Dias antes da estreia de Velozes e Furiosos 10, a internet discutia em qual momento específico a saga abandonou qualquer pequena ligação que tivesse com a realidade. Entre cenas maravilhosamente absurdas com Vin Diesel e companhia desafiando todas as leis da física, era de se esperar que o capítulo final da franquia levasse as maluquices ainda mais adiante. Mas o que se vê no novo filme é uma inexplicável pisada no freio em uma trama de ação que até diverte, mas não empolga.
A trama tem Dominic Toretto (Diesel) e equipe tocando a vida em família realizando missões pelo mundo. Tudo muda quando o malvado Dante Reyes (Jason Momoa) começa a caçar o fortão em busca de vingança pela morte do pai em Velozes e Furiosos 5 (2011).
Cafona e exagerado ao extremo, o vilão de Momoa é de longe o elemento mais divertido do longa justamente por não se levar a sério. Longe da seriedade exagerada do universo DC, o ator grita, gargalha e inferniza a vida de Toretto com um carisma tão grande quanto os braços. A própria concepção do personagem já beira o absurdo que se espera de Velozes e Furiosos, já que ele sequer existia à época de Velozes 5, e convenientemente apareceu em busca de sangue só agora, 12 anos depois. Mesmo com um vilão assim, é uma pena que o filme nunca abrace de vez a galhofa, ao contrário dos predecessores.
O jogo de gato e rato entre Dom e Dante leva o corredor de volta ao Brasil, mesmo cenário do quinto filme. O público do país vai se divertir de novo com o português bisonho dos personagens, que pode até ser perdoado como parte do charme cafona da franquia, mas faz pensar se, por exemplo, não havia alguma atriz brasileira para viver a importante personagem Isabel, da portuguesa Daniela Melchior.

Enquanto Toretto corre nas ruas do Rio, Roman (Tyrese Gibson), Tej (Ludacris), Han (Sung Kang) e Ramsey (Nathalie Emmanuel) estrelam uma divertida subtrama ao tentarem se encontrar com o protagonista após sobreviverem a uma emboscada de Dante na Europa. O quarteto funciona como alívio cômico mesmo sem a presença imponente de Vin Diesel, o que indica ao menos uma importância e tempo de tela equilibrados entre os membros do grupo, ainda que não haja dúvidas de quem é o grande astro.
O mesmo não pode ser dito das principais novidades na franquia. Estrela de Capitã Marvel (2019), Brie Larson aparece em uma esquecível participação como Tess, filha do Sr. Ninguém (Kurt Russell), e John Cena retorna de Velozes e Furiosos 9 (2021) como o Toretto caçula em uma participação engraçada (digna do carisma do ator), mas igualmente descartável.
Problemas do tipo passariam mais despercebidos se a franquia pisasse fundo no acelerador do absurdo e caprichasse nas cenas de ação. Novato na direção da saga, Louis Leterrier até tinha o currículo necessário para assumir o volante (ele comandou os dois primeiros Carga Explosiva), mas não imprime uma assinatura própria no longa, que acaba batendo na trave justamente onde deveria brilhar mais.
Ainda que as porradarias e perseguições de carro sejam bem construídas, não tem como esconder a frustração de não vermos Diesel desafiando qualquer lógica em uma franquia que jogou um carro literalmente no espaço apenas um filme atrás. E mesmo se a ideia for pegar mais leve justamente para entregar o deleite de loucuras no próximo filme, é aí que está o maior pecado da trama.
Velozes e Furiosos 10 é o primeiro filme de uma duologia (que aparentemente pode virar trilogia, a depender do sucesso) que promete encerrar a saga. Tal situação é perceptível mesmo pelo roteiro, que por vezes parece mais preocupado em estabelecer pontos que só serão resolvidos em produções futuras. Há uma cena, por exemplo, em que determinado personagem aparece literalmente apenas para informar que fará tal coisa, que só será vista nas possíveis sequências. Não que haja necessariamente algo errado em se estabelecer uma história contínua, mas há exemplos recentes de produções que seguram melhor a onda sozinhas mesmo atreladas a uma conclusão em outro filme, como Vingadores: Guerra Infinita (2018).
Falta óleo nas engrenagens de Velozes e Furiosos 10, que cumpre, ainda que de maneira burocrática, o que se propõe, mas precisa de uma dosezinha extra de nitro para acelerar fundo se quiser detonar a linha de chegada.
O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros. Michelle Rodriguez, Jason Statham e Scott Eastwood completam o elenco.