Choo-Choo Charles é um survival horror de mundo aberto, que viralizou nas redes sociais pela proposta inusitada de colocar o jogador em um universo assombrado pela presença de um monstro que é metade trem, metade aranha. E não, você não leu errado.
Charles é um “trem-aranha” com oito patas horripilantes e uma locomotiva incessante, que aterroriza os habitantes de uma pequena ilha fictícia, chamada Aranearum. Você assume o papel de um arquivista de um museu que (sabe-se lá por qual motivo) foi contratado para caçar e aniquilar a criatura.
A experiência é tão maluca e inusitada quanto parece, sendo um indie ambicioso dentro da própria maluquice, o que faz dele um dos games indispensáveis de 2022 para quem é fã do gênero.
Aí vem o "trem-miranha"
Choo-Choo Charles é um mundo aberto com limitações, uma vez que tem um escopo enxuto por ter sido criado e projetado pelo estúdio Two Star Games, composto por apenas um desenvolvedor, Gavin Eisenbeisz. Mas o jogo encanta pela originalidade e pela forma como trata alguns dos elementos mais marcantes do terror.
Com um objetivo digno de um filme B do gênero, a ideia é encontrar uma maneira de derrotar o trem assassino e, para isso, é preciso realizar missões com os sobreviventes do local.
Em poucos minutos, você fica livre para explorar o mundo aberto, que transmite uma sensação de vazio de forma proposital. Charles está aterrorizando a ilha há algum tempo, comendo todos os animais e a maioria dos habitantes, destruindo boa parte das construções e da vegetação, o que transformou a região em uma cidade fantasma.

Para transitar facilmente pelo mapa e ter chances de enfrentar o vilão, o protagonista conta com um pequeno trem operável, que serve como uma base – não segura. Isso porque Charles fica rondando o mapa aleatoriamente e pode (e vai) te encontrar em algum momento… quando você menos esperar.
Com essa ideia, o game constrói uma atmosfera de tensão que prevalece do início ao fim da história. Toda vez que é preciso deixar seu trem e andar a pé pela região para realizar as missões, o jogador sente aquele friozinho na barriga, temendo que o bichão esteja à espreita. A ausência de trilha sonora ainda aproveita para intensificar essa sensação, uma vez que é possível até ouvir o “choo-choo” da criatura se você estiver atento aos sons ambientes.
Quando Charles aparecer com sede de sangue, é preciso se esconder dentro de alguma casa próxima ou voltar para o trem, que oferece uma arma com munição infinita para atirar no monstro. A metralhadora, no entanto, não tem retícula de mira, fazendo com que os confrontos diretos sejam caóticos e uma dose extra de nervosismo apareça.
Além disso, para intensificar ainda mais o cenário macabro de Aranearum, o “trem-aranha” não é a única ameaça! Há humanos que querem defendê-lo, chegando até a usar máscaras de adoração em sua homenagem. Eles guardam e protegem os ovos de Charles em minas, o que gera sequências de furtividade que são simples, mas dão um respiro na dinâmica de mundo aberto de Choo-Choo Charles.

Várias missões secundárias dos sobreviventes ainda são tão malucas quanto a própria proposta do jogo, mostrando que Charles não é a única bizarrice por aqui. Minhas favoritas envolveram um fantasma vingativo, um monstro do pântano letal cuja aparência nunca é revelada e até uma mulher obcecada por picles, que pede para você trazer o último pote de picles da ilha para ela.
Esses momentos quebram (no bom sentido) a trama focada em Charles por alguns instantes, deixando o jogador intrigado pelas peculiaridades da região — e até esquecendo o "trem-aranha" que pode aparecer a qualquer segundo.
Passei cerca de quatro horas com Choo-Choo Charles, que se provou ser uma experiência inusitada de terror, em que é preciso abraçar toda a maluquice que é apresentada. Com texto e legenda em português brasileiro, o jogo é uma bela surpresa de fim de ano para os amantes do gênero como eu ou apenas alguém que está à procura de um indie "diferentão".
Eu nem mesmo sabia, mas precisava de alguns encontros com Charles para encerrar 2022. Choo-Choo Charles é curtinho, despretensiosamente divertido e meio sem sentido, uma combinação perfeita para se desligar e curtir uma história maluca e leve — por mais que uma aranha locomotiva esteja no seu cangote.