Em uma Hollywood de ambição limitada por irrealistas expectativas de sucesso, o terror é como um oásis. Afinal, o macabro não precisa de grandes orçamentos ou nomes chamativos para triunfar, e sim boas ideias, bem executadas. Com bastante espaço para experimentação e ousadia, a oportunidade de tentar algo novo se torna cada vez mais atraente a nomes inusitados ao gênero, como Hugh Grant, que estrela o terror religioso Herege (2024).
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Com porte de lorde e muito carisma, o ator inglês é um queridinho de comédias românticas como Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), O Diário de Bridget Jones (2001) e Simplesmente Amor (2003). Mas é visível que passou os anos recentes em busca de novos ares na carreira, primeiro nos thrillers políticos televisivos (A Very English Scandal, The Undoing, O Regime), depois na bizarrice Hollywoodiana (Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes, Wonka), e agora no horror — onde pode ter encontrado algo de valor, mesmo em um filme irregular.

Herege segue as duas jovens missionárias mórmons Barnes (Sophie Thatcher) e Paxton (Chloe East) que, durante uma visita para converter o enigmático Sr. Reed (Grant), acabam presas em um provocador teste de fé. A premissa é intrigante e o elenco é excelente, mas o elo mais fraco da equação são os diretores/roteiristas Scott Beck e Bryan Woods, dupla que anteriormente escreveu Um Lugar Silencioso (2018).
A trama tem ares de Jogos Mortais, com o lunático Reed impondo uma série de questões existenciais às garotas, mas diferente do maníaco Jigsaw, aqui o homem só fala, e muito. Sem as armadilhas sangrentas, fica só a “filosofia freestyle” que é servida com prepotência às vítimas indefesas.
É um texto bastante verborrágico — longe de ser ruim, já que levanta discussões e cutucadas religiosas bastante pertinentes —, mas que pouco faz em termos de conflitos e ações. O vilão joga charada atrás de charada, embasa críticas à religião com metáforas de músicas e jogos de tabuleiro, mas não parece ter um objetivo final relevante ou um argumento existencial muito potente.
Sem partir para a intimidação física logo de cara, o filme tenta conciliar a ameaça intelectual do titular herege com a situação desesperadora das jovens sequestradas, e o resultado é confuso. Com os olhos certos, parece um conto a lá Não Fale o Mal (2022), que testa o limite da civilidade e submissão das protagonistas. Mas, realisticamente falando, parece que o maior infortúnio é as duas terem sido capturadas pelo comentarista de Twitter mais chato que você já viu, viciado em conseguir reações às suas provocações.
O filme pode até desencadear reflexões importantes no espectador, mas não há nada substancial, inédito ou muito ousado — especialmente em um roteiro que não chega em lugar algum além de uma conclusão brega. A direção da dupla segue a mesma linha: ideias interessantes, execução pouco inspirada. Há boa construção de suspense nos momentos iniciais, mas o filme não tenta nada de novo quando as coisas começam a apertar. É o terror padrão, para assistir e esquecer.
Felizmente, há algo memorável nisso tudo: Hugh Grant. Em sua estreia no gênero, o britânico carrega o filme por todos os momentos mais truncados, entregando o texto verborrágico com uma naturalidade quase assustadora. Ele dá ao Sr. Reed uma expressão convincente de alguém atormentado pela fé alheia, de quem não só quer entender como a devoção age na mente, mas também acordar aqueles que julga serem vítimas da religião. Seus trejeitos transmitem uma ameaça sutil mas muito presente, como alguém que não conhece os limites da própria curiosidade.

É a performance de Grant que torna crível a ausência de perigos físicos por boa parte do filme. Dá para acreditar que ele é um louco perigoso sem que precise mostrar isso. Do lado contrário, Sophie Thatcher e Chloe East também mandam bem, retratando as missionárias como jovens inocentes, mas não bobas. As duas tentam conciliar a missão com a precaução, e lutam para manter as aparências mesmo quando tomadas pelo medo e insegurança. É uma pena que o roteiro não tenha dado personagens mais interessantes para as duas excelentes atrizes.
Herege pode não ficar a altura do ótimo elenco e premissa que tem nas mãos, mas ainda é proveitoso o bastante pelos dilemas religiosos que sugere ao espectador e, claro, pela força da atuação de Hugh Grant. Tal qual Kathy Bates em Louca Obsessão (1990), o ator demonstra que sabe subverter o próprio charme de forma perturbadora, e merece ser recebido de braços abertos pelo gênero — de preferência, por cineastas mais talentosos e ousados, que sabem como explorar todo o seu talento.
Herege já está em cartaz nos cinemas brasileiros.
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