The Boys – 2ª temporada | Crítica

Com um novo ano insano, brutal e chocante, a série consegue superar as altas expectativas criadas

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
The Boys – 2ª temporada | Crítica

The Boys foi uma das maiores e melhores surpresas entre as séries de 2019. Com um enredo que subverte o já tão conhecido gênero de super-herói, a produção apresenta uma gama de personagens extremamente interessantes, além de uma trama cheia de ação, sangue e violência. Assim, ficou impossível não manter as expectativas altas para o segundo ano da produção do Amazon Prime Video, que não só consegue alcançá-las, como também as supera.

O novo ano da série é um bom exemplo de que é possível continuar a qualidade de um título sem usar à exaustão a sua fórmula inicial. Enquanto a primeira temporada nos apresenta a este universo no qual super-heróis existem e as implicações na sociedade por causa deles, o segundo ano mergulha nas histórias de seus personagens – tanto dos “supes”, quanto dos The Boys – e faz isso de maneira completamente insana. Sim, esta é a melhor palavra da língua portuguesa para descrever o que acontece durante o segundo ano de The Boys.

A nova leva de episódios chega a um novo nível no quesito loucura e se distancia ainda mais da ideia de super-heróis morais e bons, construída pela Marvel e pela DC. A segunda temporada é absolutamente não recomendada para menores de idade e pessoas sensíveis, pois apresenta de maneira explícita muito conteúdo sexual e violento, mas faz isso de maneira que entretém o público, sem o repelir pelo exagero: a produção encontrou o equilíbrio entre o choque e o interesse do espectador. Mais do que simplesmente descrever o que acontece, é melhor você ver com os próprios olhos para não estragar a experiência

Os três primeiros episódios serão disponibilizados juntos no dia 4 de setembro, com uma de hora de duração cada. Eles ditam o ritmo da série aos poucos, pois a trama da segunda temporada vai nos sugando e, quando percebemos, estamos aficionados com o que nos é apresentados. Logo no início, com cenas brutais e cruas, é possível ter um deslumbre de como serão os eventos que acontecerão até o final da temporada.

Entre tantos bons acertos do novo ano, o protagonismo feminino é um dos principais. Starlight (Erin Moriarty) e Kimiko (Karen Fukuhara) evoluem e a mudança fica nítida na personalidade de suas personagens, mostrando que não é possível elas se manterem as mesmas depois dos acontecimentos da primeira temporada. Já Queen Maeve (Dominique McElligott) finalmente recebe mais atenção, proporcionando interessantes e necessários debates sobre orientação sexual e a exploração do assunto pela mídia.

Quanto aos novos personagens, Stormfront (Aya Cash) é a principal deles, revelando em doses homeopáticas a que veio e, principalmente, do que ela é capaz. A sua presença é imprescindível para o desenvolvimento principal do novo ano, pois além de introduzir a ideia de redes sociais ao grupo Os Sete, ela finalmente é um personagem com poderes à altura dos do temido Homelander (Antony Starr).

Por falar no líder dos super-heróis, o personagem expõe ainda mais a sua megalomania e sociopatia durante o novo ano. Justamente pela chegada de Stormfront ao grupo, a posição de poder de Homelander é colocada em xeque, e os seus conflitos internos, liderados por seus traumas, acabam se exacerbando. Antony Starr entrega um atuação ainda mais assertiva da apresentada na primeira temporada, além de protagonizar diversos dos momentos mais malucos do novo ano.

Em contrapartida, The Deep (Chace Crawford) e A-Train (Jessie Usher) acabam ficando de lado durante o decorrer dos episódios. Há uma tentativa de justificar os traumas de The Deep, por exemplo, mas ao tentar explicar o porquê dos atos criminosos do personagem, a série perde um pouco o tom e parece mostrar que ele é apenas uma vítima do sistema e não o causador do problema. O mesmo acontece com A-Train, que começa a se perder em seu próprio egoísmo e se torna um personagem que atrapalha o andamento da trama.

Quanto ao controverso grupo dos The Boys, o passado e as histórias individuais de Billy Butcher (Karl Urban), Mother’s Milk (Laz Alonso), Frenchie (Tomer Kapon) e Hughie Campbell (Jack Quaid) são muito bem exploradas, trazendo ainda mais camadas aos personagens, além de explicar ao público o porquê de seus atos. Isso acontece por meio de diversos flashbacks e diálogos expositivos que cumprem o papel de responder as diversas questões deixadas em aberto até então.

A série também explora assuntos bastante atuais e mundialmente comentados, como o preconceito contra estrangeiros e o crescimento de movimentos de supremacistas brancos. Alguns personagens estão diretamente envolvidos nessas questões e proclamam discursos iguais aos proferidos atualmente contra minorias. Os temas são tratados de maneira orgânica, sem serem forçados, mas não é coincidência eles aparecerem na série: fica clara a intenção de criticar posturas racistas e preconceituosas de algumas figuras políticas dos Estados Unidos.

The Boys tem um diferencial na forma como mistura drama, ação e comédia na dose certa para a entreter e chocar o público. A enxurrada de cenas brutais e chocantes a que somos expostos durante a segunda temporada são muito bem casadas à trama, não deixando a atenção do espectador cair ao longo de seus oito episódios. O novo ano consegue fazer jus à primeira temporada ao não deixar nada a desejar e entregar mais do que era esperado, além instigar a curiosidade para o que pode vir no futuro.