Embora Hollywood esteja repleta de reboots e remakes nos últimos anos, ainda é uma tarefa difícil mexer em certas franquias. É o caso de O Senhor dos Anéis, história criada por J.R.R. Tolkien. Protegida de adaptações por décadas, a trama ganhou sua primeira representação nas telas no início dos anos 2000, em uma bem-sucedida trilogia comandada por Peter Jackson.
Desde então, ninguém, nem mesmo o próprio Jackson, conseguiu replicar toda a aura de magia e encantamento que permeia a Terra-média. É com essa responsabilidade que o Prime Video lançou este ano O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, primeira série de TV deste universo. E a jornada, assim como a de vários personagens de Tolkien, foi cheia de altos e baixos.
A começar pelo período em que se passa a história. Sem conseguir os direitos da Primeira Era (que conta a criação da Terra-média) e da Terceira (mostrada em O Senhor dos Anéis e O Hobbit), a Amazon ficou com a difícil tarefa de adaptar a Segunda Era, uma história de meio, cujos acontecimentos foram narrados apenas nos Apêndices de O Retorno do Rei. Assim, havia muito a ser preenchido em termos de personagens e jornadas, e nem sempre a produção foi bem-sucedida.
Um bom exemplo disso é o núcleo das Terras do Sul. Embora o local tenha uma grande importância para o final da temporada, os personagens que guiam o público não são nem um pouco cativantes. O romance entre Bronwyn e Arondir não é convincente, o jovem Theo acrescenta pouco quando está em tela (e ele ganha muito tempo de tela) e nem a chegada de outros nomes é capaz de melhorar a fraca construção narrativa de um local que tinha potencial muito maior.
Também há erros quando falamos de Galadriel, considerada por muitos como a protagonista da história. Rosto da maioria dos cartazes e materiais de divulgação da série, a elfa chegou com uma personalidade impetuosa e guerreira, muito diferente do ser etéreo da Terceira Era. Mas o problema não é exatamente esse. Na verdade, a construção da personalidade de Galadriel foi irregular por conta de momentos em que suas ações soaram exageradas, apenas para servir à tal persona criada para a série.
Não que a personagem não pudesse ser uma guerreira forte e teimosa. A questão é que, em vários momentos, essa composição soou vazia, como se a produção se recusasse a evoluir a elfa. Há uma correção de curso sobre isso depois, mas não há como negar que a personagem foi prejudicada por um texto que, em muitos momentos, se recusou a ir além.
Na terra de Mordor, onde as sombras se deitam
Uma história forte, com grandes heróis, também pede por um vilão à altura. Assim, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder passou grande parte da primeira temporada alimentando o mistério sobre quem seria Sauron. No período contado na série, o primeiro grande vilão, Morgoth, já foi derrotado, e seu pupilo ainda não se transformou na entidade mostrada na Terceira Era. Logo, havia uma grande expectativa para a construção do vilão que, assim como outros núcleos, também teve momentos bons e ruins.
Em parte, há valor ao criar um grande mistério, já que isso gera uma antecipação interessante nos fãs. Por outro, há a sensação de que os roteiristas erraram a mão em vários momentos e deixaram tudo tão enigmático, que a curiosidade se transformou em frustração. Narrativamente falando, faltou entregar mais no decorrer dos episódios, para manter a chama sempre acesa. Ao invés disso, o caminho escolhido pela série foi o de despistar o público, em um movimento que gera muita repercussão nas redes sociais, mas não necessariamente é o melhor em termos de roteiro.
Curiosamente, os altos e baixos se revelam também na parte técnica da série. Anunciada como a produção mais cara da história do streaming, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder tem momentos de tirar o fôlego em termos de cenários e, especialmente, figurinos. Ao mesmo tempo, há cenas em que a computação gráfica fica clara, com o cenário se destacando demais dos personagens em primeiro plano. Com um orçamento tão alto, é um deslize que não deveria acontecer.
Apesar de todos esses pontos questionáveis, não há como negar que o saldo da série é positivo, especialmente pelo belo resgate aos valores que Tolkien colocou em sua obra. Os dois primeiros episódios, comandados por J.A. Bayona, fizeram um bom trabalho ao mostrar como é a Terra-média da Segunda Era, gerando uma sensação familiar para os fãs da trilogia de Jackson. A amizade entre Elrond e o príncipe Durin também teve um papel importante, ao mostrar como a união entre duas raças é extremamente importante para a paz e a luta contra aqueles que desejam cobrir a Terra-média com a escuridão.
Ainda neste tópico, é impossível não falar sobre os Pés-peludos. Antepassados dos hobbits, os personagens conquistaram os fãs desde as primeiras cenas, mostrando todas as características que são importantes para Tolkien: uma bela relação com a natureza, generosidade, união e, acima de tudo, muita alegria de viver. Chega a ser impossível não sorrir quando os Pés-peludos iniciam o deslocamento de uma região para outra e começam a cantar, antecipando o que encontrarão na estrada à frente.
Com todos esses pontos, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder começa de forma irregular, embora tenha o coração no lugar certo. Com a segunda temporada já em produção, a Amazon faria bem ao se preocupar menos com as reações nas redes sociais e focar mais na história que deseja contar, sem medo também de deixar de lado o que não deu certo no primeiro ano.
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Todos os episódios da primeira temporada de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder estão disponíveis no Amazon Prime Video.