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Wandinha | Crítica
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Wandinha | Crítica

Série de Tim Burton na Netflix mostra a força de Jenna Ortega em produção que não sabe o que contar

Arthur Eloi
Arthur Eloi
23.nov.22 às 17h07
Atualizado há mais de 1 ano
Wandinha | Crítica
Wandinha/Netflix/Divulgação

Poucas franquias têm o mesmo poder de A Família Addams, que atravessou as décadas, gerações e funciona em praticamente todas as mídias. No cinema, a carismática família sombria ganhou vida no final dos anos 1990 pelas mãos de Barry Sonnenfeld (MIB: Homens de Preto). Agora, quem assume a primeira encarnação live-action da família desde então é ninguém menos que Tim Burton, em sua primeira série de TV: Wandinha, na Netflix.

O seriado é focado na menina - vivida por Jenna Ortega (Você, Pânico) - de gostos mórbidos, que é enviada para um colégio mais apropriado para seus talentos ocultos após acabar não se entrosando com as pessoas comuns. Na Escola Nunca Mais, ela mal tem tempo de tentar entender a hierarquia social do lugar antes de se ver arrastada para uma conspiração envolvendo monstros, homicídios e sociedades secretas.

Normalmente, as histórias da Família Addams costumam envolver todos os membros do grupo, cujas excêntricas personalidades se complementam maravilhosamente bem. Isolar Wandinha é uma decisão ousada, mas cheia de potencial, visto que a garota sempre soube como roubar a cena.

Já a escolha de ambiente é um pouco curiosa. É fácil entender o apelo pelo enorme sucesso no subgênero de fantasia em internatos mágicos, com obras que vão desde Harry Potter até A Casa da Coruja, ou até mesmo no interesse de gerações mais novas por dark academia, subcultura que idolatra, moderniza e recontextualiza a estética encontrada nesses tipos de histórias. Aqui, porém, tudo não passa do estético.

Tudo em todo lugar ao mesmo tempo

O maior problema de Wandinha é não saber qual parte da vida da jovem merece ser explorada. A Escola Nunca Mais pode até ser meio excêntrica, mas raramente é devidamente expandida. O mesmo vale para os dramas de aceitação vividos pela protagonista, que constantemente questiona se seu jeito desprendido é uma bênção ou maldição que a impede de se conectar com os outros. Arcos secundários também chegam fingindo importância apenas para serem descartados, sem mais nem menos.

A ambição de criar um universo rico é maior do que o esforço para escrevê-lo. Falta foco ao seriado, que se vê dividido entre todos os tropos de histórias adolescentes: as figuras caricatas que habitam a escola, a protagonista envolvida em um triângulo amoroso, as competições inusitadas entre classes, e toda a tensão que só um baile pode trazer à vida adolescente.

Todas essas situações são consagradas em histórias do tipo, pois ajudam a criar algum tipo de tensão, conflito ou situação que balance o status quo. Tropos não são o problema, e nem tudo precisa ser subvertido. O problema aqui é o uso jogado dos mesmos, sem espaço para respiro ou profundidade. Para piorar, o mistério central que serve de fio-condutor é facilmente um dos aspectos menos interessantes de Wandinha.

A sensação que fica é de uma série que apenas cumpre tabela dentro do gênero que se inseriu, sem vontade genuína de expandir esse mundo fantasioso e intrigante. É uma pena, pois a série tem sim muita coisa que funciona e diverte.

Dentre as poucas personagens secundárias que chamam a atenção, a jovem Enid Sinclair (Emma Myers) serve como um excelente contraponto para a protagonista. A colega de quarto é o oposto de Wandinha, com apego por cores, simpatia e fofura. A dinâmica entre as duas é adorável, e ajuda a ressaltar o quão mórbida é a menina Addams. É através de Enid que o programa mostra que poderia ser maior se desse mais atenção para os alunos de Nunca Mais, ao invés de se perder em grandes mistérios cansativos.

Mas quem realmente se sobressai, acima de qualquer problema da produção, é Jenna Ortega. Nome recorrente nas obras de horror como X (2022) e Pânico (2022), ela continua sua excelente maré ao encarnar Wandinha como uma garota igualmente ácida e inteligente. A câmera de Tim Burton constantemente realça seu olhar ameaçador e intenso, mas ela apresenta um humor repleto de sarcasmo. Suas tiradas e comentários a fazem parecer uma Darla gótica, que domina toda cena em que aparece.

Ortega já se tornou queridinha dos fãs do macabro mundo afora, e com certeza será chamariz para que muitos entusiastas de horror deem uma chance para a série. Quem for por ela, não sairá decepcionado, mas não há como negar que todo o resto é abaixo do esperado, com ritmo questionável e potencial pouco explorado.

Nos episódios que dirige, Tim Burton impõe todo o seu estilo marcante, mas com impressionante autocontrole que há décadas não demonstra em seus trabalhos. Frequentemente é dito que o diretor se tornou uma paródia dele mesmo, e isso parece enfim tê-lo convencido a explorar a técnica cinematográfica sem ceder às próprias convenções.

Tim Burton e Jenna Ortega são uma parceria forte, de talento marcante e gostos parecidos, mas Wandinha não representa tão bem o quão longe essa dupla consegue chegar. A série da Netflix é confusa demais para o próprio bem, perambulando sem rumo por um mundo deliciosamente macabro, e sem interesse em explorar a própria ambientação que propõe.

Como sempre, a vantagem da TV é poder se encontrar com o tempo. Diversos seriados incríveis tiveram começos mornos. O que falta aqui é justamente se lembrar que televisão é compromisso de longo prazo. Tim Burton até poderia ter acertado a mão com uma avalanche de absurdos da Família Addams no cinema, mas séries pedem por paciência, prioridades ajustadas e tempo para que seus personagens cresçam e tenham voz própria.

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