Quem jogou Elden Ring provavelmente se lembra do deslumbramento que sentiu ao pegar o elevador para Siofra pela primeira vez, ou da euforia de finalmente triunfar na luta contra Radahn, cerca de 37 tentativas depois. Como trazer de volta essa experiência em um jogo no qual já passamos dezenas, talvez centenas de horas nos últimos anos? Podemos dizer que, assim como os Maculados que vagam por castelos decadentes, a aguardada expansão Shadow of the Erdtree veio ao mundo com uma missão bastante desafiadora.
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A própria ideia de expandir Elden Ring já parece, em si, ambiciosa demais. Estamos falando, afinal, de um dos jogos mais aclamados e grandiosos de todos os tempos. A obra-prima da FromSoftware parecia ter explorado ao máximo suas possibilidades criativas já no lançamento original, em 2022.
Transitando entre fórmulas conhecidas e adições inusitadas, a equipe de Hidetaka Miyazaki não apenas conseguiu cumprir essa complicada tarefa, como deixou também mais uma fortíssima evidência de que ninguém trabalha o gênero que chamamos de soulslike tão bem quanto seus criadores originais.
A direção escolhida para o novo conteúdo não é exatamente óbvia, porém, e tem escolhas que podem alienar e frustrar parte do público - algo que as várias avaliações negativas de jogadores no Steam parecem indicar. A grande ironia é que foi justamente essa coragem de apostar em formatos aparentemente impopulares que colocou a FromSoftware no lugar de prestígio em que está hoje.
O último semideus

Um dos grandes atrativos de Elden Ring sempre foi o enigma em torno do próprio mundo aberto do jogo. Tivemos a resposta de um dos mistérios centrais da cosmologia das Terras Intermédias, centrado nas figuras da rainha Marika e do Anel que dá nome ao jogo, na reta final da jornada principal. Para reviver, de fato, a essência da experiência de Elden Ring, o conteúdo adicional precisaria resgatar esse sentimento de novidade e mistério.
A solução encontrada pela FromSoftware foi focar a DLC em um semideus extremamente importante que não tinha recebido o devido destaque até então: Miquella, filho de Marika e irmão gêmeo da já icônica Malenia. É através da suposta benção dele que somos guiados até o Shadow Realm (Reino das Sombras, na tradução oficial), o mapa inédito que precisa ser explorado e desvendado nessa nova missão.
Miquella é um personagem central na mitologia de Elden Ring que já vinha rendendo inúmeras teorias pela internet desde 2022. O esforço de compreender a complexa e fascinante figura do irmão de Malena, seguindo pequenas pistas e fragmentos deixados por ele e por seus seguidores, é grande parte do charme da experiência.
Rebalanceando o desafio

Uma das prioridades de Shadow of the Erdtree é proporcionar uma experiência difícil e opressora mesmo para os jogadores mais experientes. Isso porque um dos requisitos para acessar a Shadow Realm é derrotar o chefe Mohg, um dos mais apelões do jogo base. Logo, a expansão parte do pressuposto de que todo mundo que está jogando já tirou de letra as maiores pedreiras de Elden Ring.
A solução encontrada para dosar a progressão da DLC foi mudar o critério de evolução do personagem dentro do novo mapa. Existe um novo tipo de benção, a Scadutree Blessing (Benção da Umbrárvore), que aprimora a capacidade do personagem de causar dano e resistir aos ataques. Outra novidade é a Revered Spirit Ash Blessing (Benção da Cinza Espiritual Reverenciada), que melhora os atributos dos espíritos evocados para dar suporte nas lutas principais. Ambas as bênçãos só têm efeito dentro do Shadow Realm.
Essas adições se fazem necessárias porque mesmo inimigos comuns são capazes de matar um personagem acima do nível 100 com dois ou três golpes. A melhor forma de aumentar as chances de sobrevivência é explorar minuciosamente as áreas em busca desses novos aprimoramentos, tarefa que está intimamente relacionada com o enigma de Miquella, unindo narrativa e mecânicas de jogo de forma bastante coesa.
O alto grau de exigência das novas lutas, especialmente contra os chefes, tira da zona de conforto mesmo quem já estava bastante habituado com os desafios anteriores de Elden Ring. Embora isso possa ser frustrante, funciona também como um convite para explorar as possibilidades das novas armas, espíritos e cinzas de guerra, que adicionam uma boa gama de possibilidades em um sistema de construção de personagem que já era bastante rico.
Reforça um pouco o sentimento de “injustiça” o fato dos dois primeiros castelos da expansão seguirem uma tendência meio rara em Elden Ring. Eles são repletos de emboscadas e ataques inesperados, parecendo até fases de Demon’s Souls perdidas no meio do Shadow Realm. Como tudo isso ocorre quando ainda estamos nos adaptando às novas mecânicas e exigências, talvez as primeiras horas passem a sensação de que a DLC é menos inspirada do que o jogo base, com um foco excessivo em dificultar as coisas gratuitamente.
Se superarmos essa estranheza inicial, com aquela resiliência típica do gênero, o mundo se abre mais e somos presenteados com algumas das melhores regiões e confrontos da história da FromSoftware. O que, como dá pra imaginar, nem de longe significa pouca coisa.
Talvez essas ressalvas façam parecer que a nova jornada falha em ficar à altura da experiência original, mas é justamente o contrário. Esse caminho potencialmente controverso contribui para recriar aquilo que sentimos em 2022. O sentimento de estranheza e de opressão diante de desafios aparentemente intransponíveis logo é substituído pela catarse da superação e pelo encantamento com as nuances e dualidades do sombrio mundo que vai se desvendando.
Um novo patamar para expansões

A FromSoftware, que sempre mostrou muito capricho no conteúdo adicional dos próprios jogos, sobe o sarrafo aqui de um modo sem igual dentro da indústria. Não é raro vermos sequências declaradas de jogos de mundo aberto com menos novidades do que as que foram apresentadas nessa DLC.
A própria linha que separa expansão de sequência parece cada vez mais turva em uma época de lançamentos digitais, acessos antecipados e tantos jogos como serviço recebendo suporte durante anos. É muito mais interessante e justo tratar a expansão de Elden Ring como o que ela é: uma obra que pode e merece ser avaliada à parte, mas que necessariamente faz parte da experiência do jogo original, até pela forma como o novo mundo é acessado.
Em última análise, Shadow of the Erdtree torna já obsoleto o infame dilema sobre considerar ou não DLCs na hora de eleger os melhores jogos do ano. Já parece evidente, ainda em junho, que falar do ano de 2024 nos videogames sem citar a expansão de Elden Ring seria como retirar uma runa essencial do Anel Pristino que rege a nossa realidade.
Esta review foi feita com uma cópia digital do jogo cedida pela Bandai Namco.
Elden Ring Shadow of the Erdtree está disponível para PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One e PC.