Com a chegada de The Last of Us Part I no início de setembro, muitos fãs da franquia estão aproveitando a novidade para reviver a jornada do aclamado jogo da Naughty Dog.
Fiz o mesmo, voltando a me emocionar com a cena das girafas, rir das piadas ruins da Ellie, odiar o David com ainda mais força e por aí vai. Só que houve um momento que teve um impacto ainda maior nessa revisita: a história de Ish.
Se o nome não lhe é familiar, provavelmente é porque ele era apenas um personagem secundário, que sequer chega a aparecer (!).
Ish e a natureza interativa dos jogos
A história de Ish é contada no sexto capítulo do jogo, “Os Subúrbios”, quando Joel, Ellie e os irmãos Henry e Sam precisam avançar pelo esgoto para chegar na torre de rádio.
No entanto, essa trama não é apresentada com uso de cutscenes, diálogos ou uma ferramenta narrativa direta. Todo o arco do personagem é apresentado por pedaços de papéis (que são coletáveis) e da própria ambientação. Assim, o jogador precisa ser pró-ativo e atento para conhecê-lo — e não explorar ou prestar atenção pode te fazer perder um dos melhores momentos do jogo.

No início do capítulo, é possível encontrar um bilhete em um pequeno barco encalhado. É o primeiro coletável com um relato escrito por alguém chamado Ish, que tentou fugir da pandemia em alto mar, mas teve problemas e acabou em uma praia. Ele reclama da situação, mas explica que pretende buscar refúgio em um esgoto perto dali.
Ao avançar, você encontra a entrada do tal esgoto, que guarda outro bilhete – é Ish mais uma vez, celebrando que o local é um esconderijo perfeito e ficará por ali mesmo.
Assim, Joel e Ellie entram no esgoto para continuar sua jornada, e a exploração começa. É possível encontrar vários papéis com mais textos que contam o que aconteceu ali.
Em certo momento, um dos relatos diz que um grupo de sobreviventes desconhecidos apareceu por lá. Eram famílias, com crianças e até idosos. Ao ver que não eram uma ameaça, Ish convida todos a se juntarem a ele. “Afinal, qual é a graça de viver sem ter ninguém para rir das suas piadas ruins?”, escreveu – algo que eu pessoalmente concordo e me identifico muito.

A ambientação do esgoto, então, começa a tomar novas formas. Os cenários mostram que uma comunidade realmente vivia em harmonia ali. Há espaços para crianças estudarem e brincarem de futebol, lavanderia com roupas penduradas e despensas.
Só que, cedo ou tarde, o jogador acaba percebendo que há um mistério… Se os sobreviventes viviam tão felizes ali, por que não há mais ninguém? O que aconteceu com todos?
Não demora para bilhetes com relatos menos fofos começarem a aparecer. Em uma anotação desesperada, Ish conta que alguém se infectou, mas decidiu não contar para ninguém… E já dá para imaginar o efeito dominó que isso causou. Em pouco tempo, já havia vários infectados em um lugar fechado e estreito, e o destino do grupo estava traçado.
Os cenários passam a narrar o que aconteceu, com detalhes como marcações na parede e rastros de sangue. Até que o jogador encontra a sala de estudos das crianças – que guarda um dos momentos mais chocantes de The Last of Us.
Uma pilha de corpos pequenos cobertos por um lençol está em um canto, ao lado de um cadáver de um adulto com uma arma na mão. Enquanto o chão mostra os dizeres “eles não sofreram” escritos em letras tremidas. Com isso, o jogador percebe que todos da comunidade do esgoto passaram por momentos de terror, o que aprofunda mais o universo apocalíptico do game.

Além disso, ainda é preciso enfrentar mais infectados ao descobrir o destino dos sobreviventes. A parte mais difícil, no entanto, nem é ter que lidar com hordas ou gerenciar balas de armas, mas encarar o fato de que os infectados eram as pessoas que viveram felizes ali por um tempo, o que adiciona um peso imenso na hora de matá-los.
A história de Ish termina quando Joel e companhia conseguem fugir do local. Na saída, aparece um aviso na parede de que o esgoto não é seguro e está cheio de infectados – e, ao avançar um pouco, é possível encontrar mais um coletável, o jogador descobre que o autor foi o próprio Ish. Ele relata que conseguiu escapar com vida com Susan, uma das mães das crianças, mas percebe que ela está traumatizada com tudo o que aconteceu.
No entanto, este é o último bilhete deixado pelo personagem.

Com um arco inteiro e relativamente complexo sendo contado por papéis e cenários, The Last of Us explora a natureza interativa dos videogames para aprofundar imersão e fazer o jogador conhecer mais daquele universo trágico. Presenciar tudo mais uma vez me fez perceber que, não importa quantas vezes eu jogue, sempre ficarei com calafrios e embrulhos no estômago nessa parte.
Pela maneira como tudo foi construído, também há espaço para pensar em teorias e preencher as lacunas da história de Ish, o que faz com que a interpretação dos acontecimentos de cada um seja diferente e única.
Afinal, você pode ter uma visão mais otimista ou pessimista do que aconteceu com ele após o esgoto. Há quem acredite que ele simplesmente morreu ou foi para outra região. Mas outros defendem até que Susan enlouqueceu e o deixou sozinho, então ele se juntou aos caçadores e é o sniper da torre do rádio. Quem sabe?
Seja como for, tudo isso me fez pensar que o universo de The Last of Us pode ser explorado muito além de Joel e Ellie, por mais que sejamos muito apegados na história dos dois. A série da HBO, por exemplo, poderia até ter sido algo nessa linha em vez de uma adaptação direta – afinal, quantos outros Ish não podem ter existido nesse mundo caótico? Agora, só nos resta esperar para ver o que a Naughty Dog aguarda para a franquia no futuro. Da minha parte, espero mais histórias como essa.