Tina – Respeito | Fefê Torquato conta os bastidores da criação da HQ

"Elas não eram relevantes, então eu ignorei", diz sobre as críticas na internet

Belle Felix Publicado por Belle Felix
Tina - Respeito | Fefê Torquato conta os bastidores da criação da HQ

O lançamento de Tina – Respeito fez barulho assim que a capa foi anunciada pelo editor do selo Graphic MSP, Sidney Gusman, nas redes sociais — ela foi super bem recebida, mas também gerou uma pequena polêmica. Parte da internet reagiu de forma negativa diante da releitura da personagem. Tina estava “séria demais”, “não era mais sensual” e alguns até procuraram defeitos no traço da desenhista e roteirista da HQ, Fefê Torquato.

Na capa, Tina aparece de cara fechada e braço estendido em sinal de “pare”, à frente de vários computadores com telas acesas. Muito se foi discutido sobre o tema da obra, até que ele foi “desvendado”: assédio no trabalho.

Fefê Torquato reinventou a história de Tina habilmente, transformando a personagem em uma jovem jornalista em seu primeiro trabalho numa redação contemporânea. A história trata de um tema presente na vida de muitas mulheres em ambientes corporativos, embora ela mesma nunca tenha trabalhado em uma redação ou escritório.

Então, se ela não teve essa experiência, como conseguiu retratar tão bem essa realidade? Procurei a autora para falar um pouco sobre suas inspirações, desafios e saber como foi criar a sua própria versão de Tina.

Fefê Torquato, autora da HQ Tina – Respeito. Foto: Divulgação

NerdBunker – Para descobrir como veio a ideia do roteiro de Tina, queria saber se você já sofreu algum tipo de assédio.

Fefê Torquato – No trabalho, não, porque eu sempre trabalhei por conta própria. Mas quando a Think Olga criou a hashtag #PrimeiroAssedio eu pensei que não tinha nenhuma história pra contar, até que parei pra pensar. Foi então que lembrei de muitas que surgiram desde a infância, com uns oito ou nove anos, e pela adolescência, envolvendo uma figura que carrega nossa total confiança: um médico. E aparentemente não disse nada pra ninguém, além de bloquear da minha memória.

A Tina está palpável na obra, quero dizer, ela tem várias facetas, dúvidas e inseguranças bem humanas. Você sentia isso na personagem original?

Na Tina dos anos 1990, que foi a que eu tive contato maior, não. Não me conectei muito com ela. Mas a do início dos anos 1970 e o trabalho que fizeram depois dos anos 2000 foi onde busquei mais informações sobre quem era de fato a personagem. A partir daí eu desenvolvi a “minha” Tina.

E como foi esse processo para conseguir retratar ela no papel?

Não existe nenhum segredo, receita ou técnica. Eu simplesmente tentei imaginar ela como alguém real, e busquei nas minhas próprias referência pessoais, traços e atitudes que fossem genuínas o suficientes pra passar essa verdade pra quem lesse. Pra isso dar certo é apenas preciso ter imaginação e empatia.

Tem uma personagem que é negra e lésbica. Você teve algum receio de fazer isso numa obra da Turma da Mônica?

Sim e não. Sim, porque a gente vê a dificuldade em uma série popular voltada pro público infanto-juvenil em falar abertamente sobre sexualidade, por conta da grande repercussão negativa que isso tende a ter, em geral por pessoas ignorantes que confundem sexualidade com sexo. Talvez esses mesmos indivíduos devessem se informar mais juntos às crianças. E não, porque é um absurdo a existência de alguém, ainda por cima fictício, ser encarado como uma polêmica.

Qual a importância que você vê em Tina – Respeito no mercado de quadrinhos?

É um vislumbre leve da experiência cotidiana de uma mulher. A sociedade em que a gente vive torna a nossa vida exaustiva, dada a energia que nós perdemos nesse constante alerta. A gente esquece, normaliza, mas o simples fato de ter de se confrontar com essas rotinas de cuidado nos faz ter de encarar o absurdo que isso representa.

Uma garota ler essa HQ e se enxergar em cada cena não é normal! Não deveria ser. Mas isso nos une de alguma forma e dessa união, eu acredito, vem a nossa força em dar um basta.

E aos leitores que não passam por essas situações, que eles aproveitem essa oportunidade de ser a Tina por algumas páginas e, assim, poder entender um pouco mais sobre a realidade dos outros.

Capa de Tina – Respeito

Como foi lidar com as respostas negativas e mensagens de ódio na internet?

Elas não eram relevantes, então eu ignorei.

Como é trabalhar num dos maiores projetos editoriais dos quadrinhos brasileiros? Com Mauricio de Sousa?

Bem surreal, não caiu muito a ficha. Jamais imaginei que conheceria o Maurício de Sousa ao vivo, quanto mais criar uma história pra um dos seus personagens, usando o meu próprio traço!

Em Tina, você usou técnicas de aquarela. Como foi criar essa narrativa sequenciada para a HQ? Desde o visual da Tina — que nos seus primeiros esboços tinha cabelo curtinho e depois ganhou cabelos longos — à escolha da paleta.

Foi mais tranquilo do que imaginava no começo. A aquarela é uma técnica que demora bastante quando se trabalha em uma única imagem, mas se você trabalhar com várias ao mesmo tempo, ela pode ser bastante prática. Também acho que a leveza do material foi um bom contraponto ao peso do tema. E tentei emplacar um cabelinho curto na Tina, mas não rolou! Haha!

Você tem vontade de fazer outros personagens da Mauricio de Sousa?

Eu imagino que eles sempre vão buscar mais artistas diferentes pros personagens não explorados, mas que seria bem massa poder fazer a Pipa, seria! Ainda que o meu preferido de todos sempre seja o Chico Bento!