Foi ao ar no último domingo (29) o tão esperado terceiro episódio da série de The Last of Us, intitulado “Por Muito, Muito Tempo”.
O episódio pegou muitos espectadores de surpresa por desviar a atenção de Joel e Ellie para focar em outra dupla, Bill e Frank. Dois personagens completamente diferentes que, devido às consequências da pandemia do Cordyceps, se conheceram e encontraram algo inesperado um no outro.
[Atenção! A partir de agora, spoilers de The Last of Us]
Bill é um personagem que tem destaque no jogo, sendo responsável por ajudar os protagonistas a encontrarem um carro para dar continuidade à jornada. Enquanto Frank sequer aparece – pelo menos, não com vida. Ele é apenas citado por Bill como um velho parceiro com quem teve uma desavença e, em certo momento, encontramos o cadáver de Frank, que cometeu suicídio.
Nada disso acontece na série, que opta por um caminho independente que altera o destino (e também a vida) dos personagens. De forma respeitosa e primorosa, os roteiristas Craig Mazin e Neil Druckmann traçaram uma nova narrativa sensível e profunda para Bill e Frank, que aproveita a mudança de mídia para não apenas adaptar, mas expandir todo um arco secundário do jogo.
Com isso, o episódio foi aclamado por muitos, mas também teve críticas de espectadores que o viram como um “filler” – ou seja, apenas um capítulo para “encher linguiça”. Muitos desses argumentos defendem que a série optou por um caminho ambicioso até demais, cortando momentos icônicos do game (o que concordo, também aprecio as interações hilárias entre Bill e Ellie) para focar em dois personagens que morrem no final.
No entanto, esses argumentos não consideram algo importante. Algo que, após dez anos sendo fã da franquia, não pude deixar de reparar: o episódio de Bill e Frank é um reflexo da essência de The Last of Us.

The Last of Us não é sobre fim do mundo, apocalipse e infectados (ou “zumbis”, se você preferir relacionar as criaturas). Tudo isso funciona apenas como pano de fundo para uma franquia que, na verdade, é sobre a força das histórias de pessoas sendo humanas – e não apenas com Joel e Ellie. Isso é evidenciado no jogo o tempo inteiro.
Ao explorar os cenários, você encontra bilhetes e mensagens deixados por outros sobreviventes. Prestar atenção nesses detalhes resulta em descobrir diversas histórias paralelas e secundárias que, por mais que sejam curtas, aprofundam o universo do game e até desencadeiam comentários e reações dos protagonistas.
Um dos casos mais notórios (e, pessoalmente, meu favorito) é o arco de Ish. Durante o capítulo no esgoto, o jogador encontra um lugar que era o esconderijo de um grupo de sobreviventes, cujo destino foi trágico. Você descobre o que aconteceu no lugar durante a exploração, sendo um dos momentos mais marcantes do primeiro The Last of Us. Só que tudo é limitado na perspectiva de Joel por se tratar de um jogo, é claro.
A franquia ainda levou a ideia da força das histórias para outro patamar em The Last of Us Part II quando o jogador (por mais que não queira) vive outra trama com Abby e prova que não existe apenas Joel e Ellie nesse universo. A escolha dividiu opiniões, mas é inegável dizer que causou um impacto estrondoso, seja positivo ou negativo, em cada fã. Não à toa, o jogo é um dos mais premiados da história.

Ao ter uma série de The Last of Us – que é mais livre do que um game preso aos olhos do(s) protagonista(s) – há espaço para que a adaptação não apenas retrate os acontecimentos do original, mas expanda aquilo que conhecíamos. Afinal, se tudo for idêntico, qual o sentido de explorar outra mídia?
O terceiro episódio leva a sério essa visão (e que bom!), entregando uma versão mais rica de um personagem cuja história era sucinta, com uma sensibilidade e maestria rara de se ver em adaptações de jogos. Além de cair de cabeça no tema do primeiro game que, segundo o próprio criador da franquia, é amor. E é ainda mais impressionante que tudo isso tenha sido feito em apenas 70 minutos e que, agora, basta ouvir uma simples música (sim, Linda Ronstadt, estou falando de você) para todos os sentimentos que tive ao assistir à história de Bill e Frank voltem à tona.
Ao subir os créditos ao som de “Long, Long Time”, percebi que poucas franquias têm o poder de me tocar desta forma e em mídias diferentes. Porque The Last of Us tem um tempero (ou algum fungo, quem sabe) especial. É sobre histórias que vão ressoar com cada espectador de forma diferente, seja para bem ou mal – mas nunca indiferente. Agora, o que já era evidente no jogo está sendo ainda mais destacado na série.
O arco de Bill e Frank está (muito) longe de ser um “filler”. É um pedaço do que é The Last of Us em essência.