concorda e, curiosamente, escolhe um filme já mencionado aqui para traçar um paralelo.

“É místico, como naquela famosa cena de Quase Famosos: a irmã mais velha sai de casa e deixa de presente para o protagonista seus discos de vinil embaixo da cama. Quando ele pega os bolachões, começa a ver as capas, os encartes, as letras, as ilustrações, é uma experiência para ele. Não é só ouvir a música — é ter uma outra relação com a música. O mesmo vale para o cinema.”

Quem sabe essa outra relação não esteja em gestação? Como diria Penny Lane, “está tudo acontecendo”.

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